É uma coletânea de 12 novelas escritas entre 1590 e 1612 e publicadas em 1613. Segundo o próprio Cervantes, seguiriam o modelo da novela italiana e ele seria o primeiro a usá-lo em língua espanhola. Além disso, diz ele que “...se prestares bem atenção, verá que não há nenhuma da qual não se possa tirar algum exemplo proveitoso”. Daí o exemplares do título.
Variam muito em extensão e apesar de escritas durante um período tão longo, conseguem-se manter um nível de qualidade que me pareceu bastante alto. Há, é claro, algumas estórias que me agradaram mais. Acho que as minhas preferidas são “O licenciado de vidro” e “O colóquio dos cães”. De qualquer modo, nenhum me desagradou.
Diga-se, ainda, que esse não é um livro para ‘ofendidinhos’. Se o sujeito acha que Cervantes escreveria para atender ao leitor ultrassensível do século XXI, é melhor colocar esse livro de lado, aliás, talvez seja melhor colocar qualquer livro de lado e abandonar as leituras em geral, ou, para utilizar uma frase d’O colóquio dos cachorros “quem é néscio em sua terra, néscio é em Castela” ou, como o próprio Cervantes conclui a introdução “...que Deus te guarde e a mim dê paciência para receber bem o mal que falarão de mim uns quatro ou mais ardilosos e pedantes. Adeus.”
Seus personagens são gente comum no sentido de serem aquilo que as pessoas são. Há, é claro, gente pior e melhor, mas de modo geral, se comportam com os vícios (muitos) e virtudes (poucos) que as pessoas têm.
Há, obviamente, elementos que representam aquela sociedade. O caráter estamental em que cada um tem o seu lugar a permanecer. Nobres lá, plebeus acolá. De outro lado, representa bem o quão complicada pode ser a situação dos pobres, dos desabrigados e até mesmo das mulheres, sempre à mercê dos homens, muito frequentemente incapazes de controlar as suas paixões. Não raro, as mulheres são dotadas de mais inteligência ou esperteza porque precisam sobreviver em um mundo que lhes é hostil. Ser vista pode ser um risco para elas. A beleza nem sempre é uma vantagem.
Eis um exemplo d’A ciganinha: “Esses senhores bem podem te entregar meu corpo, mas não minha alma, que é livre, nasceu livre e há de ser livre enquanto eu quiser” (A ciganinha, p. 67)
O mundo das ruas, das tabernas, das estradas é, essencialmente, um mundo de perigos e riscos, no qual tudo pode mudar em um instante. A lealdade expressa pela camaradagem é, muitas vezes, o meio para melhorar as chances de sobrevivência nesse mundo de incertezas e hostilidades.
Para os que estão no fundo do poço, a saída pode ser as Índias, “refúgio e amparo dos desesperados da Espanha, igreja dos falidos, salvo-conduto dos homicidas, abrigo e proteção dos jogadores a quem os peritos nessa arte chamam ciertos, esparrela geral de mulheres livres, engano comum de muitos e remédio particular de poucos.
Nas novelas de que mais gostei, ele usa certas artimanhas para apresentar os podres da sociedade. Em “O licenciado de vidro”, a loucura, tal qual em Quixote, abre as portas para o personagem que pode ser desculpado por aquilo que diz.
Em “O colóquio dos cachorros” ele usa o artificio dos cachorros falantes para isso. Animais, aliás, que podem, no final das contas, ser apenas o produto da loucura do narrador.
Eis um trecho desse conto:
“Impõe-se hoje uma lei e rompe-se amanhã com ela; e talvez isso seja conveniente. Hoje, alguém promete deixar seus vícios e, no momento seguinte, cai em outros piores. Uma coisa é elogiar a disciplina e, outra, dar-se bem com ela. Na verdade, do dito ao feito há um grande trecho” (p. 466). Isso é bem o mundo do século XXI. Pensemos nas leis e nas instituições. Não é exatamente isso o que acontece?
Mas colocar coisas na boca de cachorros, sem dúvida, permite que a crítica seja aceitável. Vejamos um outro (dentre muitos) exemplo desses aforismos: “para alguns, o fato de ser versado em latim, não desculpa o de ser asno” (p. 463)
Por fim, fica o conselho dos cães: “andar por outras terras e conhecer outras pessoas torna sábios os homens” (p. 477), uma variação de um ditado da época: “três coisas tornam sábios os homens: letras, idade e viagens”.