#WITMonth 2024
“The horror.The horror.”
- Joseph Conrad
MISS SARAJEVO
Is there a time to run for cover?
A time for kiss and tell?
Is there a time for different colors?
Different names you find it hard to spell
Is there a time for first communion?
A time for East Seventeen?
Is there a time to turn to Mecca?
Is there time to be a beauty queen?
Here she come, oh oh
Beauty plays the clown
Here she comes
Surreal in her crown
-U2, Brian Eno, Pavarotti
Enquanto em Sarajevo as adolescentes faziam tentativas de normalidade durante o cerco de quase quatro anos à sua cidade (1992-1996), sem água, gás, electricidade, comida e medicamentos, rodeadas por franco-atiradores sérvios a disparar contra civis de qualquer idade, ali ao lado, na Sérvia, vivia na sua bolha Ana Mladić, filha do General Ratko Mladić (conhecido como o carniceiro dos Balcãs), estudante de Medicina, protegida da realidade, tal como grande parte da população do seu ultra-nacionalista país, graças à propaganda e ao controlo da comunicação social. Uma velha prática que nunca falha.
Hermann Göring, o fundador da Gestapo, deixou escrito: “Claro que ninguém quer a guerra; não querem os ingleses, nem os americanos, nem mesmo os alemães. É compreensível. O dever dos líderes do país é conduzi-los, guiá-los até ela. É muito fácil: é só preciso dizer-lhes que estão a ser atacados, denunciar os pacifistas por não serem patrióticos e por porem o país em perigo”. (…) É necessário meter-lhes medo, é necessário inoculá-lo (…), é necessário agir para que esse medo fermente e se converta em ódio, num ódio absoluto, irracional, desenfreado.
É só quando vai passar férias a Moscovo com um grupo de amigos que Ana toma consciência da essência e extensão do conflito, das suas ramificações e do verdadeiro papel do seu adorado e endeusado pai, um cruel megalómano não só responsável pelo cerco a Sarajevo (1425 dias, cerca de 14 mil mortos) como também pelo massacre de Srebrenica (15 dias, mais de 8 mil bósnios mortos), tanto através de discussões com jovens mais politicamente conscientes do que ela, como por gravações fornecidas por um jornalista estrangeiro.
A fragilidade da história é ser volúvel e pouco fiável, sujeita ao vaivém das ideologias e das modas: a não ser assim, porque mudam tanto as versões dos factos de um século para o outro? O mito tem uma força lírica e uma beleza estética que a história carece. O mito rectifica a história. (...) O mito é, por definição, trágico (quem o disse foi Aristóteles) e qualquer tragédia que se preze requer um traidor, um herói e uma donzela ingénua.
Profundamente chocada e confusa ao perceber o monstro que o pai é, é uma Ana diferente que regressa a Belgrado e, pouco depois, dá-se a tragédia. A tragédia pessoal, as várias tragédias pessoais em que Clara Usón se inspirou para falar da Guerra dos Balcãs em 2012. Fará sentido continuar a falar deste conflito? Com certeza que sim, se os leitores ainda não se cansaram de ler sobre guerras anteriores muito mais batidas; se continua a haver guerra na Europa quando dizem sempre “nunca mais”; se o ódio e o ressentimento ancestrais continuam vivos na região; se a Sérvia ainda tem pretensões de anexar o Kosovo, porque onde há sangue sérvio é Sérvia; se um escritor revisionista e amiguinho de Slobodan Milošević é premiado com o Nobel. Enquanto me emocionar com o vídeo de “Miss Sarajevo”, com a faixa a dizer “Don’t let them kill us” empunhada pelas jovens concorrentes, Peter Handke continuará na minha lista negra.
Sendo o segundo livro desta autora espanhola que leio, vejo aqui uma abordagem semelhante à de “O Assassino Tímido”, pois baseia-se em factos verídicos e numa jovem real em circunstâncias infelizes, para não só contar a sua história pessoal, mas também para extrapolar e abordar temas mais universais. É louvável a pesquisa de Usón, que consegue explicar o intricado contexto que levou ao estalar da Guerra dos Balcãs, recuando ao século XIV, até à batalha do Kosovo entre sérvios e o Império Otomano, aflorando a Segunda Guerra Mundial, em que os croatas se aliaram aos nazis e culminando na forçada criação da Jugoslávia pelo Marechal Tito e à sua desintegração após a morte deste, reavivando ódios e vinganças entre as diferentes etnias, sem esquecer os grandes vultos da literatura local, Danilo Kiš e Ivo Andrić.
- Aqui estamos, a 11 de Julho de 1995, na Srebrenica sérvia, precisamente na véspera de um grande dia para a Sérvia. Ofereceremos esta cidade à nação sérvia, recordando a insurreição contra os turcos. Chegou a hora de nos vingarmos dos muçulmanos.
O suposto agravo que Mladić pretende reparar aconteceu há séculos, mas o passado está sempre presente nos Balcãs, os tempos confundem-se e o esquecimento não existe.
É, porém, na parte ficcionada, aquela que alterna com pequenas lições de História (antiga e contemporânea) sob o título de “Galeria de Heróis”, que esta obra fraqueja, pois ao acompanhar o narrador e Ana, sua amiga, torna-a demasiado extensa e desnecessariamente minuciosa.
Porque uma imagem vale mais do que mil palavras, encontra-se no Youtube um dos vídeos que Clara Usón usou para escrever sobre Ana Mladić. Nele vemos o temido General Mladić num momento de sofrimento que nunca levaria quem não o reconhece a suspeitar que se trata de um criminoso de guerra condenado pelo Tribunal Penal Internacional a prisão perpétua, depois de ser procurado durante 15 anos, tendo sido a sua captura a condição para a Sérvia se poder candidatar à União Europeia.
[Obrigada, Martinha!]