Primeiro volume da trilogia bibliográfica de Lira Neto sobre a vida de Getúlio Vargas, que cobre os anos de 1882 a 1930, desde sua infância em São Borja até a tomada da presidência da república na revolução e golpe de 1930.
Lira Neto começou o projeto desta série biográfica com o intuito de reconstruir o máximo possível da vida de Getúlio sem pender para o sensacionalismo, buscando manter-se jornalístico e didático na composição da obra. Ao mesmo tempo, o autor apresenta uma prosa elaborada e de agradável leitura, com interpretações de documentos e relatos que não devem nada à um bom romance. Capítulos como os das divergências em Ouro Preto que levaram à morte do estudante paulista Carlos de Almeida Prado são um deleite para quem gosta de uma boa narrativa. Em paralelo ao texto bem executado, o material apresenta uma pesquisa profunda do indivíduo foco da biografia, assim como a influência material que a história de uma época exerceu sobre seus atos, e vice-versa. O bom trabalho realizado pela equipe de pesquisadores que ajudou Neto é perceptível em cada capítulo.
Figura controversa, Getúlio é um dos indivíduos sobre quem mais se escreveu no Brasil. De postura pacata e sorriso enigmático, mesmo nos períodos da juventude que serviu no exército e durante os estudos em Ouro Preto e na faculdade de direito em Porto Alegre, Getúlio já despertava curiosidade com sua capacidade de oratória, sabendo costurar palavras de forma que elas surtissem o efeito exato que almejava, fosse este de uma mensagem de clareza ou de subterfúgio.
Tal capacidade se amplificou quando, depois do período que trabalhou como advogado, Getúlio começou a se envolver na política de seu estado natal e do Rio de Janeiro, capital do país da época. Vindo de uma família de políticos de carreira de cunho altamente conservador, adeptos do castilhismo e posteriormente do borgismo, Getúlio apresentava posturas políticas aparentemente contraditórias, defendendo tanto ideias de direita como de esquerda. Criado no meio das desavenças entre os federalistas e os republicanos no início da Primeira República positivista, onde ideologias eram usadas para mascarar autoritarismo, Getúlio aprendeu a aproveitar com maestria os ventos da ocasião, tratando com disposição tanto membros da situação como da oposição, legalistas ou revolucionários.
O Rio Grande do Sul, palco de revoltas, violência e guerra, por muito tempo se considerou uma potência excluída dos trâmites da União, que alternava a presidência em um jogo de poder exclusivo entre São Paulo e Minas Gerais, na chamada política do café com leite. O texto narra as crescentes desavenças estatais advindas das frequentes fraudes perpetradas no sistema eleitoral, partindo da revolução federalista contra Júlio de Castilhos até a revolução de 1930, que acabou unindo diferentes grupos e interesses em uma aliança de composição curiosamente fragmentada, de interesses variados em uma plataforma por vezes incoerente. A Primeira República nasceu viciada, e à época de Washington Luiz as tensões não pararam de crescer, até que se criou uma oposição de fato, capaz de fazer um barulho impossível de abafar. E por uma série de fatores e convenções, liderando esta oposição estava a figura de Getúlio, candidato à presidência do país apoiado pela Aliança Liberal e por personagens como João Neves, Oswaldo Aranha, entre outros.
A característica de matreiro de Getúlio permeou todo o seu percurso político neste período. Dualista, sempre se mantinha investido na dubiedade. Quando haviam duas possibilidades de resultados opostos, sempre buscava assegurar o controle da situação até o último instante, independente do rumo que ela tomasse. Entre desconfianças e promessas, a Aliança Liberal buscou principalmente colocar o Rio Grande do Sul como atuante na política federal, assim como proceder uma “vingança” mineira contra a nomeação de João Prestes efetuada por Washington Luiz para o candidato da situação, visto que era a “hora” de Minas na posição. As ideologias defendidas pela aliança eram menos importantes que os interesses particulares de cada estado que fazia parte dela, abraçando causas sociais por puro apelo popular. O cenário era de uma mídia jornalistica totalmente comprada, e de eleições fraudulentas, com direito a ameaças de morte de pistoleiros pagos dentro de câmaras eleitorais. Também havia pouca gente legalmente apta a votar, um número ínfimo quando comparado com a quantidade de habitantes do país.
Getúlio sabia jogar o jogo como ninguém. Feito uma raposa trespassava situações conflitantes para manter a plataforma unificada, sempre esperando o momento certo para dar o bote. Na posição de presidente do Rio Grande do Sul (equivalente ao governador atual) Getúlio buscava disfarçar uma imagem de apoio com o governo federal, de forma a manter uma governabilidade pacífica no estado, sempre continuando a mover em segredo as peças necessárias para a revolução, se aproveitando das pressões que aumentavam por todos os lados contra as oligarquias depois da vitória de Prestes nas urnas.
Com o assassinato de João Pessoa na Paraíba (candidato à vice-presidência na chapa de Getúlio), o trio de Oswaldo Aranha, João Neves e Flores da Cunha já estava prestes a "fazer revolução com ou sem Getúlio." Entretanto, à sua maneira Getúlio já manobrava um plano revolucionário, sempre acendendo uma vela para Deus e outra para o Diabo. Um trecho de dialogo que define bem sua postura pessoal e profissional é o de sua conversa com o biógrafo Emil Ludwig:
“O senhor tem inimigos?”, perguntaria um dia o biógrafo Emil Ludwig a Getúlio.
“Devo ter; mas não tão fortes que não possa torná-los amigos”, responderia.
“E amigos?”, insistiria Ludwig.
“Claro que os tenho; mas não tão firmes que não venham a se tornar inimigos”, replicaria Getúlio.”
Apesar da baixa estatura e do jeito reservado, incongruentes com a imagem estereotipada que se fazia do gaúcho, Getúlio foi aos poucos virando celebridade, o que é bem observado nas viagens de comboio realizadas no fim da revolução, a caminho do Catete para tomar posse no cargo da presidência do país. Tornou-se símbolo da revolução contra a elite, apesar de paradoxalmente ter feito parte dessa mesma elite política e jogado o jogo dela por tantos anos. E foi essa mesma capacidade de jogador prudente e dissimulado, com um profundo senso de oportunidade e sempre mais paciente que seu adversário, que definiu a trajetória de Getúlio.