Seletas de poemas gregos, se assim Deus o permitir, continuarão surgindo com novas linhas. Conquanto a indústria do papiro desde a era alexandrina até a romana tenha evoluído, o papiro ainda era caro de modo que depois de rolo para leitura ele ainda servia para enrolar o peixe, o pão, embalsamar múmia ou até escrever outros rolos para a leitura. Muitos dos poemas saíram de sarcófagos, citações em outros livros, inscrições em paredes e jarras. Estes fragmentos, migalhas na verdade, servem para evidenciar a grandeza desses poetas que escreveram em época tão feliz para a Grécia antiga.
Poetavam com tanta naturalidade que o metro lhes ganhou o nome. Criaram também os modelos de amar e se cantar o amor que nos vem desde a Grécia antiga. O lugar-comum de poeta e guerreiro já se acha em Arquíloco:
Sergeant to Enyalios,
The great god War,
I practice double labor.
With poetry, that lover's gift,
I serve the lady Muses.
Comparemos também a resposta que Arquíloco (ing) e Ovídio (pt) dão aos que chamam amor de indolência e preguiça:
Be bold! That's one way
of getting through life.
So i turn upon her
And point out that,
Faced with the wickedness
Of things, she does not shiver.
I prefer to have, after all,
Only what pleases me.
Are you so deep in misery
That you think me fallen?
You say I'm lazy; I'm not,
Nor any of my lin-people.
I know how to love those
Who love me, how to hate.
My enemies I overwhelm
With abuse. The ant bites!
*******
Portanto, quem chamava preguiça ao amor, desista; é próprio de um engenho experimentado o amor.
(...)
espicacou-me a moleza o amor por uma formosa jovem e ordenou-me que ganhasse o meu soldo nos seus campos.
Desde então tu me vês sem paranca e a travar noturnos combates.
Quem não quiser tornar-se indolente, entregue-se ao amor!
Embora ambos os versos excelentes, não deixo de notar a maior vivacidade e poder do grego. Até aos romanos o amor de Ovídio recende a cinismo.
Comparando com o Oriente médio no mesmo período onde os Impérios da Assíria e Egito ameaçavam destruir tudo entre si; onde o ambiente urbano sufocava as pessoas; onde revoluções religiosas aprofundavam a alma, as ilhas gregas viviam feliz isolamento. Sob pequenas monarquias os poetas tinham proteção e vida na corte, seus esportes, diversões e escaramuças. Essa vida em comum em barracas, tabernáculos, tendas etc que foi a inspiração essencial dessa lírica, uma motivo tão forte que parecia engolfar a pessoa do poeta e a incorporar em Afrodite. Assim Safo:
Aphródita dressed in an embroidery of flowers, Never to die, the daughter of God, Untangle from longing and perplexities,
O Lady, my heart.
But come down to me, as you came before,
For if ever I cried, and you heard and came,
Come now, of all times, leaving
Your father's golden house
In that chariot pulled by sparrows reined and bitted,
Swift in their flying, a quick blur aquiver,
Beautiful, high. They drew you across steep air
Down to the black earth;
Fast they came, and you behind them,
O Hilarious heart, your face all laughter,
Asking, What troubles you this time, why again
Do you call me down?
Asking, In your wild heart, who now
Must you have? Who is she that persuasion
Fetch her, enlist her, and put her into bounden love?
Sappho, who does you wrong?
If she balls, I promise, soon she'll chase,
If she's turned from gifts, now she'll give them.
And if she does not love you, she will love,
Helpless, she will love.
Esse tipo de vida em comum e alegria ingênua é muito rara no ocidente e a lírica grega que nos foi legada pelos romanos foi transmutada no nosso amor.
Desde “Every Force evolve a form” que admiro Guy Davenport e a tradução desses poemas é excelente bem como o ensaio introdutório. Resolvi finalmente lê-lo por cruzar perfeitamente minhas leituras de Hölderlin e de Esopo em grego.