Não adorei esta história, que senti sempre um pouco apressada, mas gostei muito de a acompanhar, portanto posso ser generosa nas estrelas atribuídas. Na verdade, como várias vezes afirmei, são sempre atribuídas com o coração, portanto "valem o que valem" :)
Li hoje um artigo onde o autor dizia que há momentos certos para ler determinados livros. Acredito que é assim, e por isso tenho livros em espera há tanto tempo, porque ainda não senti que esteja "preparada" para os ler e sei que, se o fizer antes do tempo, não gostarei tanto como decerto merecerão. Neste caso, esperei bastante tempo para ler o livro, mas este manteve-se sempre presente no fundo da minha mente. Talvez por isso não tenha adorado, porque, inconscientemente, fui elevando demasiado as expectativas. Mas gostei bastante, é um facto, e talvez isso explique porque é que são 3h20 da madrugada e estou aqui a escrever a minha opinião, fresquinha.
Ler Nicky Pellegrino é viajar por Itália e salivar, sempre. Adorava estar no lugar de uma destas mulheres, não tanto para aprender a cozinhar, que me falta a paciência, mas para comer tanta iguaria, já que apetite tenho sempre :p Gostava muito de conhecer a Sicília também, de conhecer mais de Itália, país que me fascina.
Mas sobre o livro! O Livro dos Sabores Perdidos leva-nos pela história destes personagens, quase fazendo com que, como a autora refere, sejamos uma sexta personagem. O tom confessional destas quatro mulheres chega-nos diretamente ao coração, e embora conseguisse adivinhar o segredo do passado de Lucas cedo, confesso que o desenrolar da história me permitiu a benevolência de "perdoar" este personagem pelos erros cometidos. Luca Amore é um cozinheiro prendado, que mantem viva a memória da avó na cozinha da casa que lhe pertencia. Simpático mas reservado, depressa desperta a curiosidade deste novo grupo da sua escola de culinária. Depressa percebemos que algo no seu passado o atormenta, embora, depois, o pareça revelar com facilidade. Não é dificil crer, enquanto lemos, que só precisava de uma nova luz na sua vida, para encarar tudo de outra forma.
Tricia e Moll são, talvez, as mais humanas personagens. Não procuram esconder os seus defeitos nem, tãopouco, a animosidade que sentem inicialmente. Contudo, uma acaba por escolher a outra para desabafar, talvez por saber que a ouviria de forma tão mais fria do que as outras duas, e era mesmo isso que precisava. Moll fez esta viagem, a viagem da sua vida, tanto para escapar à rotina como para viver de forma mais intensa a sua paixão: a culinária. Gosta especialmente da cozinha italiana, por isso frequentar este curso de uma semana na Sicília é a viagem perfeita.
Já a Tricia, atormentada com a vida que leva mas sem hipótese de a mudar, por enquanto, ou de a abandonar, vê esta viagem apenas como um escape. É quase como se fosse outra pessoa naquele grupo, naquele espaço, como se vestisse outra pele. E sabe que, ao chegar a casa, nada terá mudado.
Valerie, mais velha, vê esta viagem como uma oportunidade para se distrair da dor. Acaba por sair de Favio, a pequena vila, a sentir-se mais viva do que antes, mais como ela mesma, como se se tivesse, de alguma forma, redescoberto. Sabe que ainda há pelo que viver, sabe que viajará mais.
E a Poppy... A Poppy não se contentou com o assim-assim e decidiu mudar a sua vida. Não se contentou com o bom que tinha, pois sabia que queria mais. Só não sabia bem o que seria esse "mais", nem sabe sequer se o encontrará em Itália. Talvez eu seja mais como a Poppy no que à cozinha diz respeito. Posso ir cozinhando se me guiarem, embora sempre hesitante e sem grande prazer. Mas quando me sento à mesa, é mesmo para me concentrar na comida.
O Livro dos Sabores Perdidos traz-nos uma história simples (talvez aparentemente simples) e, de certa forma, previsível. Mas leva-nos por sabores e paisagens maravilhosas, e dá-nos a conhecer vidas que podiam, perfeitamente, ser as dos vizinhos do lado. Por isso mesmo são interessantes, por parecerem tão reais. E por isso mesmo vale a pena ler, "perder" algumas horas neste mundo para descobrir mais sobre esta vila, os seus habitantes e os que a visitam :)