"We maintain law and order here. This isn't Stockholm."
"Murder at the Savoy", o sexto livro da série do Martin Beck, mantém o mesmo estilo de narrativa sarcástico, perspicaz e introspectivo que os volumes anteriores.
É Verão e os habitantes de Estocolmo mantêm as suas rotinas sob o sol excessivamente quente que se faz sentir. O número de crimes na cidade aumentou e a violência parece ser despoletada pelas temperaturas elevadas. Apesar disso, Martin Beck está, como quase sempre, constipado!
"There aren't any ordinary murders."
Um jantar no Hotel Savoy, em Mälmo, acaba em tragédia quando o anfitrião, Viktor Palmgren, um homem de negócios de renome, é assassinado a meio do seu discurso. A investigação é imediatamente entregue a Per Mansson, inspector que colaborou com o nosso protagonista em várias ocasiões anteriores, e o suspeito teria sido facilmente capturado caso não se desse um pequeno imprevisto.
Kristiansson e Kvant metem água para variar um pouco! Como se encontram perto do local, Per Mansson pede ao duo para interceptar o suspeito em Estocolmo. Ainda que avisados com 20 minutos de antecedência a dupla, que não podia ser mais incompetente e preguiçosa, parou num drive-in para comer um cachorro e demorou 15 minutos a multar uma criança que, supuseram eles, os insultou. Este mal entendido faz com que o suspeito escape. E, como já se veio a tornar hábito, fez com que ambos sejam sujeitos a um sermão de Gunvald Larsson, que apesar de uma personagem peculiar odiada por quase todos, tem toda a razão para estar furioso. Afinal de contas, não é a primeira, nem a segunda vez que se depara com esta parelha curiosa.
"It'll be the one and only Beck."
Martin Beck é então enviado para Mälmo para colaborar com Mansson. Juntos trabalham nesta investigação, analisando pistas e entrevistando suspeitos. São ajudados por Kollberg, que contacta com as pessoas de interesse em Estocolmo, pelo cada vez mais impaciente e insuportável Gunvald Larsson e ainda pelo ambicioso e novato Benny Skacke, que foi transferido para a equipa de Per Mansson após o incidente em Estocolmo, numa missão ao lado de Kollberg, no livro anterior "The Fire Engine That Disappeared".
Martin Beck encontra-se sob uma maior pressão que o normal, pois a investigação envolve a politica (temática por ele desprezada) podendo mesmo ter um impacto a nível internacional. Por esta razão, são chamados a intervir os Serviços Secretos, que empreendem numa desconfortável e dispensável investigação paralela. Aos olhos de Beck esta força que supostamente deveria passar despercebida, dá demasiado nas vistas e demoram demasiado tempo para produzir resultados úteis.
Após 18 anos de casamento Martin Beck deixa Inga, que fica a viver com o filho de 14 anos. Quanto a Ingrid, a filha adolescente, voou do ninho. Solteiro e num novo apartamento vê as suas típicas dores de estômago e falta de apetite desaparecerem gradualmente. Neste novo contexto da sua vida pessoal, pela primeira vez desde o inicio da série, Martin Beck tem direito a romance e a felizarda é Asa Torell. Apesar de já se conhecerem e conviverem há algum tempo, o momento amoroso foi estrategicamente preparado pelo seu melhor amigo, que decide fazer de cupido! Foi Kollberg que ajudou e deu cama a Asa quando o namorado e colega de trabalho destes dois inspectores morreu assassinado no livro "The Laughing Policeman".
O livro leva-nos a reflectir na casualidade ou, para quem acredita, no destino. Um simples ser humano, um homem comum, igual a tantos outros, com uma vida chamada normal - família, trabalho e amigos - pode atingir os seus limites quando incapaz de suportar mais infortúnios e infelicidades. A linha que separa o bem do mal é muito ténue e facilmente ultrapassada. Como sempre, Söjwall e Wahlöö focam-se na área cinzenta do dia-a-dia na Suécia: a área mais comum a todos nós, onde um homem com um bom coração e boas intenções recorre ao mal para praticar o bem. Será isto correcto? Quanto a mim posso dizer que me identifiquei e senti empatia pelo assassino. Contrariamente, a vitima, que em vida desempenhou um papel influente e poderoso na corrupção e exploração da Suécia, nada mais me fez sentir por ela do que desprezo.
Tal como nos livros anteriores, Maj Söjwall e Per Wahlöö são minuciosos nas suas descrições, sejam elas das personagens, procedimentos policiais, cenários ou ambiente envolvente.
"Murder at the Savoy" é um livro que se iguala aos que o antecedem, caracterizado por uma qualidade excepcional, que não poderia ser mais elevada.
Mais uma investigação resolvida com sucesso. Quanto a Martin Beck sente que a justiça apenas beneficiou os verdadeiros criminosos, que permaneceram livres. Deprimido, atormentado e com o assassino, quem compreende e por quem sente simpatia, no seu pensamento, volta a Estocolmo cabisbaixo. Afinal de contas, ser inspector de homicídios é tudo menos tarefa simples.
"Hungover detective questions hungover witness, Very constructive."