Trata-se de um pequeno “Decameron”, bem mais lírico, que se passa na Índia moderna. Aqui não é uma terrível peste que reúne um grupo de pessoas para contar histórias, mas o simples atraso de um trem. Um grupo de quatro homens já com certa idade se vê obrigado a passar a noite na estação de trem e, para passar o tempo, põe-se a contar histórias de amor como as do clássico do Boccaccio.
As histórias do livro de Bose (são quatro apenas), no entanto, não possuem absolutamente nada da verve satírica do autor italiano. São contos essencialmente poéticos e com uma acentuada nota melancólica. A própria motivação para que o grupo desse início às histórias tem a sua beleza: enquanto esperavam em uma sala na estação de trem, um jovem casal assomou à porta, irradiando felicidade amorosa, olhando para dentro e logo saindo. Esse simples episódio fez cada um se lembrar de antigas histórias de amor que viveram ou que tomaram conhecimento.
Assim como o “Pequeno Príncipe” não é um livro para crianças, por trazer justamente a mensagem da infância, talvez esse não seja um livro para apaixonados, por trazer a mensagem dolorosa que, com frequência, está por trás das nossas paixões.
Há a paixão que não se realiza nunca, a que leva à vingança, a que começa na juventude e, com o passar dos anos, não se torna mais do que uma persistente idealização, em oposição aos próprios parceiros atuais. Há aquela paixão arrebatadora que ameaça levar tudo de roldão, mas que no fim das contas passa, e então se aceita outro destino, um que talvez seja até mais feliz. E há um tipo de paixão que leva à sujeição do seu portador em relação ao objeto amado, a uma adoração praticamente religiosa que não se importa sequer que o ser amado ame outra pessoa.
Tudo passa pela pena de Bose, todas as incompreensões, os desacertos, os desencontros, os erros, os acertos do tempo. É um livro pequeno, singelo, adorável, uma graça.
E pensar que eu, quando o peguei, havia pensado: “Bá, só mais umas historinhas de amor”. Eu não sei de nada.