Helen de Wyndhorn é uma história incrível de fantasia, que vai além do gênero de espada e feitiçaria, se tornando uma aventura épica que trabalha muito bem o sentimento dos personagens e as relações humanas entre ele. E somando todos esse elementos, o quadrinho se torna uma excelente carta de amor ao gênero de fantasia, e uma homenagem ao criador de Conan (que por não ser fã do personagem, não consigo ir muito a fundo nesse quesito.)
Na obra, somos apresentados inicialmente a Lilith, uma mulher que fora contratada por Barbanas (avo de Helen e seu atual responsável), para que ela cuide da educação de Helen, tendo em vista que o pai da garota acabou de falecer. Ao ser contratada, no entanto, Lilith precisa encontrar com Helen, uma jovem de 16 anos, alcoólatra, fumante e inconsequente; e logo na primeira cena em que a vemos, ela está presa e precisa ser solta por Lilith.
Após sair da prisão, as duas partem para a mansão de Wyndhorn, local em que o avô de Helen mora, e que agora também será sua casa. É engraçado ver a reação da garota ao chegar ao local, pois a vida que ela levava com seu pai era muitas vezes insalubre, o total oposto dessa imensa moradia que agora irá frequentar.
Nesse primeiro momento, vemos que Helen vive a base da bebida, lamentando a perda de seu pai e sem proposito para a sua vida, ela não possui mais um objetivo após o falecimento de seu pai, o qual era um escritor famoso que ela acompanhava durante suas viagens.
Tudo isso muda, e ganha um tom de curiosidade, quando Helen é atacada por uma criatura estranha do lado de fora da mansão. Um monstro que lembra um lobisomem a ataca junto de Lilith, mas ambas são salvas por Barnabas, sendo esse o momento em que ele aparece pela primeira vez na trama, pois retorna de uma viagem. Após o incidente, a jovem não descansa até seu avô contar o que era aquela criatura, mas ele é um homem de poucas palavras, e resiste em conversar sobre isso com a jovem. No entanto, após muita persistência, Barnabas leva a garota para além da floresta, em um local onde atravessando as arvores e falando com uma bruxa, os personagens chegam ao outro mundo, o mundo de fantasia em que Barnabas vive constantemente viajando, local de onde a criatura que atacara Helen e Lilith veio.
Nesse momento, referências como Narnia, The Witcher e Senhor dos Anéis passam na cabeça do leitor sem hesitar, pois com os desenhos da Bilquis e cores do Mat Lopes, esse mundo épico e de fantasia parecem ganhar vida. Assim, Helen, que era muito resistente aos ensinamentos de Lilith, demonstrando zero interesse em aprender, começa a desenvolver empolgação com o novo mundo, ganhando um proposito novamente.
Em sequência, tendo em vista que o mundo fantasioso exige combate e resistência, a garota pede para ser ensinada, para não depender de seu avô nos combates. Dessa forma, Barnabas pede ao mordomo da casa que a treine. Após 1 ano de árduo treinamento, ela aprende a usar um machado e se torna uma guerreira apta a enfrentar o mundo novo com seu avô.
A partir desse momento, as aventuras nesse mundo novo se tornam mais recorrentes, e o quadrinho foca em mostrar essa relação de Helen com seu avô, até o momento que algo ocorre e toda essa dinâmica é rompida.
Ir além desse ponto, pode conter spoilers, portanto, vou focar em falar agora das reflexões que tive ao longo da HQ, distanciando dos acontecimentos da história. Dessa forma, o quadrinho não se resume apenas a uma fantasia, e se torna uma história sobre família, sentimento, ter proposito na vida, perda, legado e até mesmo sobre oralidade.
Com base no desenvolvimento dos personagens, principalmente a relação de Helen com seu avô, Tom King trabalha muito bem o que tange o reconhecimento, ou seja, o avô reconhecendo Helen como sua neta, herdeira e parceira de aventuras, demonstrando que se importa com ela mesmo não sendo um homem de palavra, preferindo a ação para demonstrar afeto.
Em relação a Helen e seu pai, mesmo não estando presente na HQ fisicamente, o pai de Helen é citado diversas vezes, não apenas por ter falecido pouco antes do começo da história, mas também por ter sido um escritor famoso. E nesse ponto, é muito interessante ver o desenvolvimento da trama traçando um paralelo entre os livros que ele criava e o mundo novo de fantasia, é algo que “explode a cabeça” quando desenvolvido.
Além disso, é possível trabalhar a questão do legado entre familiares e o que herdamos de nossos pais, tendo em vista Barnabas, seu filho e Helen. Os três possuem problemas com bebidas, o que é escancarado, mas indo mais a fundo, é possível identificar elementos de somos um reflexo de nossos pais ou moldamos nossas ações e nossa vida? De início, podemos notar semelhança entre Helen e seu pai, mas conforme a trama avança e ela conhece mais a respeito de seu pai – da vida prévia dele, antes de Helen nascer – é possível ver que o pai foi se transformando, trabalhando também o legado dos personagens.
Em determinados momentos da HQ, também somos levados a refletir sobre o sentido da vida. A perda de um familiar é algo que impede a nossa existência? É algo que nos impede de viver e tira nosso propósito? Helen é um reflexo da perda de um ente querido, que a todo momento está lidando com o luto. A partir do momento que a garota descobre o mundo da fantasia, é impossível não associar isso a nosso cotidiano, quando “escapamos” para uma série, um filme, um jogo ou algo desse tipo para espairecer a mente. O mundo novo, onde Helen era uma guerreira, se tornou um escape da realidade que ela vivia até então, dando um novo proposito para sua vida, e pode ser visto como um paralelo de nossas vidas quando escapamos para esses mundos fantasiosos.
Ademais, não mencionar a escolha narrativa para contar essa história. Nesse âmbito, Tom King escolheu contar a história a partir de uma narração, sendo que a Lilith é a narradora da história em maior parte do tempo, com breves momentos em que Helen assume esse papel. Essa característica de narrativa fica mais interessante, pois a narração de Lilith é para um jornalista que está escrevendo uma biografia do pai de Helen, ou seja, estamos acompanhando uma história do passado sendo contada em tempos atuais, por uma mulher que viveu com Lilith e “vivenciou” essas aventuras do outro mundo por meio de histórias que a Helen lhe contava. Assim, estamos ouvindo uma história que outrora também foi uma história.
Assim, após finalizar a trama, fiquei pensando nesse fato de histórias sendo contadas de uma pessoa para a outra com a perspectiva da oralidade, sendo uma forma de transmitir a cultura através das gerações por meio das palavras, a qual é utilizada por povos que não possuem escrita. Dessa forma, o poder das histórias narradas é transmitir algo que se tornará um legado e irá sobreviver ao longo dos isso. E se tratando de Helen de Wyndhorn, com base no que acompanhamos do que ocorreu com os livros do pai de Helen, bem como as fitas das entrevistas de Lilith, acredito que essa história será ainda mais explorada.