que mente incrivel o paul b. preciado tem! so pelos titulos de cada artigo/capitulo ("a lógica do dildo, ou as tesouradas de derrida", "breve genealogia dos brinquedos sexuais ou como butler descobriu o vibrador" são só alguns exemplos) dá pra sentir o riso vindo junto da surpresa e da dúvida (que fica sendo trabalhada na nossa cabeça durante e depois). fui me divertindo, me questionando e me surpreendendo (nao necessariamente nessa ordem) a cada frase (que as vezes tinham que ser lidas duas, tres, quatro vezes até passar do riso pra alguma elaboracao da minha parte) com as leituras humoradas e críticas que preciado faz de autores como butler, deleuze e guatarri. esses sao só alguns dos diversos nomes que preciado mobiliza pra pensar numa desconstrucao da identidade, que permite colocar o dildo ao lado do ciborgue, de donna haraway, como aquele que abala as estruturas de natureza/tecnologia, afinal, qual a diferenca de um dildo para uma mao, que temos como natural? uma mao, desviada de sua "funcao", tambem vira protese, tambem deixa de ser "natural" quando se desvia de seu papel. a plasticidade do dildo permite que o pensamento da diferença entre humano e natureza, mas tambem entre essencia e artificialidade, funcao e desvio, nao se sustente como nos debates dos feminismos construtivistas (ou qualquer discurso de identidade). e o mais interessante pra mim, foi que paul b. preciado, mesmo com seu formato muito próxima do ensaio academico, faz um texto que cada frase pode gerar diversas discussoes nao so dentro da academia. eu sinto que, em alguns momentos, colocando so o dildo, sem citar haraway ou derrida, eu poderia facilmente debater sobre uma passagem com uma amiga minha. porque ate quando ele nao cita diretamente, ele está em constante diálogo com todos esses teóricos e esse fator que pode parecer deixar o texto "facil", na verdade o torna muito mais complexo, porque, como me parece tudo proximo a mim, a familiaridade me dava estranheza. eu me enganava pensando que entendia, mas porque eu entendia mesmo, so que quando ele trazia em dialogo com um teorico que eu nao tinha contato, o tema crescia e crescia e crescia, porque o dialogo tinha discordancias, mas tambem criticas e camadas que eu nao domino ainda. o texto nao queria dizer so o riso, a surpresa ou uma questao, era sempre mais de tudo isso.
queria explicar mais, falar mais, porque parece que nunca é o suficiente e nao é mesmo. toda hora penso em outra coisa, me lembro de uma passagem, mas enfim, uma das melhores leituras do ano!