Reuven Feuerstein já é um nome conhecido mas nas discussões públicas e nesta rede suas ideias estão ausentes. Faço aqui um resumo daquelas sobre inteligência porque são muito úteis, inclusive para nossa auto-avaliação.
Digamos que aprendemos 10 palavras em inglês.
O que entendemos por essa operação não é como salvar dados num HD. Mas tem 4 parâmetros: permanência, resistência, flexibilidade/ adaptabilidade e generalização/ transformação.
Exemplo. Quando vemos uma das 10 palavras daqui a uma semana, sentiremos familiaridade porque lembraremos dela (permanência). Qnd a ouvirmos num sotaque diferente a reconheceremos e a usaremos mesmo cansados (resistência). Também a entenderemos em contextos diferentes (adaptabilidade). Por fim essas 10 palavras nos farão aprender muitas outras palavras e nos livrarão de muitos problemas. (Generalização)
Aquelas 10 palavrinhas germinam dentro da cabeça e tomam vida própria a cada iteração, transformando-nos ao se transformar. Aprender é uma ato transformador e não meramente mecânico.
Antes da experiência de auto-modificabilidade acima havia 10 vocábulos em uma lista e um humano desinteressado. Para descrever esse estado Feuerstein elaborou uma lista de deficiências, dividida em Input, Elaboração e Output onde a burrice pode ser plotada:
Recepção, ou Input:
- percepção confusa e superficial da realidade;
- busca impulsiva, não planejada, não sistemática de informações;
- "carência” de instrumentos verbais;
- dificuldade com a orientação no espaço;
- dificuldade para entender os conceitos temporais;
- dificuldade na conservação de quantidade, constância de tamanho, forma, direção etc. Atendo-se ao dado sensitivo, e não ao conceito;
- ausência de precisão/exatidão das informações, dos conceitos;
- incapacidade para considerar duas ou mais fontes de informação de uma só vez.
O fluente ouve um fonema e o dentista vê a cárie com sentidos igualmente aptos quanto os do iniciante que não ouve nem vê. O entendido é treinado em perceber o estimulo de forma clara, focada, sistemática e exata. Possui a terminologia que o ajudará a processar vem os dados, bem como as relações entre eles.
Quem não tem essas habilidades vê o ambiente de forma nebulosa, generalizada e passageira; rastreia o ambiente sem distinguir o relevante do insignificante. Também não busca informações de forma sistemática, ou seja, não é exato quanto ao quê viu nem ao quando nem aonde: isso impossibilita relações de causa e efeito. A falta de rótulos verbais implica a ausência dos símbolos nos quais as operações mentais são feitas.
Comunicação, ou Output:
- uso de uma modalidade egocêntrica de comunicação;
- dificuldade na projeção de relações virtuais (desenhar possibilidades);
- preponderância de respostas por ensaio e erro;
- dificuldade na utilização de instrumentos verbais adequados à elaboração de respostas também verbais;
- ausência da necessidade de precisão e correção na comunicação da resposta;
- dificuldade na transposição de uma imagem visual, de uma representação de um contexto a outro;
- conduta impulsiva.
Comunicação é um dos pontos mais importantes. O aprendiz formula o resultado da elaboração anterior; depois de comparar, refletir, decifrar, classificar etc, está na hora de codificar minha experiência e criar na mente um modo de resolver o problema. Muitas pessoas dizem que só sabem o que pensam ao escrever sobre um tema. Comunicar-se então é parte intrínseca do ato de aprender e suas deficiências muitas vezes são dolorosamente sentidas. Uma resistência quase que inconsciente à deficiência intelectual é a comunicação egocêntrica. O aluno assume que o ouvinte já possui dados ou cadeias de raciocínios inteiras e por isso não precisa convencer ou explicar alguém a sua posição. É assim porque sim. Outra deficiência de comunicação é quando a resposta é impulsiva ou por tentativa e erro.
Feuerstein: “Quando uma pessoa fala apenas com si mesma, ou quando está em situação de sonho onde as leis da lógica não têm sentido, não é preciso ser interativo. Mas a necessidade de lógica ao relacionar com limites de tempos e espaço, a necessidade de resumir coisas e a necessidade de classificar e organizá-las em ordem são criadas porque uma pessoa é criatura que vive em sociedade e recebe experiência por meio de uma interação de mediação que é única aos seres humanos.”
Elaboração:
- dificuldade para perceber a existência de um problema e defini-lo;
- dificuldade em relacionar informações relevantes como opostas às irrelevantes na definição de um problema;
- dificuldade para estabelecer comparações entre as informações;
- limitação do campo mental;
- percepção episódica da realidade em que as experiências sã vivenciadas como únicas, isoladas
- Ausência da necessidade de busca de evidências lógicas que orientem a resolução de problemas;
- dificuldade para raciocinar hipoteticamente;
- dificuldade em estabelecer estrategias para verificar suas hipóteses;
- dificuldade para definir as referências, o marco que será considerado para resolver um problema, seja ele teórico, ou prático;
- dificuldade em planejar as ações ou a "conduta cognitiva”;
- dificuldade para considerar categorias.
Muitos filósofos já descreveram o mundo dos fenômenos como caótico, contraditório e confuso. Essa é a realidade comum dos que não tiveram uma aprendizagem mediada e que vamos descrevendo nesses pontos. Na fase de Elaboração os estímulos antes confusos são alterados diferentes para as operações de pensamento. Depois de uma fase de reconhecimento bem concluída, o que deve ocorrer é um senso de problema. Uma das primeiras deficiências aqui é a falha em reconhecer e definir um problema; sem o qual não daremos o próximo passo, ou seja, distinguir entre dados relevantes e irrelevantes (além de raciocínio hipotético). Mesmo quando se tem a solução, o aluno não sente necessidade de justificar diante de si as soluções.
Também está ligada à elaboração a percepção episódica da realidade, pois esta é manifesta pela falta de inclinação de procurar por relações causa-efeito e inabilidade de discernir relacionamentos entre eventos, organizá-los, e resumi-los. Assume uma relação passiva diante da realidade e por isso a falta de buscas espontâneas por comparações (uma das pedras fundamentais dos processos mentais de ordem mais alta)
Outra deficiência é que as informações não são internalizadas, ou seja, não são formadas imagens mentais onde os aspectos conceituais se unam uns aos outros. Sem esse mapa mental a memória não basta para armazenar as informações e o aluno sofre de campo mental estreito onde cada informação nova ocupa o espaço de uma antiga e ainda assim o aluno precisará de dicas tangíveis para adivinhar a resposta. Em consequência disso há a inabilidade de projeções virtuais, ou seja, sem a internalização não se pode projetar novas situações senão aquelas a que se foi diretamente exposto. Duas consequências emanam disso: a falta de comportamento somativo, quando as experiências não se aglutinam uma às outras e, a falta de comportamento de planejamento, a incapacidade de se programar para novos estudos e investigações.
Uma experiência de auto-plasticidade, que deve corrigir as deficiências acima, é mediada por quem tem o aparato mental e cultural e portanto pode mediar ao aprendiz, entre outras as funções de intencionalidade/reciprocidade; transcendência; significado; autocontrole ou auto-regulação; compartilhar; individualização ou diferenciação psicológica; busca e planejamento de objetos; complexidade; pertença.
Fica claro, portanto, que educar é muito diferente de doutrinar. Trata-se talvez de individuação, através dos instrumentos da sociedade o indivíduo pode se construir através de seus problemas e desafios e encontrar o sentido que quer dar a sua vida.
Como diz Feuerstein: “A "transmissão cultural" é entendida como um processo grupal no qual são mediados significados históricos e o presente representa uma possibilidade de ressignificação da história, da humanidade em sua totalidade e do homem em particular. A apropriação do patrimônio histórico-cultural, próprio da herança social, efetiva-se em torno da constituição do sujeito e de uma realidade em constante movimento. É importante destacar que a transmissão da bagagem cultural é, por sua vez, um produto da dinâmica social, fazendo com que os homens dêem uma nova organização ao seu viver”