"Éramos felizes, verdadeiros camaradas e a âncora um do outro. Um dia o nosso barco afundou-se e nenhum dos objetos que éramos nos salvou."
Um casal foi de férias para o Rio de Janeiro, numa viagem que prometia ser inesquecível. Depois de dias encantadores, banhados pelo sol e pelo espírito leve e sempre em festa carioca, aproveitam uma das últimas noites para irem jantar fora. Quando terminam a refeição, satisfeitos e apaixonados, decidem ir a pé para o hotel, mas não se recordam se o caminho mais perto é pela esquerda ou pela direita. Como é que a vida pode mudar tanto, apenas assim, por uma escolha irrisória?
Um relato profundo e duro, escrito na primeira pessoa, que se debruça sobre a finitude da vida, as decisões irrefletidas que a moldam e o conceito de amor eterno, com a cidade maravilhosa como pano de fundo.
Maria Francisca Gama nasceu em Leiria em 1997. Aos 17 anos, mudou-se para Lisboa e formou-se em Direito, pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Trabalhou num escritório de advogados e, mais tarde, numa agência de comunicação. Atualmente divide o seu tempo entre a escrita e a leitura, o trabalho criativo por conta de outrem e as explicações de língua portuguesa.
Que livro mau. Que livro horroroso que brinca com temas pesados como jogos partidários. Que usa e abusa do trauma e das emoções para passar mensagens políticas apagadas e desprovidas de grande valor e sentimento. Que sem o cuidado devido deixa mensagens perigosas sobre histórias que não são suas. E sim, não devemos escrever apenas sobre o que conhecemos, mas o escritor tem o dever de ser responsável pelos temas que traz à luz, de lidar com eles com a delicadeza que merecem. É um livro sobre medo, pânico, privilégio branco e dor. É um livro insensível e pobre. É um livro que tem como menor defeito achar que o leitor é burro e incapaz de retirar conclusões por si só. E mal posso esperar por falar dos maiores.
A partir daqui sintam-se avisados, vêem spoilers.
Primeiro, quero e preciso de falar de violência sexual e da importância de falar com alguém, de não viver dores a sós. A autora esqueceu-se de relembrar o leitor que apesar deste diário mostrar uma história, uma história em que a personagem partilha pensamentos perigosos e horrorosos como este, todos merecemos ter com quem falar.
"A tristeza é nossa, só nossa. Partilhá-la com quem nos ama é um ato de egoísmo, ainda que nos convençam do contrário: estamos na merda e arrastamos aqueles de quem mais gostamos para chafurdarem nela connosco. Podem pedir-nos que o faça- mos, mas amar também é proteger e recusar convites aliciantes: eu, por mais que, por vezes, tenha tido vontade de o fazer, guar- dei esta história comigo, e hoje, passados anos, apenas a partilho porque sei que o meu tempo está a acabar."
A persongem tem todo o direito de não sobreviver, é uma história, triste como tantas outras neste mundo, reais e dolorosas. Mas os leitores têm o direito de ser relembrados que, no meio de tanta dor, violência e tristeza, merecem um fim diferente. Merecem amor. Merecem falar. Não merecem ser uma história que apenas existe para justificar medos e gerar lágrimas. Merece, nem que numa nota de autor, ser relembrado que pensamentos como o que deixo abaixo são perigosos e devem ser retratados com cuidado.
"Isto não é daquelas coisas com as quais se aprenda a viver e, por isso, estou, desde aquele dia, no processo de aprender a morrer."
Todas as vítimas merecem viver.
Adicionalmente, acho importante relembrar que, tal como a minha professora de crime uma vez disse, uma mulher está mais segura num beco escuro do que na sua própria sala de estar. A violência contra mulheres é um problema sistémico de um mundo misógino e para um livro que usa uma (1) vez a palavra "patriarcado" faltou uma abordagem genuína a esta problemática. Isto leva-me à segunda questão - a desnecessária e manifestamente insensível inserção de ideais políticos numa história sobre dor e violência contra mulheres. A constante discussão de dinheiro e pobreza, as expressões redutoras e privilegiadas, os pensamentos redutores da verdade da pobreza.
Esta obra de arte começa da pior forma que alguma vez um livro começou - "Há qualquer coisa bonita na pobreza".... Não, não há. Nem sei o que dizer sobre isto, apenas que para um livro tão triste e violento, tão sensível, eu não devia começar com vontade de me rir.
A autora insiste e continua durante toda a obra a salientar como a pobreza deixa as pessoas desesperadas, falhando em relembrar que não é a falta de dinheiro que leva a violações, mas sim a misóginia intrínseca da nossa sociedade. Mas não sou ninguém para lho explicar, apenas me senti desiludida com a visão simplista de um problema que é tudo menos isso.
Depois, a autora sente a necessidade de tornar o livro "atual" e "relatable" para os jovens portugueses e eu tenho que ler uma crítica insonsa despropositada ao PS no meio de um livro sobre uma violação e um suicídio (?). Espero que também entendam o quanto eu senti que isto era de um gravíssimo mau tom.
"Naquela semana, ali, sentíamo-nos ricos, com um poder de compra que nunca tínhamos tido em Portugal e que, enquanto o Partido Socialista continuasse a governar com maioria absoluta, duvidava ser possível para os jovens como nós."
Mas piora. Infelizmente, este livro passa de uma piada de mau gosto para um panfleto da Iniciativa Liberal, como um anúncio mal metido a meio de um episódio da novela. Quando finalmente chegamos ao momento, pelo que a autora lutou para que chegássemos, somos apresentados a uma escolha: esquerda ou direita. E já antes a escritora tinha gostado de dar a entender que estas expressões não são desprovidas de significado político.
"No entanto, nada me preparou para a primeira vez em que aterrei no Rio de Janeiro e me apercebi de que a cidade não estava dividida geometricamente (para a esquerda os ricos, para a direita os pobres ou talvez ao contrário, se pensarmos politicamente)."
Para a direita os nossos protagonistas dançam samba, são felizes, chegam a casa. Para a esquerda são assaltados e forcados a passar por uma das mais violentas cenas de violência sexual a que alguma vez fui exposta. E, se este podia ser um inuendo político algo subtil e deixado à interpretação do leitor, a escritora acha por bem começar o capítulo onde descreve uma violação em grupo com a clarificação de que o pai era esquerdalha, mas ela votava IL, e de como se tinha arrependido de ter virado à esquerda.
"Eu também me interessava por política, e tinha muito orgulho-me dizer que tinha sido uma das primeiras militantes da Iniciativa Liberal, o primeiro partido com o qual me identificava quase por inteiro."
E, de repente, temos uma das associações mais desprovidas de bom senso que podia ter sido feita. Associar a esquerda, associar a política, a um nível de violência tal que leva à morte de uma personagem e ao abalo emocional de qualquer leitor humano é inconsequente, insensível, infantil e, honestamente, nojento. Não há outra forma de o dizer.
***
Este livro é violento e duro mas, acima de tudo, profundamente insensível. Não toca em nenhum tema verdadeira importante da violência sexual contra mulheres, das suas causas sistemáticas. Vende palavras chaves partidárias e políticas como se de um panfleto se tratasse e abdica da responsabilidade de relembrar o leitor da importância de não se isolar. É irresponsável, repugnante e sim, verdadeiramente triste. Mas não creio que tristeza e fixação com a desgraça sejam razão suficiente para ler um livro.
Poupem o vosso dinheiro de ir parar à campanha da IL e vão ler qualquer outra coisa.
Fui ler porque me apareceu aqui no Goodreads no top dos Mais lidos da Semana. Depois, vi a nota superior a 4.5, com mais de 3000 avaliações, e pensei que deveria haver aqui algo excecional, pelo que quis ler.
A escrita é razoável, mas falta tanto mundo, não apenas psicologia humana, mas conhecimento do Brasil, da sua cultura, da pobreza e criminalidade. O que se vai afirmando está repleto de lugares comuns, não se diz nada de novo, não há um comentário que se possa apontar como sendo original. Em cima, falta descrição do mundo-história, para não falar da ausência de caracterização dos personagens. Parece um longo post de Facebook, sempre à superfície da realidade.
Na estrutura, tenta criar suspense mas não há nada que sustente o mesmo, não há linhas narrativas secundárias, tudo não passa de um conjunto de relatos de enchimento na tentativa de alongar e retardar a única linha de enredo, ou melhor, o único evento que tem para contar. Por fim, quando acontece o que vem anunciado em todas as páginas, falta tudo, não há sequer espaço para o sentir da personagem, apenas se dá a ver uma cena, que sendo horrível, não apresenta qualquer ponto de vista único ou próprio.
"É um livro curto e lê-se num sopro, mas isso não significa que se deva partir para a leitura de ânimo leve. De qualquer das formas, se gostam de livros intensos e que nos levam a considerar as pequeninas decisões que tomamos no dia a dia, então A Cicatriz tem mesmo de estar na vossa lista."
"-Mummy, i have a voice! -Let me let you into a secret. No one wants to hear it." The Crown
No estilo narrativo da escritora, encontrei a citação que achei mais apropriada para descrever a minha reação enquanto leitora. A autora tem, sem dúvida, uma voz. Escreve de forma razoável, boa até. Mas sofre inevitavelmente do síndrome que, à semelhança da Colleen Hoover, a faz ser famosa e bestseller para os outros, e um horror literário para mim (e continuo a não perceber porque é que a minoria sou eu e não os outros).
A Colleen Hoover escreve de uma forma romanesca sobre violência doméstica. Maria Francisca Gama escreve de forma romanesca sobre violação, e o único traço que a redime é escrever razoavelmente bem. Mas escrever mais ou menos bem não faz dela escritora. Oh boy, se não faz mesmo. Em primeiro lugar, não deixa de passar a sensação de que o livro é autobiográfico, havendo uma primeira parte em que parece que estamos nos instastories da autora, e na segunda um caso mitológico de violação (80% dos casos de violação são por pessoas do nosso círculo e não de estranhos na rua), que torna precisamente o livro best seller porque cede ao medo irracional óbvio que as mulheres leitoras teem- e é por isso que o livro é um sucesso, e não porque descreve exemplarmente a reação que as vítimas teem quando são violadas. Em segundo lugar, com o devido respeito. A Maria Francisca Gama tem uma voz, mas não tem nada para dizer, e por isso é que usa a violação para passar o diário de bordo dela com o namorado para uma pretensa ficção. Não deixa de passar a sensação que a autora é uma beta de Lisboa com poucas visões do mundo (visões não é viajar, é sentir) e que tenta mascarar as visões parcas que tem com aqueles parágrafos políticos atrozes de ler (falar da iniciativa liberal para abrir o capítulo em que ocorre a violação- wtf was that about) e uma visão eurocêntrica e superficial do Brasil. Se não sabe de política ou não se interessa, não tente entrar na onda só porque atualmente os agentes culturais são todos politizados- e não fale simplesmente. Salva-me a mim da vergonha alheia de ler um parágrafo sobre a maioria absoluta do PS. Em terceiro lugar. Não queria mesmo atacar a autora por ser ou deixar de ser quem é. Simplesmente é um livro que deixa uma sensação óbvia e estranha de que não é um livro- mas uma legenda de uma foto da autora com o namorado no Instagram. Em quarto lugar. O destino que deu à vítima- preguiçoso, mal escrito, e acima de tudo perigoso para as vítimas reais!!!! Em quinto lugar. This book will definetly not stand out the test of time- o que para mim é o maior indicador de sucesso.
Resta-me a mim não querer convencer ninguém da minha opinião, ou não fosse a opinião esmagadora de que este livro é fantástico. Acho que a escritora tem potencial, mas se optar pela escolha de ser a Colleen Hoover da tuga, perde leitores de qualidade, e ganha os leitores do tiktok- sem querer entrar em condescendência. Parece me que este livro está a tornar-se um sucesso pelos leitores do tiktok- not the good kind.
escrito para chocar e não para sensibilizar (e para perpetuar preconceitos)
quando li este livro não queria rumar contra a maré de críticas positivas, até porque se trata de uma escritora portuguesa, mas depois de ler a vista chinesa, compreendo ainda menos a abordagem que a Maria Francisca Gama conferiu a um tema tão sensível como a violação. mas quem sou no meio de tantas críticas positivas...
Acho muito perigosa e irresponsável a narrativa de que não devemos falar sobre algo que nos atormenta. Há quase que uma culpabilização das vítimas, que “arrastam os outros para a merda consigo”, como a narradora diz. “O meu corpo deixou de ser meu”, “A vida não continua”. Espero que vítimas de situações semelhantes (e reais!), não se sintam tentadas a fechar-se em copas por causa deste livro. Merecem ter todo o tipo de apoio, e merecem ter uma vida.
Acho que os comentários sobre a pobreza e a miséria foram escritos destituídos de noção. Isto também se aplica à tentativa de introdução de agenda política numa história sobre um tema tão hediondo, assustador e angustiante como o que foi retratado. Com esse parágrafo se calhar tentou dar alguma profundidade ou intelectualidade à história, mas falhou, e foi no mínimo constrangedor e fora de contexto
A sinopse do livro diz que este é sobre escolhas. Mais uma vez, parece que pelos vistos são as vítimas que escolhem. Não interessam a estatística e os apelos ao cuidado que são feitos ao longo do livro, se depois o acontecimento se justifica levianamente com "a escolha de virar à esquerda" (ahaha tentou aqui também). A insensibilidade com que diz "o coitado do grupo das "viol*das"" é atroz
Começo por dizer que este livro, apesar de terrível, está a anos-luz do "A Profeta", livro anterior da autora. Pelo menos, a narrativa faz algum sentido. Portanto, segue o teu caminho, Maria Francisca.
A meu ver, a história divide-se em duas partes: uma mais leve, em tom de exposição, outra pesada e com o objetivo de chocar. A primeira parte do livro deu-me a sensação de estar a ler o diário da Maria Francisca Gama circa maio de 2023, altura em que esteve no Rio de Janeiro. Isso até poderia ser uma coisa boa, se a escrita não fosse superficial, com várias tangentes dignas de uma miúda de 14 anos. Também não ajuda que se possa ir ao Instagram dela e ver que realmente esteve no Rio de Janeiro naquela altura com o namorado e que, um ano antes, tal como menciona no livro, estiveram em Itália. Diz que não tens imaginação para escrever um livro de ficção sem dizeres que não tens imaginação para escrever um livro de ficção... Ao longo desta primeira parte, o ritmo estava constantemente a ser interrompido pela autora ao partilhar excertos de livros que claramente acha serem mais merecedores do que o seu, no entanto, estes excertos não acrescentam nada à história e apenas desviam a atenção da mesma. Chegou mesmo a acabar um capítulo como se estivesse a terminar uma emissão de rádio: "Antes de passar ao relato do próximo dia, deixo-vos aqui mais um excerto irrelevante". Decidiu também que era mesmo necessário aconselhar os leitores a visitarem determinados sítios no Rio, interrompendo a narrativa mais uma vez, como se fosse credível que uma pessoa na situação desta personagem se começasse a armar em guia turístico. É caso para dizer: "Já percebemos que estiveste no Brasil, Francisca, passa à frente..."
Quanto à segunda parte, o desfecho tornou-se demasiado previsível devido às constantes insinuações espalhadas ao longo do livro sobre "aquela coisa que aconteceu". Seria de esperar que a primeira parte servisse de exposição e de build up para esse clímax tão chocante, mas como é tudo escrito de forma tão superficial não existe realmente um "choque" quando lá chegamos, foi apenas ali encaixada uma situação mesmo dramática (a mais chocante em que a autora conseguiu pensar) de modo a provocar uma reação num leitor possivelmente mais sensível. Apesar de tudo, esta parte acabou por ser mais imersiva do que a primeira, porque finalmente senti que estava a ler uma história de ficção e não apenas a Maria Francisca a recomendar-me sítios onde esteve no Rio e a dizer que adorou mesmo quando lá esteve com as amigas.
Sobre o final, não há comentários. Para quê escrever uma história de superação com pés e cabeça quando podemos apenas agarrar-nos ao que há de mais deplorável e miserável e usar isso como desculpa para vender um livro? Sei que o objetivo da autora era pegar num tópico importante para ela e transmitir uma mensagem, mas a forma como contou esta história não adicionou nada nesse sentido e acho que autora dependeu demasiado do "fator choque" para passar essa mensagem, em vez de realmente construir uma narrativa em volta disso que capturasse o interesse do leitor e que criasse empatia com as personagens.
Mais uma nota, o facto de a autora estar constantemente a justificar o que escreve (tanto no início como no fim), como se um escritor não tivesse o direito de escrever sobre o que quer sem restrições, não resulta em seu favor. Se tens medo de ser cancelada, não escrevas apenas.
Mas enfim, vou-me calar. Só li isto porque sou hater.
P.S: já agora, "tiveram" e "estiveram" (p. 125) não são a mesma palavra, por favor, contrata um revisor competente.
Às vezes, a vida não segue o curso que desejamos, mas sim o que é; sendo finita, essa realidade, apesar de pesada, também nos alerta para aproveitar cada momento, pois para alguns, os amanhãs já não existem.
O número estimado de casos de violação por ano no Brasil é de 822 mil, o equivalente a dois por minuto (Dados de 2023 publicados a propósito do Dia da Mulher). Ser mulher é difícil e casos destes acontecem a cada momento, no Brasil e no mundo. A autora, a jovem Maria Francisca Gama (1997), adverte-nos que a linguagem explícita e gráfica pode ferir a susceptilidade de alguns leitores e que, se assim o entenderem, podem optar por regressar a esta história num momento mais oportuno. Um casal de namorados portugueses vai passar uma semana de férias ao Rio de Janeiro, essa cidade que me encanta - acredito a todos, e, em especial aos portugueses. E o Rio de Janeiro continuava lindo e acolhedor; tiveram aquela sensação de terem a honra de convidados e sedentos de absorver tudo o que aquela cidade oferece; pelos títulos dos capítulos senti que algo de trágico ia acontecer.
Uma noite, vão jantar a Ipanema e no regresso ao Leblon onde estavam hospedados, resolvem (com uma hesitação entre a esquerda e a direita) fazer o caminho a pé através de ruas interiores e não pela Avenida Atlântica como seria mais lógico e seguro, em minha opinião; mas a Rita Lee, a famosa cantora, dizia-lhes para espalhar o seu perfume pelo Rio:
Lança, lança perfume Ooh, lança, lança perfume Ooh, lança, lança, lança perfume Lança perfume Lança menina, lança todo esse perfume Desbaratina, não dá pra ficar imune Ao teu amor que tem cheiro de coisa maluca Vem cá meu bem, me descola um carinho Eu sou neném, só sossego com beijinho Vê se me dá, o prazer de ter prazer comigo
SPOILERS
E ela é violada por cinco bandidos, ele ameaçado de morte assiste a tudo; ela fica com uma cicatriz na zona do bikini feita com recurso a uma faca. Dispenso os detalhes tal a sua crueza. Uma cicatriz com duplo sentido para toda a vida porque uma mulher violada é uma versão do que resta de si. Quando volta do hospital, toma um banho prolongado como quem quer uma pele nova.
Quando regressam a Lisboa, ao aterrar na Portela, ela diz que ali acaba tudo...que cada um vá para sua casa e que o namoro termina. E assim, foi. Em caso de um grave problema na vida de um casal, há duas possibilidades: unirem-se no desgosto ou afastarem-se. Regressaram e despediram-se para sempre. Ela diz-lhe que quer ficar só que apenas sozinha consegue concentrar-se na sua dor. Ele escreve-lhe cartas que deixa na caixa do correio:
«Perdoa-me. Vamos conversar, por favor. Não podemos passar por isto separados [...] Tu precisas de mim e eu de ti. Sempre superámos tudo tudo juntos. Não desistas de nós. Eu amo-te»
Será que o destino nos quer dar uma lição, ou mais do que uma lição, uma vingança?
Nunca sabemos o nome dela, ela é a «violada», membro honorário do grupo das violadas. Afasta-se de todos, família, amigos, guarda o segredo. Houve um dia- tinham passado três anos - e surge a ideia de escrever estas páginas para se despedir e contar toda a verdade - o seu corpo deixou de ser só seu no Rio de Janeiro.
Não quero encerrar este comentário sem antes partilhar excertos de duas cartas que me comoveram muito.
De ela para ele:
«Apaixona-te outra vez. De certeza que alguém te amará tanto quanto eu, e ainda podes ser muito feliz. [...] Não tenhas receio do que o destino tem reservado para ti, mesmo que também aches que ele é um filho da puta que já fez pouco de nós: não repetirá a brincadeira, tem mais pessoas para lixar.»
Ele, muitos anos depois:
«Esperei por ti muito tempo, todo o que precisei para que a tua partida ecoasse como definitiva em mim. [...] Tive sorte, encontrei uma mulher, Mariana, que me ama e me aceita com esta condição, de já ter tido o amor da minha vida e de agora estar disponível para viver um amor para o resto da vida.»
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Li-o numa noite, não só por ser pequeno mas porque não o consegui largar tal era a ansiedade que a história me fazia sentir. Que bem que escreve a Maria Francisca e que nova é. Quero muito poder acompanhar o seu percurso que se adivinha um sucesso.
Este livro é a versão da temu de “Vista chinesa”, de Tatiana Levy.
Para além de demonstrar uma total falta de sensibilidade ao abordar um tema difícil, fá-lo de forma perigosa, superficial e repleta de lugares comuns.
“Há qualquer coisa de bonito na pobreza” é a frase de abertura... Acho que não preciso de dizer mais nada. Também acredito que uma personagem que nos relata um acontecimento tão traumatizante não iria sugerir um roteiro pelo Rio de Janeiro, nem fazer comentários políticos que nada acrescentam e estão completamente descontextualizados. E, se o fizesse, não seria desta forma.
Quanto ao final, não tenho palavras. Acho simplesmente irresponsável.
Fiquei com muita pena de não gostar deste livro, mas realmente não tem ponta por onde se lhe pegue.
Eu queria MUITO ter gostado deste livro. Mas a verdade é que não gostei minimamente. Minto: gostei das referências à cultura brasileira – aos filmes, aos livros, à música. Tudo o resto, a meu ver, tem gosto a perpetuação de estigmas e preconceitos. Está para a literatura como a CMTV para o jornalismo. Sensacionalista e irresponsável.
Queria muito ter gostado deste livro - em português de uma jovem autora portuguesa. Estava ansiosa por ler. Mas quanto mais penso nele, menos gosto.
O tema é muito pesado e forte, mas a escrita é pouco emotiva. As únicas emoções que senti foram repulsa, na descrição do acontecimento traumático, e aborrecimento com o resto da escrita. É uma escrita muito simples e demasiado justificativa - muitos parênteses, muitas justificações de coisas que não precisam de ser justificadas.
Também houve coisas boas - a forma como a narradora contou as primeiras partes da viagem ao RJ com bastante detalhe, como se estivesse efetivamente a adiar chegar ao assunto difícil, foi relativamente bem conseguida, e simulou bem o sentimento de querer adiar falar de um assunto mau mais um bocadinho.
De forma geral não é um livro que possa dizer que tenha gostado, e é um livro que com certeza não relerei.
Betos fazendo betices ocas. Gosto do Maria Francisca, a marcar a tradição de dois nomes próprios ou dois apelidos 😆 Escrita terrível e erros de ortografia. O meu país deixa-me triste tantas vezes. Resumidamente, Portugal quo vadis.
Li a primeira frase deste livro e tive imediatamente medo da mensagem que pudesse passar. “Há qualquer coisa bonita na pobreza.”, diz a beta privilegiada que nunca de facto sentiu pobreza de perto. Tudo neste livro está carregado de observações ignorantes com conotações políticas sobre a pobreza sentida no Rio de Janeiro, desde como os pedintes na praia eram irritantes e indesejados, a constantes declarações do medo extremo que tinha de ser assaltada por tudo e todos ou a uma tentativa triste e ridícula de romantizar uma visita turística às favelas. Acho completamente desnecessário e deplorável o uso de um povo marginalizado para validar os ideais políticos da narradora, que se tornaram ainda mais óbvios quando disse que se identificava, “com muito orgulho”, com a Iniciativa Liberal e que o pai era “esquerdalha” e que por isso era contra a meritocracia. “a cidade não estava dividida geometricamente (para a esquerda os ricos, para a direita os pobres - ou talvez ao contrário, se pensarmos politicamente)” ahahahah get it? Porque pessoas de direita são ricas e pessoas de esquerda são pobres! Super engraçado. Apesar da falta de noção gigante de todas estas frases (o tipo de frases sendo “uma das regras de ouro durante as férias no Rio de Janeiro: ignorar as partes más.”) que mais pareciam um blog de uma adolescente que viajou pela primeira vez para fora do país, eu estava determinada a não deixar que isto influenciasse a minha opinião sobre os outros aspetos do livro. Tinha algumas frases bonitas e tinha ouvido dizer que o final era mesmo triste e queria ter empatia à tragédia que ela anunciava por meio de contagem decrescente desde o início do livro. Quando finalmente cheguei aos 60% em que é relatado um assalto e uma violação, veio uma frase que nunca pensei ver num livro escrito em 2024 e que não consegui mais perdoar ou esconder a raiva que ja tinha acumulada em mim: “ao desfazer a mala em Lisboa, me apercebi de que só poderia estar mais despida do que vestida, dado que só tinha levado vestidos, calções, saias, camisolinhas de alças. Talvez me tenha insinuado, ainda que não quisesse, de todo, aquele resultado.”. Para mim o livro podia ter acabado aqui porque tudo o resto foi lido com isto a dar em loop na minha cabeça e não senti absolutamente nada, nem na despedida deles um do outro, nem nos anos que ela passou sozinha a sofrer, nem nas cartas que ele lhe mandou, e nem mesmo no suicídio que ia obviamente acontecer no final. O ranço podia acabar por aí mas ela decidiu realçar que a personagem tem uma necessidade extrema de viver todo o trauma completamente sozinha e sem falar com ninguém porque acha que não ia ajudar nada e, tal como disse logo nos primeiros capitulos “A tristeza é nossa, só nossa. Partilhá-la com quem nos ama é um ato de egoísmo”. Será mesmo esta a mensagem que queremos passar aos leitores que possivelmente terão passado por traumas semelhantes? A mim parece-me que não. Tenho dias de críticas para fazer a este livro miserável mas por hoje vou ficar-me por dizer que o privilégio e a ignorância da autora são palpáveis desde o primeiro ao último capítulo e nem vou marcar isto com spoilers porque se lerem acidentalmente ao menos livro-vos de uma experiência péssima.
Primeiro livro que leio da autora e adorei, fiquei super conectada com os personagens mesmo nunca sendo referido o nome dos mesmos.
Sabia que o rumo que a história levaria seria um mais intenso, devido a tudo o que já tinha visto e ouvido mas realmente doi ler a situação pela qual os nossos personagens passam e sofremos com eles.
Se forem mais sensíveis pff leiam os tw mas este livro é importante e tem de ser mais falado.
Gosto muito de histórias que não são económicas nas palavras, palavrosas nas descrições, que têm uma escrita que delicia o leitor.
A narrativa é belíssima, muitos dos recantos deste livro são odes às pequenas coisas da vida, mas sinto que, mesmo assim, o livro vive muito da tragédia central, do choque do leitor e, no meu caso, esse choque acabou por retirar qualidade ao livro, colocou a arte refém do embate do leitor.
A arte não tem de ser sempre política, ou sempre bonita, ou sempre sobre dor. Na minha opinião, a arte é livre de poder impactar o leitor e não é responsabilidade do artista a dor que pode infligir, no entanto, questiono-me se o tema central deste livro não podia ser parte integrante da sinopse, se não podia existir mais transparência com o leitor. Questiono-me, também, se os trigger warnings do livro forem spoilers da obra, se realmente não estamos a incorrer no caminho mais fácil para agarrarmos a audiência.
Não há limites para a arte nem para o desconforto que pode causar, mas se vive exclusivamente do desconforto, retira-lhe substância.
Que dor no coração foi ler este livro. A cada capítulo a ansiedade cresce, a cada página ficamos mais e mais desesperados por entender o que aconteceu no fatídico dia que mudou a vida da nossa personagem central, o ponto de ruptura que marca um antes e um depois. Tive de parar várias vezes para absorver o que lia, para digerir tamanha crueldade, para dar sentido a emoções que me assaltavam. Raiva, revolta, mágoa. Não sei que mais dizer. 💔
Já tinha lido algumas opiniões sobre este livro. Uns adoraram, a maioria, outros nem por isso. Eu gostei, achei a escrita bastante competente, fácil de ler, com alguns clichés e capítulos desnecessários, mas que não me fizeram achar este livro horrível. A contagem decrescente para o acontecimento, que eu já sabia o que era, mas não como ocorreu, manteve-me interessada e até me deu uma sensação de tristeza pelo casal e de raiva pelos ogres que abriram neste uma ferida para o resto da vida. Talvez a reação da moça, após o acontecimento, seja bastante exagerada, não sei, só quem passará por isso o poderá dizer, mas achei que não faria muito sentido, sendo que, no fim, dirigindo-se a ele, o namorado, lhe diz para aproveitar a vida, concretizar os sonhos, viajar, apaixonar-se novamente. Pareceu-me um pouco incoerente, mas, como diz o ditado, é mais fácil dizer do que fazer.
Realço, desta forma, o aviso: este post vai conter spoilers.
A cicatriz conta a história de um casal, Ela e o seu ele, que vão fazer uma viagem ao Rio de Janeiro. Tinha tudo para ser uma viagem perfeita. Mas então, alguma coisa corre extremamente mal, uma desgraça abate-se sobre o casal – sobretudo sobre Ela – e eles têm de lidar com isso. A obra fala do antes, do durante e do depois.
A parte inicial fala-nos do antes. Para mim, esta parte demorou um pouco a passar, mas percebo que ela exista: serve para contextualizar e nos apresentar as personagens. Acho que é aqui que se nota que a escrita da autora pode ainda evoluir. Se analisarmos com olhos de ver, como uma leitora critica e esmiuçarmos bem a questão (não é difícil) conseguimos ver laivos de machismo e de xenofobia. A mim o que mais me ficou na cabeça foi a parte final desta parte, aquela em que “se virarmos para a esquerda” nos acontece uma grande desgraça e se “virarmos para a direita” corre tudo bem. Uma mensagem politica que eu suspeito que quisesse ser uma mensagem subliminar mas que de subliminar tem muito pouco ou mesmo nada.
Depois, vem a situação em si. Está bem escrita. Percebe-se que houve um trabalho de pesquisa, estas páginas agarram-nos, surpreendem-nos, dão-nos um murro no estômago, deixam-nos com os nervos à flor da pele. E vê-se que foram escritas com o intuito de chocar e de vender. Emocione-me bastante nesta parte🥺Algumas frases, alguns pensamentos da personagem, podem ser considerados pouco verossímeis.
Depois, vem o “depois”. A altura em que as personagens têm de lidar com o que lhes aconteceu. E é sobre esta parte que me quero debruçar mais aprofundadamente.
Nesta parte a autora não opta por aquilo que alguns chamariam de “politicamente correcto”. Ela não dá um final feliz à história. E se por um lado eu não costumo ter problemas com finais não-felizes, por outro tenho de reconhecer que este me deixou com algumas dúvidas. Note-se que não foi por uma questão de ter ou não gostado da história e da parte final da mesma.
😔 uma das personagens suicida-se.
A obra não fala abertamente sobre o momento do suicidio, mas sim sobre aquilo que o cerca. E em momento algum este assunto é tratado com a seriedade que o deveria cercar. Nesta obra o suicidio é tratado com leviandade, como algo normal, pacifico, a solução para um problema. É inclusive comparado a um cancro, como se os sentimentos de um doente de cancro fossem os mesmos de um suicida. E isso é errado em vários niveis. Atrevo-me ainda a dizer que algumas personagens ficam melhores após a morte da personagem em questão, o que é absurdo.
No entanto, acho que este livro nas mãos de um leitor que esteja numa situação sensivel – seja ela ou não semelhante à da personagem – este pode ser um livro perigoso.
Foi um livro intenso.
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História simples e envolvente. Nota-se que a autora ainda está à procura da sua voz, bastante palavrosa e demasiado explicativa. Ponto extra para a audácia mostrada na cena mais dura do livro, achei bem escrita e bastante forte. No entanto, o final é inverossímil e retiraria as notas iniciais e finais da autora, acho desnecessário justificar o que se escreve.
não tenho por hábito escrever reviews negativas, mas a vergonha que senti a ler este livro fez com que não me controlasse. a verdade é que tudo o que ouvia dizer do livro me fazia pensar que, efetivamente, não seria fã dele, mas senti que tinha de o ler antes de o criticar.
este livro parece que está escrito para pessoas que não estão habituadas a ler, que acham que por ser descrita uma violação, de uma maneira ‘crua’ (que, na verdade, está apenas de uma forma glamorizada e numa tentativa de chocar o leitor), significa que é um livro espetacular.
a maneira como é definido que brasil=violação, que a personagem vota na IL (????? como se fosse relevante, nem sei como não vinha com um panfleto a promover o partido), que são personagens absolutamente perfeitas até uma delas ser violada, é absolutamente vergonhoso.
para além disto, porque é que parece que estou a ler um diário? se é para ser um, então que seja assumido. da forma que está escrita, parece que estou a assistir a um discurso.
há vários livros bons, importantes, necessários a ler sobre este assunto. este não é um deles. aconselho a autora a sair um pouco do seu privilégio e a perceber mais do assunto, a estudar um pouco de psicologia, a ter mais sensibilidade, antes de escrever sobre algo tão impactante e destrutivo como uma violação realmente é.
que irresponsabilidade. não andamos aqui a brincar aos escritores porque nos apetece fazer chorar as pessoas.
espero que os próximos livros da maria venham de um lado mais inteligente, sensível, e, na verdade, com mais noção.
“A Cicatriz”, de Maria Francisca Gama, é uma obra que me cativou assim que a comecei.
A autora demonstra uma habilidade incrível em tecer uma narrativa que é ao mesmo tempo emocionante e profunda. Na minha opinião, houve uma evolução desde o livro anterior, “A Profeta. A Francisca tem um dom para descrever cenas e emoções de uma maneira que faz o leitor sentir como se estivesse lá, vivenciando tudo junto com as personagens, desde os momentos mais simples, até ao trágico acontecimento.
Além disso, “A Cicatriz” aborda temas profundos e significativos, como amor, perda e redenção, de uma maneira que é ao mesmo tempo tocante e inspiradora. O livro faz-nos refletir sobre nossas próprias cicatrizes e sobre como lidamos com elas. Foi uma experiência de leitura maravilhosa e quero ler tudo o que a Maria Francisca escrever.
A nota da autora, antes do começo da história, vai ajudar a decidir que querem arriscar nesta leitura.
Um livro que comecei a ler por acaso e que acabou por me prender de um modo um bocado doentio. É estranho, pois tem várias coisas que não aprecio, como ser uma desgraceira pegada, com uma violência que por vezes me pareceu gratuita e claro, desnecessária. A autora explica demais. E mesmo assim, lá fiquei eu desassossegada, agarrada ao livro. Há mérito nisto, parece-me.