Um Fervor Anômalo e o Rito da Marginalidade
Mesclando a tão famigerada modernidade, com seus toques de romantismo, O Mulato (1881), de Aluísio de Azevedo, é uma obra equilibrada, de caráter único, que retrata uma das diversas faces que a discriminação racial traz como consequência desde as mais baixas, até a mais alta camada da sociedade.
Sendo uma obra de cunho político, o autor nos insere em ocasiões que permitem o exercício do pensamento crítico, sobre como a sociedade pode ser mesquinha, frágil, e hipócrita, tudo girando em torno de questões raciais, do qual Raimundo, o protagonista da obra, acaba por ser alvo por sua simples existência.
A princípio, a retratação brasileiresca do Maranhão foi muito bem ilustrada, e é importante para auxiliar o leitor a se situar em meio ao ambiente onde ocorrerá a trama. Precisamos saber onde estamos, com quem estaremos lidando, e como estás pessoas agem em seu dia-a-dia, portanto, com base nisso, o autor não mede escrúpulos ao descrever as pessoas, independentemente do aspecto físico que possuem, e esse é o aspecto modernista de nossa obra, que foge dos padrões estéticos, retratando a realidade, seja no cotidiano, ou no comportamental.
Tão importante fora a apresentação inicial, que já de início foi possível identificar um forte aspecto cultural a ser retratado pelo autor, referente a toda a cultura maranhense por volta da segunda metade do século XIX.
Todavia, apesar da cultura ampla a ser retratada, o principal aspecto a ser mostrado por Aluísio de Azevedo é o preconceito racial instaurado em toda a sociedade maranhense; fruto este advindo da escravidão, ainda forte no Estado.
Curiosamente, o autor nos dá algumas ênfases de como até os mais devotos ao cristianismo também possuíam escravos, o que, na prática, não é coerente com o que seguem. Para acrescentar, estes mesmos donos de escravos, majoritariamente religiosos, maltratavam seus escravos.
Vivenciando um pouco da trajetória apresentada em O Mulato (1881), tive mais certeza que a injúria e o preconceito racial é uma base de educação ensinada por meio dos hábitos rotineiros, de acordo com o cenário da época.
Ainda assim, sendo, para mim, o caráter mágico da obra, problemas sociais não é a única coisa mostrada na obra. Como que sendo o mais alto requinte, pleno em fervor, temos o privilégio de contemplar o aspecto da alma que existe em um coração, abrasada pelos desejos, pela vontade, pelo violento amor que destrói barreiras e em instantes dissolve angústias. Um ato puro de entrega.
“O homem da sua casa, o dono do seu corpo, a quem ela pudesse amar abertamente como amante e obedecer em segredo como escrava“
De início, o autor ganhou-me por sua abordagem direta e precisa, revelando parte da natureza humana, que no consciente, não é observada e nem revelada, mas no âmago, é uma das vontades que regem os seus passos.
“Se o pretendente não tivesse o nariz, o olhar, o gesto, o conjunto enfim de que constava o padrão, podia, desde logo, perder a esperança.“
Nesse sentido, tratando-se de âmago, temos de um lado a pulsão, e também a repulsão, onde na maioria das vezes a tradição, a cultura instaurada; a ideologia enraizada, perdura, levando o homem a ser mais uma marionete da sociedade.
Observei que a descrição dos personagens carrega um forte tom de seletividade, como se uma mulher, muito rigorosa, estivesse escolhendo o homem que irá possuí-la; e isto é proposital, pois evidenciado posteriormente, as mais velhas mostram-se ser muito influentes sobre as decisões de suas filhas ou netas, trazendo este ato da seletividade mais como uma questão cultural, do que Instintiva.
De início, a obra segue uma linearidade um pouco diferente, mostrando-nos a perspectiva de alguns personagens. A obra começa a ganhar um teor mais descritivo e narrativo na medida em que começa a relatar a história de José, e é aí que tudo passa a ficar mais imersivo.
Estando no âmago dos personagens, Aluísio de Azevedo faz questão de expressar o pensamento dos personagens, ora por meio de diálogos ou pela narração, e então ganhamos uma concentração de ideias que alguém normalmente evitaria expressar, por se tratar de assuntos com teor de ódio, inveja, desejos e tudo o mais que a sociedade busca refrear em prol da ética.
“Raimundo, se bem que muito novo ainda, punha-se a pensar e os véus misteriosos da sua infância assombravam-lhe já o coração com uma tristeza
vaga e obscura, numa perplexidade cheia de desgosto“
O Mulato (1881), possui uma característica elementar predominante: temos assuntos complexos, e os sentimentos são expressos de forma profunda, sempre imbuídos de um teor de reflexão descrito e revelado de maneira muito bela, revelando um romantismo de alto grau, inserido pelo autor, para validar a trajetória dos personagens que, apesar de estarem em meio a um conflito – ou dilema – social, a realidade o que há de mais predominante é o sentimento que carregam e desenvolvem em meio a estes conflitos.
Ainda nas características principais da obra, ela busca fazer uma ponte com o passado, onde, por meio de nossas lembranças e reminiscências, pelo cheiro ou vivência, voltamos à nostalgia e ao passado. Afinal, é típico em nosso país tratar dos cheiros, dos alimentos, dos festejos, da casa cheia, das fofocas, tudo como uma característica única nossa, onde tratamos tudo isso de forma diferenciada. Mesmo o linguajar, aqui na obra, é típico da região, trazendo palavras que hoje nos é comum, e outras que não são.
Uma das partes mais extensivas, e talvez maçante, está na retratação do teor brasileiresco da "casa cheia", onde nos é mostrado diversas figuras em suas mais variadas diferenças, em pensamento e estética, compondo um cenário de fofocas, assuntos variados, fúteis ou não, que tomam boa parte da obra.
“— Que olhos! que cabelos! e que gestos!... olha, olha, menina! como ele brinca com o charuto!... olha como ele se encosta à grade da janela!... Parece um fidalgo, o diabo do homem!“
Reler esta parte do livro, após terminá-lo, me faz pensar em como somos fortemente dissuadidos pela sociedade. Entretanto, está questão, em específico, fica mais para o final. No momento, com está frase, observa-se que o aparente é muito mais importante e de impacto, pois é uma questão instintiva difícil de ser refreada. Por isso os personagens são validados por deus atos: buscam construir uma característica única, seja em aparência, hobbie ou eloquência em suas participações políticas. Desejam destacar-se, indo por caminhos normais, já frequentado por todos os outros.
Os personagens tentam construir sua imagem "brasileiresca" por meio de trejeitos de outras culturas, soando mais como uma imitação. Para complementar, os brasileiros criticam tanto os portugueses, mas alimentam-se do teor artístico europeu; buscam ser requintados e tentam construir sua imagem às custas de uma certa hipocrisia. Desejam uma pátria consolidada para se sentirem à parte, definitivamente, mas não abandonam a ideia de seguir os costumes de outras nações, seja na religião, nas opiniões políticas, e em diversos outros aspectos culturais, cheios de fragilidade e falta de originalidade.
“Aquela indiferença de Raimundo doía-lhe como uma injustiça: sentia-se lesada, roubada, nos seus direitos de moça irresistível.“
Nos é possível dizer, também, que a cultura dos elogios exacerbados às mulheres é algo predominante em nosso país, e que isto coloca-as em uma posição orgulhosa, marrenta, de sentirem-se no poder de terem o que querem. Com a atitude anormal de Raimundo em ignorar Ana Rosa, independente de seus dotes, algo fora despertado nela.
Finalizando o prefácio da obra, ganhamos a certeza de quem é o real protagonista, e como a trama irá discorrer. Com esta breve apresentação e já introdução da vida de Raimundo no Maranhão, como que sendo um estrangeiro, o teor brasileiresco da obra fica explícito.
Não se vê algo assim em obras de outras culturas: a fofoca, a algazarra, os relatos, tudo simultaneamente. É interessante, apesar de cansativo. Senti-me como o Raimundo em meio a essa zorra, mas no final, com o cair da noite e com a memória do dia agitado, vem o conforto. Acredito que o Aluísio quis passar essa ideia: um dia frenético, para no final ver a nova vivência desbloqueada, diferente de todas as outras.
Dentro da obra, o narrador emprega um tom ligeiramente poético e único ao expressar o estado dos personagens, e o mistério é parte da construção romancista. Ele tempera os eventos. Cativa à primeira vista. Aluísio sabe como nos prender à trama, e o que propicia isto é a romantização, afinal, é algo que carregamos em nosso âmago.
“Mas logo tornava a si com a ideia do porte austero e frio de Raimundo. Esta indiferença, ao mesmo tempo que lhe pungia e atormentava o orgulho, levantava-lhe, na sua vaidade de mulher, um apetite nervoso de ver rendida a seus pés aquela misteriosa criatura, aquele espectro inalterável e sombrio, que a vira e contemplara sem o menor sobressalto.”
Nessa linha de ideia, Raimundo proporciona uma quebra do padrão ao instaura-se no Maranhão, pois ele chega com dotes diferenciados de recusa à normalidade, se destacando dos demais, e assim, fazendo surgir em Ana Rosa algo excepcional. Dessa relação instintiva, de orgulho de mulher ferido, e de instinto masculino, no intrínseco de Ana Rosa, assim como ocorre em muitas outras mulheres, há o reconhecimento, quase que como sendo uma vontade animalesca de ver-se dominada frente uma força única e diferente de todas as outras.
O grau do desafio engrandece a vivência em vida, e Raimundo possui algo de único. Achei interessante a relação de dominação expressa, e parte da excepcionalidade da obra está no poder exalado pela paixão dos devotos. A convencionalidade não funciona, neste caso, pois as jogadas conscientes sobre a natureza das pessoas acabaram por gerar um descontrole nos sentidos para ambos que tentaram ter o controle.
Progressivamente, de acordo com o transcorrer da trama, a obra ganha um ritmo diferente e tudo fica melhor, pois o autor consegue analisar a subjetividade dos sexos e expressar isso como se fosse a revelação de um mistério. Para acrescentar, ele nos coloca em meio ao aspecto cultural, de forma que também façamos parte das sensações de Raimundo, e temos por evidência as seguintes ocasiões: há muito papo sobre o costumeiro. Festas, comidas, remédios, formas de tratamento, superstições e religião. Então a pergunta é: como sair dessa trivialidade sem ser tratado como estranho, ou até mesmo desrespeitoso?
Isso possibilitou que eu refletisse sobre como é curioso o fato de que, por meio da ignorância, seja ela vindo ou não pela cegueira religiosa, superstição ou alienação, alguns pagam o preço. Buscamos atribuir culpa àquilo que é diferente, ou até mesmo criticar, e Raimundo começou a ser alvo desta mácula.
É interessante ver como pessoas mais conservadoras, geralmente os mais velhos, possuem certa ignorância e relutância em aceitar o ceticismo alheio. Nesse caso, Raimundo e Manuel travam essa batalha, que é tão comum de se acontecer aqui no Brasil, tratando-se de religião.
Conhecer o mundo expande a nossa mente, mas não significa que isso nos dá o poder de abandonar a conduta respeitosa. Não deveríamos ser prepotentes. Respeitando seus ideias e vontades, Raimundo, pelo menos, não satiriza a ignorância alheia.
Pelo teor da obra, não imaginei que haveria uma parte de mistério, mas ganhamos um na medida em que finalizamos a história de José do Eito. O início encaixou-se com a metade da obra e ganhamos revelações e apreensões que mantém apetitosa a leitura.
“Aquela simples palavra dava-lhe tudo o que ele até aí desejara e negava-lhe tudo ao mesmo tempo, aquela palavra maldita dissolvia as suas dúvidas, justificava o seu passado; mas retirava-lhe a esperança de ser feliz, arrancava-lhe a pátria e a futura família; aquela palavra dizia-lhe brutalmente: “Aqui, desgraçado, nesta miserável terra em que nasceste, só poderás amar uma negra da tua laia! Tua mãe, lembra-te bem, foi escrava! E tu também o foste!””
Agora tratando da questão emblemática e disruptiva que o termo "mulato" evoca, observei que em meio a toda essa trajetória dentro da obra, esse termo acaba por remeter a ideia de "o sem história", pela forma como lhe é atribuído tal adjetivo. O título tem muito mais a dizer sobre o passado sombrio, do que sobre a característica física, em si, de Raimundo. O "mulato" evoca as consequências de não ter um passado, e de ser uma prole oriunda da escravatura, tornando-o inadimplente entre os demais membros da sociedade, por ter seu sangue marcado, não pertencendo, assim, àquela terra que foi construída às custas dos esforços de seus antepassados. Nesse sentido, o título da obra também critica a concepção e ideologia presente no Maranhão, cuja segregação e marginalização é instaurada às pessoas nascidas de escravos.
O autor é muito preciso ao expressar seus pensamentos por meio de Raimundo, que está envolto em revoltas por conta da mediocridade de nossa nação em postular absurdos por algo que ele não tem culpa: ter nascido filho de uma escrava (e digo isso em um aspecto mais flexível, pois o preconceito racial, em si, junto à escravatura, também são absurdos). A forma como Aluísio expressa essa raiva e revolta é incrível, e para acrescentar, ele faz uma excelente conexão com o surgimento de um sentimento ainda maior: a vontade de ser amado. Portanto, parece-me uma característica romanesca em O Mulato (1881), onde primeiro nos é apresentado a dor da revelação, e então a insurgência de um sentimento ainda maior que o transponha.
O progresso da obra intensifica os conflitos, e nos dá uma experiência incrível. Me faz pensar que a cultura brasileira, apesar de estar pautada na época da escravatura, mesmo hoje, ainda não mudou tanto assim, pois ainda estamos repletos de pessoas cegas.
Nunca vi um autor fazer tantas alusões, relatando a profundidade dos sentimentos dos personagens. Isso traz vida à obra. Gosto de como o sentimento de Raimundo se aprofunda, e de como a razão é embaraçada frente ao amor, a ponto de pensamentos tão certos serem autossabotados pela frustrante realidade na não possibilidade de uma conquista. Sua euforia ganha toques romanescos, mas ambientando nos nuances do Brasil. É possível se identificar com a obra por sua característica realidade.
A obra evidencia a ignorância dos Brasileiros em fixarem-se em preconceitos e idealizações cegas, e também mostra a corrupção que vem de dentro da igreja, que usa do poder sacro para fazer com que os devotos se achem em estado de pecado por sentirem, desejarem, ou lutarem por aquilo que, segundo a igreja, é pecado. Neste caso, Ana Rosa teve sua pulsão condenada; mas apesar do teor dramático, é um momento de confronto de ideais onde os personagens encontram-se sujeitos a escandalizarem a sociedade para defenderem seus ideais.
Muitos discursos são pautados em falsas morais, baseados no egoísmo para fazer jogos mentais que trazem a culpa ao "infrator" das máximas regidas por homens.
Por fim, O Mulato (1881) nos proporciona um final de enredo eletrizante. Que conflito! Quanto embaraço! Fico pasmo em como este preconceito enraizado mostrou-se ser um grande impedimento para a felicidade, pois na sociedade, as aparências é o que vale mais, e muito mais vale manter-se bem visto aos olhos de um estranho, do que sujeitar-se à ideia de ser difamado por este por permitir a felicidade de um ente querido seu.
O cônego Diogo é a representação da subversão da moral. Um hipócrita. Matar, em prol de um bem maior? O personagem é convincente, seja por sua posição sacra na igreja, por sua compostura, e também por sua argumentação. É ridículo, mas muito condizente com a realidade a forma como muitos encontram meios de revirar a mente do outro, a ponto de fazê-los agir de maneira que normalmente não agiriam. Estamos cercados de lobos em pele de cordeiro.
Semelhante a Memórias Póstumas de Brás Cubas (1880), de Machado de Assis, a obra não segue um final linear baseado na fantasia que desejamos ver. Pelo contrário: ela representa a realidade, e é isto que torna a literatura brasileira linda.
O final desta obra me enerva os ânimos. O que ele representa? Perdi-me em conjecturas para encontrar uma razão palpável. A nova vida de Ana Rosa seria a manifestação clara de que, todos nós estamos suscetíveis a ficar no passado, a ponto de que, aquilo que era incogitável, passar a ser deixado de lado para dar chance a um novo caminho outrora negado? Refiro-me, neste caso, sobre Ana Rosa e Dias. Aparentemente, um amor e carinho fora gerado, possivelmente depois de certa relutância. A pergunta é: o que a levou a este caminho? Por precisar de um pai para o seu filho com Raimundo? Por ter-se enchido de vida por carregar um filho de Raimundo, uma prole sua, a ponto de sentir que todo o passado deveria ser superado? Por, no fundo, ter aceitado a realidade que lhe apresentaram, abandonando todos os seus ideais, para aceitar que, de fato, o seu lugar e realidade era cabível com um homem branco, e não com Raimundo? De alguma forma a morte de seu pai e de sua avó influenciaram em seu julgamento? Ou foi a solidão? Pensa ela ainda em Raimundo? No fim, a maquinação do cônego Diogo gerou o resultado previsto. Vivemos em um mundo ardiloso e todo cuidado é pouco. Ainda assim, fico em um espanto.
Preferível mil vezes um final trágico de suicídios como em Romeu e Julieta, a esta realidade pesarosa, intragável para mim, que sabe os pormenores. Ana Rosa não sabe. Ela está no meio de um lobo, que roubou-lhe o seu primeiro e possivelmente o maior amor. Esses eventos aconteceram muito depressa, e cadenciados, e trazem-me espanto, dose de tristeza, diversas considerações e incontentamento.
Decerto que o mundo traz uma infinidade de revelações, mas para que tanta luta e sofrimento, em prol de um romance, de uma luta pela felicidade, quando que, no futuro, tudo será diferente.
O caráter da obra brasileira é magnífico por estes fatores. Gostaria de relatar meu profundo incontentamento com este final, mas, em partes, sei que é o mais provável. Uma desgraça! Mas é certo: nos apaixonamos, amamos, e então deixamos de amar. Memórias jazem, mas novos caminhos são criados.