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Que Importa a Fúria do Mar

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Numa madrugada de 1934, um maço de cartas é lançado de um comboio em andamento por um homem que deixou uma história de amor interrompida e leva uma estilha cravada no coração. Na carruagem, além de Joaquim, viajam os revoltosos do golpe da Marinha Grande, feitos prisioneiros pela Polícia de Salazar, que cumprem a primeira etapa de uma viagem com destino a Cabo Verde, onde inaugurarão o campo de concentração do Tarrafal. Dessas cartas e da mulher a quem se dirigiam ouvirá falar muitos anos mais tarde Eugénia, a jornalista encarregada de entrevistar um dos últimos sobreviventes desse inferno africano e cuja vida, depois do primeiro encontro com Joaquim, nunca mais será a mesma. Separados pelo tempo, pelo espaço, pelos continentes, pela malária e pelo arame farpado, os destinos de Joaquim e Eugénia tocar-se-ão, apesar de tudo, no pêlo de um gato sem nome que ambos afagam e na estranha cumplicidade com que partilham memórias insólitas, infâncias sombrias e amores decididamente impossíveis. Que Importa a Fúria do Mar é um romance de estreia com uma maturidade literária invulgar que coloca, frente a frente, duas gerações de um Portugal onde, às vezes, parece que pouco mudou. Brilhante no desenho dos protagonistas e recorrendo a um estilo tão depressa lírico como despojado, a obra foi finalista do Prémio LeYa em 2012.

240 pages, Kindle Edition

First published January 1, 2013

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About the author

Ana Margarida de Carvalho

21 books60 followers
ANA MARGARIDA DE CARVALHO nasceu em Lisboa, onde fez a licenciatura em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa (1992). Viria a tornar jornalista, assinando reportagens que lhe valeram sete dos mais prestigiados prémios do jornalismo português, entre os quais o Prémio Gazeta Revelação do Clube de Jornalistas de Lisboa, do Clube de Jornalistas do Porto ou da Casa de Imprensa. Passou pela redacção da SIC e publicou artigos na revista Ler, no Jornal de Letras, na Marie Claire e na Visão, onde ocupa actualmente o cargo de Grande Repórter e faz crítica cinematográfica no roteiro e no site de cinema oficial da revista, o Final Cut. Leccionou workshops de Escrita Criativa, foi jurada em vários concursos oficiais e festivais cinematográficos e é autora de reportagens reunidas em colectâneas, de crónicas, de guiões subsidiados pelo ICA e de uma peça de teatro.

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11 (4%)
Displaying 1 - 30 of 46 reviews
Profile Image for Teresa.
1,492 reviews
January 11, 2018
Meti-me nesta escravidão do verniz de gel e, periodicamente, lá tenho de gramar a pastilha de estar meia hora a olhar para o boneco. Há dias, calhou-me olhar para a boneca. Quando a manicure se sentou à minha frente, ia-me dando um piripaque (e depois vários com o esforço de evitar olhar para ela e controlar o riso e a repugnância). A moça meteu a boca na caixinha das abelhas e, como resultado, além de uma carnadura com um terrível aspecto de infecção, o lábio superior quase lhe tocava no nariz e o inferior na ponta do queixo. Um susto!

Esta "mini crónica" vem a propósito da estética, que aprecio e valorizo, desde que efectuada com parcimónia, ou com exagero mas por um bom "cirurgião". Rebicoques só porque sim, não...

O que encontrei neste romance pôs-me no limite da exasperação.
Vocabulário tão rebuscado que me dava náuseas (o romance inicia-se com a palavra "Tersa" - consultei o dicionário e não consegui perceber que raio quer a senhora dizer com aquilo).
Um despejar contínuo da cultura - literária, musical, geográfica e por aí fora - da Ana Margarida de Carvalho. No início de cada capítulo há uma epígrafe com uma frase de um escritor, demonstrativa que a senhora leu muito, que não consegui enquadrar no texto. Por exemplo, o último capítulo tem como epígrafe a frase final da peça "Rei Édipo" de Sófocles - a trágica derrocada da vida de um homem e de uma família - e não vejo qualquer relação com o final deste romance (só se for pela referência ao cão cego...).
E o capítulo do bichedo (louva-a-deus, sapos, doninhas, etc) é para quê? Para referir o Diógenes e o Alexandre Magno e o leitor receber umas liçõezinhas de ciências da natureza? Muito útil. Fiquei a saber que os melros também sofrem AVCs.
Tem muito fluxo de consciência e capítulos "à la Joyce": "iaiaiaiaiaiaiaáááááaá... iáiáiáiáiáiáiáiáiá...!".
E muitos parágrafos terminados com vírgula e continuados na linha seguinte, estilo António Lobo Antunes.
Enfim... há de tudo. Mas que recebi, com a mesma incredulidade e desagrado como àquela coisa tumefacta que a senhora das unhas tem entre o nariz e o queixo.

(Eu deveria ser bondosa porque é um primeiro livro e de uma autora portuguesa. Mas que me importa! Sou Teresa não madre...)
Profile Image for Nelson Zagalo.
Author 15 books469 followers
July 16, 2017
Mais uma primeira-obra portuguesa que merece nota máxima, depois de “O Meu Irmão” (2014) e “Perguntem a Sarah Gross” (2015). Todas com boas histórias, bem escritas, mas com estéticas muito diferentes, e neste caso não admira que António Lobo Antunes lhe tenha tecido elogios, já que Ana Margarida de Carvalho escreve na sua senda. Temos um discurso indireto livre sem freios, que entra pelas mentes dos personagens adentro e os esventra dos seus sentires. Tendo recentemente lido “Myra” de Maria Velho da Costa, “Que importa a fúria do mar” não está ao mesmo nível, falta-lhe maturidade capaz de conferir um controlo fino do texto e do que vai dizendo, mas aproxima-se bastante e promete sobre Ana Margarida de Carvalho.

“Que importa a fúria do mar” é um texto curto, 200 páginas, dotado de uma escrita erudita e não-linear, mas que ainda assim no desenrolar de páginas se vai colando a nós, tornando a leitura cada vez mais fácil e rápida. Em pouco tempo damos por nós a querer virar páginas para saber o que vai acontecer a seguir, tendo já esquecido que o discurso não segue linear, e que ora estamos dentro de Eugénia, de Joaquim, Francisco, o Gato ou o Pastor, mas com a autora sempre a manter o caminho da trama suficientemente iluminado, exigindo apenas quanto baste pela experimentação estética que vai realizando.

"Eras tão nova, mãe. E eu agarrada aos teus sonhos, aos teus cabelos, aos teus sapatos, ao teu presente, ao teu futuro – e pior – ao teu passado, que tu querias esquecer. Mas lá estava eu a fazer-te lembrar que tinha mesmo acontecido. Desafortunadamente, era uma menina empecilho, largada numas paragens agrestes e húmidas, em casa de uns parentes remotos. E velhos."

Para primeira obra é admirável escrever-se assim. Não só ter uma boa história para contar, que enlaça o passado ditatorial e colonial do nosso país com o presente das tragédias de quem por cá sempre viveu e tem de viver, mas acima de tudo por um texto capaz de ser tão intrincado e ao mesmo tempo tão aberto, tão dado. Existem claro passagens menores, alguns excessos. Muita crítica é feita ao palavreado rebuscado, que se sente mais no início e que acaba por perder leitores, mas que vejo mais como sintoma de alguma insegurança originada pela imaturidade. Do meu lado, sinto ainda um excesso no número de tragédias apresentadas tão a jeito de catarse emocional, e que por vezes até em aberto se quedam. Mas é também, em parte, graças a estas catarses, que Ana Margarida de Carvalho consegue a nossa atenção e interesse todo o tempo da leitura, fazendo deste texto um dos livros portugueses que mais mexeu com as minhas emoções.

"Ao calor do meio-dia, Joaquim fazia por enterrar os arrames farpados nas costas. Preferia focar-se na dor das feridas do que na sede que o ensandecia. Isso e as moscas que não podia enxotar e lhe sondavam a face com as suas trombinhas impertinentes."

"Não estou aqui para curar, mas para assinar certidões de óbitos"

Quanto à chave do texto, está no título. As suas duas primeiras palavras dizem tudo. As tragédias passam por nós, os outros passam por nós, e nós seremos o que todos estes fizeram de nós.

[imagens]
Fotografias do Campo de Concentração do Tarrafal, Cabo Verde, 2016

Nota final: O facto de ter estado no Tarrafal este ano contribuiu, e muito, para ampliação do meu sentir do que se encerra nas páginas deste livro. Inevitável criar estas relações com as obras que se aproximam de nós, a familiaridade é um dos mais poderosos afrodisíacos do prazer das histórias.


Publicado no Virtual Illusion: https://virtual-illusion.blogspot.pt/...
Profile Image for Cláudia Azevedo.
397 reviews223 followers
August 29, 2020
Ana Margarida de Carvalho escreve muito bem e a história, que evoca as vítimas precoces do Estado Novo no Tarrafal, é interessante, ainda que triste.
Joaquim da Cruz (curiosamente, o meu pai tem o mesmo nome e os mesmos olhos verdes) conta a Eugénia, uma jornalista, como sobreviveu ao desterro e como o seu amor por Luísa o manteve vivo.
No entanto, talvez por este ter sido o primeiro livro da autora, a narrativa é intercalada, amiúde, por observações paralelas, muito eruditas, sem dúvida, mas que distraem do essencial.
Tenho vontade de ler algo mais recente da autora.
Profile Image for João Carlos.
670 reviews316 followers
February 19, 2017


Campo do Tarrafal ou Campo de Concentração do Tarrafal ou Colónia Penal do Tarrafal - Chão Bom, Tarrafal, Ilha de Santiago, Cabo Verde

São 4* + 1*

A literatura portuguesa está "bem" e recomenda-se...
Mais uma excelente surpresa...
Review mais tarde...
Adorei a Eugénia.




A 29 de Outubro de 1934, 57 marinhenses que participaram no 18 de Janeiro de 1934 "inauguraram" o Campo do Tarrafal
Profile Image for Sofia.
1,042 reviews127 followers
December 13, 2017
O ano passado li "Não se pode morar nos olhos de um gato" da mesma autora e não fiquei fascinada. A impressão que o livro me passou foi de uma escrita demasiado forçada, erudita, sem haver, contudo, a preocupação de cativar o leitor (o que é comum a muitos autores portugueses). No entanto, porque sou persistente (ou casmurra), decidi ler também o outro romance da autora "Que importa a fúria do mar". E em muito boa hora o fiz.
Bem escrito (inicia um pouco no estilo do outro romance, mas dura apenas os primeiros capítulos, por isso não se sintam intimidados pelo léxico "elaborado"), com uma história cativante (é uma história de amor? Não sei.), mas com uma série de pequenas tramas secundárias bem conjugadas com a trama principal e que ajudam ao ritmo do romance (entre o Tarrafal, a ditadura, as diferentes infâncias das personagens e a vida profissional de Eugénia, há muito por onde o leitor se perder - no bom sentido.)
Em suma, se tiverem de optar por um livro da autora, escolham este, sem dúvida.

"Eugénia amava-o, não tinha dúvidas. Joaquim amava Luísa, também não restavam dúvidas. Mas, até certo ponto, os seus dissabores de coração confluíam. Estavam ambos apaixonados por uma projecção. Ele pelo retrato de uma mulher que nunca fora. Ela por um homem que há muito deixara de o ser. O que, se não é uma tragédia grega, será, no mínimo, dramático."
Profile Image for Ana.
762 reviews179 followers
September 14, 2016
Comprei este livro porque a sinopse prometia e porque sinto um gostinho especial quando espreito o mundo de novos autores portugueses. Que importa a fúria do mar aliciou-me garantindo-me uma espreitadela ao nosso passado ditatorial e a umas das suas facetas mais doentias – o campo de concentração do Tarrafal. Piscou-me o olho com uma história de amor que nos anestesiaria e faria com que arrumássemos no cantinho dos factos inumanos cometidos por humanos todas as descrições de dor, tortura, desespero daqueles acorrentados apenas por ansiarem por um futuro mais justo.
As expectativas eram assim consideráveis. Contudo, foram-se escorrendo mal abri o livro e percorri as páginas iniciais… Primeiro instalou-se a frustração e a esta seguiu-se aquilo que mais temo que aconteça em qualquer leitura – ergueu-se uma carapaça que não possibilitou a tão saborosa ligação entre leitora e leitura. Inconscientemente (ou talvez não) deixei que se instalasse a malfadada indiferença e, por muito que lutasse para afastá-la, sabia que dificilmente ganharia essa luta.
Não foi um completo desperdício de tempo. A personagem de Joaquim não deixou que fosse. A sua personalidade, os seus imensos olhos verdes, a sua infância dorida, a intensidade de amor que devotava a Luísa assemelharam-se a uma boia que me manteve a flutuar num mar linguístico demasiado barroco, rococó. Sinceramente esperava que a autora, que é jornalista, optasse por um estilo mais limpo, mais “clean”. Concordo com as opiniões que fui lendo no goodreads e que transmitem alguma frustração perante uma história que teria os ingredientes certos para resultar numa leitura interessantíssima e que, sobretudo por causa de um estilo pomposo e algo artificial, leva a que o leitor não se deixe embalar, lute, esbraceje e ponha o livro de lado ou, como eu, continue a virar páginas, indiferente ao que vai encontrando.
Para além do estilo rebuscado, considero que a personagem que partilha o protagonismo com Joaquim – Eugénia – poderia estar mais bem explorada. Apresenta comportamentos e considerações irritantes que são suavizados por analepses à sua infância e juventude. Busca com insistência a aprovação dos outros apesar de querer demonstrar o contrário e coloca a sua vida em pausa quando conhece Joaquim, a quem quer entrevistar como sendo o único sobrevivente vivo do Tarrafal e em quem cuja casa se instala. Compreende-se que uma menina-mulher que nunca foi convenientemente amada queira mergulhar nos olhos de Joaquim, enroscar-se no seu colo (como se um gato fosse) e recriar-se no papel de Luísa. Mas, mesmo que tudo isto nos seja desvendado, nunca criei laços com Eugénia e nunca deixei de sentir que haveria muito ainda para explorar, de preferência de uma forma clara, mais direta e ainda assim clarividente e enternecedora.
Uma leitura confusa, rebuscada e de alguma forma indiferente deriva numa opinião mastigada… Não estou particularmente contente com o que escrevi até aqui, mas não me sinto capaz de fazer melhor. Sinto-me, sim, ansiosa por acabar este texto, publicá-lo e seguir em diante. Que venha uma nova leitura, ou melhor, uma releitura – vou regressar aos braços de Almudena Grandes, que nunca, nunca me defraudou, leia uma, duas, três vezes o mesmo romance, os mesmos contos. Tenham eles 20, 100, 800 ou 1000 páginas!

NOTA – 06/10

http://osabordosmeuslivros.blogspot.p...
Profile Image for David.
1,698 reviews
May 11, 2020
“Who ever is against the New State and our country is against me.” Does this sounds familiar? Perhaps uttered many times by a sitting president of a large country today? How about 1934 under Salazar?

After implementing the “New State” program in Portugal, Salazar created a concentration camp for political dissents in Tarrafal, Cabo Verde, off the African coast. In that same year, an insurrection took place in Marinha Grande and many, mostly communists, were rounded up and sent to Cabo Verde.

Joaquim is interviewed by the journalist Eugénia, many years later. He is one of the last survivors of the camp. His story is wrapped around is a bundle of letters written to his great love, Luisa.

Eugénia, in her thirties, had a marriage fail and she too has ghosts from her past. All of this surfaces as the elder Joaquim retells his stories of his life in prison. His life has been very hard and Eugénia is swept up with his pain.

I was often swept away by the words of Ana Margarida de Carvalho. When she discussed allegory and symbolism, such as a “life is like a river”, her words were very profound and enlightening. She also noted how in some countries, most notably Latin American countries, the river was used for violence. Her visual imagery is very memorable.

This is a short book(209 pages) but a profoundly challenging read. It’s not all painful, there are many humorous parts, but her aim to reflect on the past, tied to the present, made me think reflect on humankind’s insatiable appetite for sowing pain on others, while at the same time, the curative and restorative effect of love on the human soul.

Highly recommended read. Perhaps 4.5

Information on the revolt at Marinha Grande:

https://ensina.rtp.pt/artigo/revolta-...

Very timely:

https://www.wordswithoutborders.org/i...
Profile Image for Carolina.
166 reviews40 followers
June 10, 2016
Vi a Ana Margarida de Carvalho num painel durante o Festival Literário da Gardunha III, dizia ela que “num romance não lhe interessava a verdade, mas sim a verosimilhança”. Concordo em absoluto com esta afirmação; nunca percebo as longas discussões literárias que se prendem exclusivamente com o “explicar como algo é possível” e que buscam desenfreadamente o percalço no realismo. Não só estas conversas levam geralmente a lugar nenhum, como também nos conduzem a esquecer a reflexão acerca daquilo que é verdadeiramente importante.

E o que é o que é verdadeiramente importante? Que autoridade tenho eu para definir os limites para a discussão literária? Parece-me, no entanto, que a maior relevância pertence aos significados e representações, quer estes sejam tecidos no enredo, quer nos aspectos formais. Na generalidade, prezo muito mais o enredo em favor da formalidade. Desde que a escrita não me incomode e cumpra o seu objectivo enquanto veículo de uma narrativa, tudo bem.

E para quê toda esta reflexão preliminar? Porque no caso de Que Importa a Fúria do Mar, a forma suplanta o enredo por completo. Não era o que esperava. Permanece um excelente romance.

Vou ser franca, a narrativa não me envolveu por aí além. Um ou outro pedaço pareciam escritos de propósito para chocar o leitor, amiúde sem qualquer implicação aparente. De alguma forma, a história de Joaquim no Tarrafal, que devia quiçá ter sido o cerne da obra, foi a menos emocionante. Gostei mais da história de Eugénia, mas ainda assim, durante toda a obra fiquei à espera de um clique que nunca se deu.

Mas a escrita! As imagens! O cuidado no emprego da semântica do mar ao longo de toda a obra é notável, passei toda a leitura com o fundo das pálpebras forrado a verde marinho e sombras de algas. A escrita é tão trabalhada que roça perigosamente na noção de purple prose. Acho que parte da falta de interesse que tive no enredo se prendeu com o facto de frequentemente me encontrar antes ocupada a visualizar as metáforas e a espantar-me com os contorcionismos textuais de Ana Margarida de Carvalho. Não é um livro que implora por ser devorado, mas há qualquer coisa de revolucionário na forma como conjura exactamente aquilo a que se propõe.
Profile Image for David Pimenta.
378 reviews19 followers
October 28, 2016
Passaram-me pela mão tantos exemplares de "Que Importa a Fúria do Mar", desde o momento em que foi publicado: por os desejar sempre que passava por uma livraria, mas a compra nunca era concretizada. A história chamava-me a atenção, mas mais do que isso era a forma como a escritora sabia cativar o seu público, de uma forma discreta e honesta. O Joaquim e a Eugénia, os dois protagonistas, andaram comigo por demasiado tempo por nunca me decidir a comprar o livro - nas indecisões mais idiotas que tive: por ter medo de o deixar na prateleira entre as futuras leituras.

"Que Importa a Fúria do Mar" vai buscar o terror vivido no Tarrafal, lugar que tanta gente teima em não chamar de campo de concentração. Traz personagens imperfeitas, tal como escreveu a escritora. Tão imperfeitas em alguns momentos que chegam a dar arrepio na pele: pelos caminhos que tomaram, pelas paixões que viveram e lhes deram vida - as cartas para Luísa são, ao longo de todo o livro, o fio condutor da narrativa.

Fica o desejo de ler Não Se Pode Morar Nos Olhos De Um Gato. Este é, sem dúvida, um dos livros mais belos e bem escritos dos últimos tempos, tanto que me fez escrever sem qualquer tipo de obrigação.
Profile Image for Cris Félix.
209 reviews
April 23, 2014
Muito bem escrito, com grande domínio das técnicas da narrativa. Personagens fortes e marcantes. Também eu fiquei seduzida pelos olhos verdes do Joaquim...
Profile Image for Joao.
2 reviews1 follower
July 19, 2017
Em tempo de férias faço por parar leituras mais técnico científicas, e aproveito para ler algumas obras em português, este livro apesar de não ser muito extenso li em dois dias o que só por si já justifica a avaliação, é um prazer ler uma estória muito bem escrita. Irei de certeza estar atento a esta autora que me "agarrou" totalmente a Eugénia, ao Joaquim, à Luísa,..., e a um período que desconheço deste nosso Portugal e são estas obras que me ajudam a preencher esta minha lacuna cultural.
112 reviews1 follower
August 15, 2019
Apesar do primeiro capítulo, que é estranho/confuso/difícil / longo (não devem desistir), o livro é arrebatador.
Uma jornalista - Eugénia - tem de entrevistar um dos últimos sobreviventes do Tarrafal. Ficamos a conhecer a história de ambos, em tempos diferentes.
As referências literárias e históricas são um acrescento delicioso à escrita cuidada da autora.
Profile Image for Maria Quintinha.
235 reviews5 followers
September 4, 2020
Excelente. Gostei da forma, do conteúdo, dos personagens. Foi um gosto ler um livro com uma utilização eximia da nossa língua e com um vocabulário tão rico.
Esta história de um homem lutador dentro da nossa História, que vive e sobrevive com a esperança de um amor imaginado, tem uma construção que me atraiu em todo o livro.
Profile Image for Cristina Torrão.
Author 9 books25 followers
May 25, 2014
Este livro é e ficará conhecido por descrever o inferno do Tarrafal. Eu lembrar-me-ei sempre dele por causa da menina que foi despachada pela mãe para a casa de uns tios velhos e excêntricos, que tinham uns segredos horripilantes guardados num armário.

Mas haverá outras razões para o recordar: o trabalho infantil na indústria vidreira da Marinha Grande, na primeira metade do século XX; a pobreza miserável do nosso país, nesse tempo; os primórdios do Partido Comunista; uma história de amor que não deu em nada porque a lembrança que guardamos do ser amado é muitas vezes alindada pela memória e pelos sonhos que construímos; um trauma de infância que implica culpa que não se suporta; outro trauma de infância da tal menina despachada, que seca por dentro.

O ponto de contacto entre estes elementos? A menina sêca de sentimentos torna a descobri-los (aos sentimentos) já adulta, jornalista, entrando em contacto com um idoso, o tal que viveu o inferno do Tarrafal e que lhe conta a história da sua vida. Perguntar-me-ão o que tem o mar a ver com tudo isto. Bem, a resposta está no romance...

Ana Margarida de Carvalho descreve atrocidades, muitas atrocidades, atrocidades inimagináveis. A sua escrita é tão vertiginosa e densa, que só nos apercebemos de parte do enredo e das emoções que nos pretende transmitir mais tarde. Por vezes, nem nos apercebemos. Só entendi os dois capítulos iniciais depois de ler o final. E só entendi o final depois de relido o início.

Se acham esta opinião um pouco confusa, experimentem ler o livro!
Profile Image for Idalina.
37 reviews1 follower
November 2, 2020
É um livro difícil? É. Tem vocabulário rebuscado? Tem. Usa muitas figuras de estilo? Também. Estas são as críticas negativas mais comuns a este livro. No entanto, esta é uma leitura que nos marca, quer pela temática, relacionada com os difíceis anos de ditadura em Portugal, quer pela profundidade com que a narrativa se desenrola, exactamente devido a esse vocabulário e ao estilo imprimido. Presumir que o leitor nada mais tem direito do que uma história fácil, de leitura rápida, é reduzir a sua condição. Tive que consultar o dicionário algumas vezes, sim, mas se eu quisesse uma leitura fácil, isso é o que não falta por aí, mas o leitor tem o direito de exigir mais e Ana Margarida Carvalho cumpriu e não defraudou.
Profile Image for Graciosa Reis.
544 reviews52 followers
Read
April 14, 2023
Que Importa a Fúria do Mar, de Ana Margarida de Carvalho fala-nos de Eugénia, uma jornalista, e de Joaquim, um dos últimos sobreviventes, da Revolta na Marinha Grande, de 18 de Janeiro de 1934.

Eugénia pretende fazer uma reportagem sobre o passado de Joaquim, sobre a sua deportação no Campo de Concentração do Tarrafal. Através da memória do entrevistado ficámos a conhecer um pouco melhor este lugar tenebroso, lugar de fome, de doenças, de tortura (a frigideira) e de morte. Tomámos também conhecimento da sua paixão por Luísa, razão pela qual sobreviveu, pois a força do amor sobrepôs-se ao sofrimento, ao terror e à loucura vividos naquela prisão.

Apesar do início me parecer um pouco confuso, até encarreirar na narrativa, a leitura do livro acaba por ser arrebatadora. É um misto de prazer e de dor. Reconheço que a autora escreve muito bem. Faz uma escolha rigorosa do léxico, e recorre a várias referências literárias e históricas. Mais o que mais me surpreendeu, pela positiva, é a estrutura do romance, já que a autora, de forma magistral, intercala tempos, espaços e personagens, saltitando entre o passado e o presente quer de uma quer de outra personagem.
Profile Image for Maria.
10 reviews
January 30, 2026
Li este livro numa visita a Santiago, com noites dormidas no Tarrafal e passagem obrigatória no campo do Chão Bom. Foi, sem dúvida, um privilégio.
A história é interessante, dura e comovente, mas a linguagem muitas vezes rebuscada e intercalada por pensamentos, ideias e referências paralelos tornam a leitura, por vezes, aborrecida.
Profile Image for Gabriela Trindade.
Author 15 books33 followers
November 6, 2015
Este livro não se devora; e não se devora porque precisa de ser digerido com vagar, com tempo para saborear e ruminar; com tempo para parar e voltar atrás e ler de novo, seja porque a beleza da descrição nos faz querer beber lentamente e ao minuto cada palavra, ou porque a acidez de algumas passagens nos arde na boca do estômago, ou talvez ainda porque as lágrimas nos inundam os olhos de pura comoção e a vista se nos turva. É um livro que não se lê; sente-se. Ouve-se. Cheira-se. Entranha-se. E quando damos por nós estamos lá dentro. No meio do campo, a ouvir os sons da bicharada; aos solavancos no comboio, ao lado de Joaquim, naquela viagem infernal a caminho da incerteza; no olhar entediado de Eugénia, contando as moscas, procurando evadir-se, sem nunca repousar, sempre ausente e perdido entre os seus abismos e o mundo, o passado e as memórias; e depois, finalmente, apaixonado, deslumbrado, amedrontado, extasiado, tudo ao mesmo tempo, que quando dá por ela e já não consegue domar nem dominar os sentimentos que lhe brotam ao desbarato dos poros. Na frigideira no Tarrafal, em morte lenta, abafada, asfixiada; no mar lodoso de algas moribundas até à cintura, e no alívio das feridas ardendo na água salgada; na fúria do mar que amaldiçoa quem o ousa abandonar com o cheiro putrefacto das coisas mortas. Este livro tem vida e apodera-se de nós e quando damos por isso já não há nada a fazer, recusamos acordar do sonho e ficamos parados naquele segundo eterno em que os olhos se perdem no azul do mar, lá ao fundo, ao virar da última página; e é na nossa cara que o vento bate de chofre, no embalo da corrida até à última palavra, mar, numa promessa de eternidade.
Profile Image for Helena Rodrigues.
184 reviews15 followers
July 10, 2023
Neste romance, Ana Margarida de Carvalho dá voz às vítimas do regime salazarista que a repressão política e intelectual enviou para os horrores do campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. No entanto Que Importa a Fúria do Mar ultrapassa os tormentos dos injustamente condenados à violência e à exploração, abrangendo também as consequências das infâncias atribuladas, o poder das paixões e o impacto que pequenos acasos podem ter numa vida inteira.
As páginas deste romance transbordam de referências intertextuais, como a Fernando Pessoa e aos seus heterónimos, Ernest Hemingway e Bob Dylan. Num fluxo de consciência entretecido com a narrativa, formas de expressão populares e eruditas formam uma teia rica de linguagem e estilo que fazem deste livro uma viagem pelas heranças cultural e literária portuguesas.
Esta narrativa contraria o sentido comum do mar para os artistas e os poetas: um meio de evasão e libertação, cheio de oportunidades e de vida. Que Importa a Fúria do Mar apresenta o mar como algo que reprime e aprisiona os homens. Uma sensação de claustrofobia atravessa a obra através do paralelo entre o mar que impossibilita a fuga dos prisioneiros no Tarrafal e o mar que atemoriza a infância da narradora, encerrada no quarto das traseiras da casa dos tios em que a mãe a deixara antes de prosseguir a sua vida.
Que Importa a Fúria do Mar é um livro para ler e reler, um exemplo de como a literatura é o resultado da conjugação de influências antigas e técnicas narrativas novas, desafiando os leitores a voltar ao passado, ainda que com os pés bem assentes no presente.
Profile Image for Margaret.
791 reviews15 followers
August 2, 2015
“Que Importa a Fúria do Mar” foi um desilusão para mim. Sendo a autora jornalista, estava à espera de uma prosa mais direta, factual e não este excesso de divagações, adjetivos e mistura de estilos que não me agradou.

A personagem principal, Eugénia, é uma jornalista de televisão encarregada de fazer um documentário sobre a prisão do Tarrafal. Encontra um sobrevivente, Joaquim, que foi preso aquando da revolta da Marinha Grande nos anos 30. À medida que vamos ouvindo o relato do antigo preso, Eugénia vai recordando, também, alguns episódios da sua vida que lhe deixaram marcas profundas.

Os contornos da história são interessantes, mas o estilo de escrita deixou-me completamente frustrada. Não consegui sentir qualquer “ligação” com a Eugénia, só um perfeito desinteresse pela sua vida, que me fez saltar os capítulos em que ela recordava o passado. Por isso, basicamente, só li a história do Joaquim, em especial, a sua estadia no Tarrafal. A descrição das más instalações, do cinismo das autoridades, das doenças, das tentativas de fuga agradou-me e tive pena que o livro não fosse todo assim, mais direto e menos “transcendental”. O final foi demasiado óbvio e não salvou a narrativa.
Profile Image for Mady.
1,395 reviews29 followers
January 12, 2020
The vocabulary was often an obstacle to my understanding as I started reading this book. But I either got used to it or it smoothed down as the chapters went by.

Joaquim is a worker at a glass factory involved in a communist rebellion and as a consequence gets sent to a prison camp in Tarrafal (Cape Verde) during the dictatorship in Portugal.
Eugénia is a journalist that meets Joaquim many years later and decides to tell his story.

The characters felt so real. And their life stories touched me!
Profile Image for Sara.
619 reviews67 followers
September 2, 2021
Os primeiros capítulos quase me fizeram desistir... insisti e acabei por gostar.
É inegável a capacidade de escrita da Ana Margarida de Carvalho logo no primeiro parágrafo, no entanto, foi uma batalha entre o amor e o ódio. Houve capítulos que adorei e outros que se tentasse espremer o que tinha sido escrito pouco ou nada sobrava para acrescentar à narrativa... apenas a mestria da autora com as palavras.
Gostei bastante da forma subtil como a autora mostra a capacidade que o amor pode ter.
É uma estória simples, original e bela que vale a pena conhecer.
Profile Image for Manuela.
174 reviews
January 27, 2020
Eugénia, com humor e recalcamentos, apresenta-nos as personagens maiores, começando, desde logo por Joaquim e uma história de amor dentro da própria História, essa bem mais tortuosa, tal foi a dureza dos homens e do regime.
Numa escrita onde cada palavra parece ser escolhida meticulosamente, somos levados ao íntimo das memórias e das feridas que se foram fechando. E somos conduzidos, assim, ora pelo tempo em que sangravam ora pelo tempo em que já viraram cicatrizes.

Profile Image for Judite Valverde.
21 reviews1 follower
March 6, 2019
Desisti. Quando se escreve com um dicionário de sinónimos e com a lista das figuras de estilo ao lado...nao tenho tempo. Só uma vida e tanta coisa para ler!

Profile Image for Agostinho Matos.
189 reviews
May 11, 2022
“Que Importa a Fúria do Mar” da escritora Ana Margarida de Carvalho, sente-se neste livro uma narrativa moderada em ação mas bastante fluída de múltiplas reflexões tidas pelos vários personagens, destacando-se entre eles Joaquim sindicalista da Marinha Grande, que após bastantes anos aceita conceder uma série de entrevistas a Eugénia, uma jovem jornalista eventual alter-ego da autora, em que para além de conflito de gerações destaca-se a diferença de valores em que nesta vida vale mesmo lutar.
Fazendo um breve enquadramento histórico, em resultado da proibição da atividade dos sindicatos implementados por um decreto-lei de setembro de 1933, que teriam de ser refundidos em sindicatos nacionais corporativos, afetos ao regime salazarista, foi anunciada secretamente uma greve geral para 18 de janeiro do ano seguinte. Mas as forças de segurança sabendo antecipadamente através de informadores a data da greve e os locais fabris mais revoltosos por todo o país, conseguiram com relativa facilidade controlar e prender os trabalhadores que se manifestavam destacando-se neste livro a Revolta da Marinha Grande onde participaram centenas de operários, maioritariamente os que estavam empregados nas fábricas de vidro que eram quase todos simpatizantes ou militantes comunistas, socialistas ou anarquistas.
A sanidade de Joaquim na prisão da morte lenta do Tarrafal é mantida pela esperança de um dia voltar para a sua amada Luísa e ante a expetativa de alguém encontrar e lhe entregar as cartas que lançou do comboio quando vinha com os seus camaradas presos para Lisboa que seria na capital apenas mera passagem para o destino final, a ilha de S. Tiago em Cabo Verde.
20 reviews
March 22, 2020
Muito bem recomendado, a alegria vai-se perdendo pelas páginas..
A história de duas gerações que se cruzam no invocar duma memória jornalistica do Tarrafal é interessante. O motivo das "cartas perdidas" que vai prolongando a narrativa de Joaquim vai perdendo fôlego, ao mesmo tempo que é substituído pela introspeção de Eugénia, que relata a sua relação conflituosa com a mãe. Estando tudo muito distante, e havendo claramente uma excelente ideia detrás disto, a história fica grande a esta autora que disfarça o seu tamanho refugiando-se num vocabulário erudito, num cem número de referências que são exatamente as mesmas que cansam no primeiro Lobo Antunes. Mas enfim, apesar de tudo, há aqui um grande projecto, que não descola os pés do Portugal actual, como fazem tantos autores, e que se questiona sobre o passado, embora exista uma romantização ingénua de certas factos, e se procure sempre que o amor de Joaquim seja sempre mais importante que as condições desumanas do campo do Tarrafal. Quando chegamos à parte em que a jornalista afirma "amar" o entrevistado, bom aí, mais valia não ter imprimido esses capítulos e o resultado seria melhor
Profile Image for Maria Elisabete.
40 reviews2 followers
October 24, 2020
Numa madrugada de 1934, um maço de cartas é lançado de um comboio em andamento por um homem que deixou uma história de amor interrompida e leva uma estilha cravada no coração. Na carruagem, além de Joaquim, viajam os revoltosos do golpe da Marinha Grande, feitos prisioneiros pela Polícia de Salazar, que cumprem a primeira etapa de uma viagem com destino a Cabo Verde, onde inaugurarão o campo de concentração do Tarrafal. A vida de Eugénia, jornalista encarregada de entrevistar Joaquim, um dos últimos sobreviventes do campo de concentração do Tarrafal, nunca mais será a mesma...
De Ana Margarida de Carvalho, "Que importa a fúria do mar" (2013) foi finalista do Prémio LeYa em 2012 e considerado um dos livros do ano em 2013 pelo jornal Público. Venceu, por unanimidade, o Grande Prémio de Romance e Novela APE-DGLAB - 2013.
Profile Image for Fernando Delfim.
402 reviews12 followers
April 6, 2023
“nas paredes do calabouço alguém gravou uma frase <>
Cada vez que amanhecia, antes de mais uma sessão de tortura eu entrava no gabinete sempre com essa frase na cabeça. Não confesso hoje, confesso amanhã. Por isso, sabia sempre, não vou confessar hoje, amanhã logo se vê. Era uma certeza. Estava ansioso para que a tortura começasse de vez, a cada manhã, tal a raiva. Nós temos o último poder sobre eles: que é o de não falar. Os urros, os gritos, os teus gritos. Joaquim, deram-me raiva e a raiva deu-me força.”

“Se és feliz, escreve; se não és feliz, escreve também.” (Machado de Assis)

“A realidade é uma hipótese repugnante” (Manuel António Pina)

“Deve ser triste viver apenas do que faz sentido”
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