#lerosclássicos2021
De qualquer modo, poderei fazer algum caminho, por mais solitário, estreito e sinuoso, que possa percorrer com amor e reverência. Onde quer que um homem se separe da multidão, e siga o seu próprio caminho, encontrará uma bifurcação, embora o viajante ordinário possa ver aí uma brecha na paliçada. O seu trajecto solitário através dos campos será o mais nobre dos dois.
Não será decerto um exagero dizer que “A Vida sem Princípios” se mantém actual e pertinente em quase todos os pontos que aborda. Mesmo que já não haja a febre do ouro que Henry David Thoreau criticava em 1854, permanece a ganância nas suas mais variadas formas, a qual se sobrepõe a todos os valores dignos desse nome. Porque foi essencialmente de valores e da falta deles que o autor falou nesta palestra que posteriormente assumiu o formato de livro.
Penso que a mente pode ser constantemente profanada pelo hábito de prestar atenção a coisas triviais, de tal modo que todos os nossos pensamentos ficam eivados de trivialidades. (...) Se nos tivermos assim profanado - quem o não foi? – o remédio será, através da circunspecção e da devoção, reconsagrarmo-nos e, mais uma vez, fazer do espírito um santuário.
Durante esta breve leitura, foi-me impossível não transportar para o presente algumas críticas que Thoreau tece à sociedade do seu tempo, aplicando-as, por exemplo, à ânsia de se ser popular nas redes sociais...
À medida que a nossa vida interior decai, vamos cada vez mais vezes e de uma maneira mais desesperada à estação dos correios. Não tenham dúvidas, o desgraçado que sai com o maior número de cartas, orgulhoso por ter tanta correspondência, não sabe nada de si próprio há muito tempo.
...e à questão da conservação da natureza.
Se um homem passear nos bosques por amor a estes durante metade de cada dia, arrisca-se a que o vejam como um mandrião; mas se passar todo o dia em actividades especulativas, arrasando as florestas para tornar a terra nua antes do tempo, será considerado um cidadão diligente e empreendedor. Como se o único interesse que uma cidade tivesse nos seus bosques fosse cortá-los!
Achei também de uma grande sensibilidade a referência à necessidade de sermos reconhecidos e ouvidos, de nos sabermos relevantes para os outros.
A maior homenagem que alguma vez me prestaram ocorreu quando alguém me perguntou o que eu pensava e escutou com atenção a minha resposta. Fico surpreendido, e mesmo encantado, quando isso acontece, tão raro é que as pessoas façam uso de mim, como quem está familiarizado com o instrumento. (...) Nunca se interessam pela minha substância; preferem a casca.
Conhecia a sua fama de pensador e de ecologista, de homem à frente do seu tempo, mas não esperava encontrar uma mente tão esclarecida e pensamentos tão subversivos e provocadores.
Aqueles com quem tentamos falar (...) farão o possível para interpor o seu tecto baixo, com a sua exígua clarabóia, entre nós e o firmamento, quando era o céu limpo que queríamos ver. Saiam da frente com as vossas teias de aranha e lavem as janelas!, digo eu.