Richard Yates (1926 – 1992) dedica “Perto da Felicidade” (1986) ao amigo e escritor norte-americano Kurt Vonnegut, com quem leccionou, juntamente com Nelson Algren, um curso de escrita criativa na Universidade de Iowa nos anos 60.
Depois do admirável “ O Desfile da Primavera” (5 estrelas) Richard Yates escreve um romance sobre duas “estranhas” famílias – os Shepards e os Drake – numa narrativa centrada na América dos anos 40, num subúrbio da cidade de Nova Iorque, Cold Spring Harbor (título original do livro) numa história de personagens “condenadas” a viver.
A família Shepard, constituída por Charles, um militar na reserva, frustrado por não ter lutado na 1º Grande Guerra Mundial, casado com Grace, a rapariga mais bonita do baile, sempre doente, incapacitada pelos “nervos”, alcoólica e fumadora inveterada, e pelo filho Evan, um rapaz bonito, com uma juventude problemática, quase sempre nos limites da delinquência, mas que a paixão pelos automóveis consegue resgatar, para uma vida rotineira de serralheiro mecânico e que mantém o sonho ser engenheiro mecânico.
A família Drake, com Grace, uma “louca”, “numa forma inofensiva e engraçada” mas simultaneamente “desvairada”, divorciada de Curtis, quase sempre ausente, e “divorciada da realidade”, sempre à beira da histeria e os seus dois filhos, a bonita, introvertida e incipiente Rachel e Phil, um rapaz inteligente, discreto e melancólico, internato num colégio interno, vítima de “bullyng”, mas que enfrenta admiravelmente a realidade e a adversidade da vida.
E é, primeiro, com um acontecimento fortuito – o carro de Charles tem uma avaria nas proximidades da casa dos Drake e, depois, com o casamento de Evan com Rachel - que Yates interliga primorosamente as duas famílias, numa narrativa impregnada de tristeza, que nos relata as fraquezas humanas, feitas de decepções e de sonhos desfeitos, da infelicidade e do remorso, com diálogos intimistas que retratam admiravelmente a solidão; num registo por vezes irónico, condescendente para com os homens frouxos, mas afáveis, e desculpabilizando a fraqueza das mulheres, que mais não querem do que fugir a vidas rotineiras.
“Perto da Felicidade” é o nono e último livro que Richard Yates escreveu, num registo sincero e emocional sobre o remorso, a mágoa e as fraquezas humanas - “O amor pode não ser tudo no mundo, mas…”.