Seara de Vento é um romance neo-realista de Manuel da Fonseca publicado em 1958.
Neste livro retrata-se a vida da família Palma, uma família simples e tradicional portuguesa, que habita num pequeno vilarejo onde a força das oligarquias (a GNR e as famílias ricas) oprime terrivelmente os camponeses e subverte as relações familiares.
Na contracapa:
«A poesia é, co efeito, a porta central do teatro; e Manuel Fonseca um Berthold Brecht que se ignora como tal. Seara de Vento é uma tragédia belíssima, que exorbita da novelística e da dramaturgia clássicas, para reclamar a tela das obras-primas do cinema - ou o palco giratório.» Mário Sacramento
MANUEL DA FONSECA nasceu em Santiago do Cacém, a 15 de Outubro de 1911. Tendo feito estudos secundários em Lisboa, deixou colaboração dispersa em revistas literárias (designadamente na Atlântico) e fez parte do grupo do "Novo Cancioneiro", com a publicação de Planície (1941). Poeta e ficcionista, estreou-se com o volume de poemas Rosa dos Ventos (1940), e os livros de contos Aldeia Nova (1942) e O Fogo e as Cinzas (1942). Entre os seus romances avultam Cerromaior (1943) e Seara do Vento (1958). Integrado de início na corrente neo-realista, enveredou depois por um regionalismo expresso simbolicamente através da vegetação castigada e das pessoas sem fortuna nem esperança. Foi condecorado pela Presidência da República com a Comenda da Ordem de Sant’Iago da Espada, em 1983. Faleceu em Lisboa, a 11 de Março de 1993.
Português Este romance é um grito contra a fome e a opressão no nosso país durante a primeira metade do século XX. Tudo o que a família Palma enfrenta ao longo da narrativa é profundamente perturbador — uma sucessão de injustiças que nos deixa sem fôlego. Descobri, com espanto, que a obra foi inspirada num acontecimento real. Mas, fosse ou não baseada em factos verídicos, a verdade é que a vida rural em Portugal, naquela altura, foi marcada por uma desolação brutal.
Senti uma tristeza imensa ao ler este livro — uma tristeza que não se explica, apenas se sente.
E quando Amanda Carrusca diz, com a força da sua dor e da sua lucidez, “Um homem só não vale nada!”, dando razão à sua neta, percebi que poucas frases carregam um peso tão devastador. Nunca uma verdade me pareceu tão crua, tão urgente, tão humana.
English This novel is a cry against hunger and oppression in our country during the first half of the 20th century. Everything the Palma family endures throughout the narrative is deeply disturbing — a succession of injustices that leaves us breathless. I was astonished to discover that the story was inspired by a real event. But whether or not it is based on true facts, the truth is that rural life in Portugal at that time was marked by brutal desolation.
I felt an immense sadness while reading this book — a sadness that cannot be explained, only felt.
And when Amanda Carrusca says, with the strength of her pain and her clarity, “A man alone is worth nothing!”, agreeing with her granddaughter, I realized that few phrases carry such a devastating weight. Never has a truth seemed so raw, so urgent, so human.
Nenhuma imagem de capa, de entre aquelas que conheço, consegue reflectir a densidade e o negrume deste texto. Li-o depois de ver Raiva, filme de Sérgio Tréfaut que adapta livremente o livro de Manuel da Fonseca e se, ao início, o filme ocupava todo o meu espaço de representação mental, um e outro começaram lentamente a mesclar-se. Não obstante, imaginei o resto do livro naquele sublime preto-e-branco a lembrar O cavalo de Turim, de Béla Tarr. Libertei-me com isso do exercício de comparar o que tinha passado para o grande ecrã com o que ficara no texto. São corpos independentes, claro está, e talvez Raiva fosse até um melhor título para o livro. A exploração que fazem das personagens e dos ambientes é praticamente a mesma e as questões que levantam também. A dada altura apenas notei que o livro me fazia sentir de forma mais aguda a sensação de perda e de desesperança em que Palma (representado no filme por um serpense a quem tiro o chapéu, Hugo Bentes) se encerra. Mas deixemos o filme, que me parece bastante bom (mesmo se a crítica o penalizou por certos planos mais desgarrados), e um momento alto da cinematografia recente sobre o Alentejo e não só. Esta é a história de muita gente pobre, apesar do trabalho que lhes ocupava a maior parte dos dias, e que suportou o conluio de ricos e autoridades civis para os manter quedos e calados. É inevitavelmente a história de gentes da minha família, pese embora as diferenças no lado mais extremo deste caso, onde a raiva de tantos irrompe no seio de uma família a quem o acaso e maldade de alguns levaram à miséria. Não há aqui um Alentejo imaginado, idílico, que muitos acreditam existir ainda hoje. Também não é um rol de lamentações ou uma apologia das agruras desta terra. É, sim, a denúncia das desigualdades e do abuso de uma forma mesquinha de ser, de uma certa mentalidade que vigorou até pelo menos 1974 e que alguns querem ainda hoje fazer ressurgir. Para quem pense que um romance passado por estas bandas tem sempre de descrever belas e acolhedoras paisagens, homens cantando no trabalho e mulheres ceifando, bem se pode enganar. Seara de Vento não é nada disso. É um romance perfeito.
História triste, mas baseada em factos verídicos. Quem tenha algum conhecimento prévio acerca dos acontecimentos históricos dos meados do século XX em Portugal será capaz de entender o drama de que trata este romance. A luta de classes no interior português criava situações que as autoridades da ditadura tentavam controlar usando a força, privilegiando os mais ricos e não os mais pobres. Além do valor histórico, óbvio, a precisão das descrições da acção e personagens deixa os leitores imbuídos destes sentimentos de frustração, impotência e desgraça eminente que a família protagonista tem de enfrentar. É uma leitura emocional, que nos devasta, escrita com uma mestria e assertividade que deveriam ser valorizadas pelas gerações mais novas de escritores portugueses.
Destaca-se, nesta edição, o posfácio muito útil para entender todo o enredo, propósito e contexto sócio-cultural do livro.
Gostei do livro. No entanto, acho que lhe falta algum "suspense" para eu considerar um grande livro, falta um bocadinho de pensarmos "e agora que acontece!!!"... Mas acho que é um bom livro representativo da realidade de Portugal dos anos 30, da ligação entre ricos e a polícia, da tristeza infinita do que é ser pobre, das pessoas, das esperanças que podiam ter na vida... Acho muito interessante o posfácio escrito pelo autor, consegue insirir-nos melhor na época do romance...
Há autores que parecem ter o condão de fazer um filme na cabeça dos seus leitores. Pegam em palavras, dão-lhe um ritmo, criam imagens, e a partir daí começamos a ver tudo, a sentir o cheiro, a tremer com o frio, a suar com a raiva, a tentar gerir tanta injustiça...
"Seara de Vento" retrata o Alentejo dos anos 50. Pobre e miserável para a maior parte dos seus habitantes. Rentável e manipulável para uma minoria de latifundiários. Mas desengane-se quem pense que é um livro de cariz político, apesar de ajudar, e de que maneira, a explicar o porquê de o comunismo ter tanto impacto nesta região. É acima de tudo uma novela, uma narrativa tremendamente bem escrita, que daria uma peça de teatro ou um filme fabulosos, caso existisse em Portugal essa capacidade de "dar vida" aos nossos autores. À nossa história.
Naturalmente que só poderia atribuir 5 estrelas. Isto é literatura ao melhor nível. Boa em qualquer lugar do mundo. E só posso acabar como iniciei: magistral.
A escrita deste livro surpreendeu-me. Lê-lo é quase como ver o que nos é contado. A paisagem, a ventania, o forno derruído, as personagens. Avançamos pela história como se estivéssemos a seguir as indicações do encenador: Estão ambas junto da lareira apagada, sentadas nos mochos, sumidas nos vestidos pretos. Em redor, sombras espessas diluem as paredes e os recantos numa só mancha circular. Apenas as cantarias da lareira, batidas pela luz que vem da porta, se salientam aprumadas A história que nos é contada é baseada num caso verídico, passado no Alentejo, numa pequena vila próxima de Beja, nos anos 30 do século passado, embora o autor diga no final que se trata de ficção (porventura terá sido esta declaração final do autor que evitou que o livro tivesse sido censurado quando foi publicado pela primeira vez em 1958).O Palma, que vive com a mulher, a sogra e os dois filhos mais novos, um dos quais autista, é acusado de roubar sacas de cevada e por isso não consegue arranjar trabalho. Desesperado, começa por tentar caçar (inolvidável a luta com o pastor e com a águia pelo corpo do coelho) e depois aceita começar a contrabandear. O desespero que ele sente é-nos transmitido também pela imagem do forno que caiu, pelo balancear e chamamento do filho autista e pela sempre presente ventania. Sentimos a todo o momento que se vai dar uma tragédia cujos contornos ignoramos mas que antecipamos logo às primeiras páginas. Quando acabei de o ler percebi que um livro extraordinário não precisa de seguir regras nem truques para ser lido. Não é preciso uma reviravolta na história para reter a atenção do leitor se o livro for bom. Da mesma maneira que não é preciso escrever na capa e na contracapa que se trata do melhor livro do ano. Uma palavra também para a elegância da edição e beleza da capa que é do Vespeira. https://leiturasemclube.blogspot.com/
Os ricos proprietários capitalistas são todos uns filhos da mãe e os trabalhadores são todos uns pobres coitados?
Pois, é esta a mensagem que retiramos do livro “Seara de Vento”. Escrito na época da ditadura, é natural que tenha uma forte carga ideológica. O problema é quando a ideologia transforma uma história com potencial para ser algo muito interessante num “catecismo” com personagens que são autênticas caricaturas.
Há outras formas mais eficazes de denunciar injustiças utilizando a literatura.
Considero "o livro da minha vida". Não o digo no sentido de conter a minha história pessoal, mas sim porque está repleto de Alentejo e Resistência. Este livro é absolutamente cativante, do início ao fim! Na história está a crueza da vida do povo alentejano, durante os anos sombrios, violentos, amargos da ditadura. E Manuel da Fonseca consegue contá-la como ninguém! Para quem considera o neo-realismo um movimento literário menor, aqui está uma obra que o contradiz. Não se trata de literatura panfletária. É Literatura Libertadora! A maestria do escritor de Cerromaior está aqui plasmada em todo o seu esplendor. Só um exímio contador de histórias poderia escrever assim.
Este livro é um pouco confuso. Retrata no início os dilemas de uma família tradicional portuguesa. O chefe da família parece estar envolvido no contrabando. Mas depois o cenário muda para um estado de opressão ... Membros dessa família são presos, mortes e uma mulher acaba por se atentar contra a sua vida.
Só através do posfácio se consegue entender que retrata o período do Estado Novo. E que a história é inspirada em testemunhos verdadeiros. Apesar de todo, e pelo final me ter conquistado, é de louvar a atitude do escritor por tentar dar vida e mostrar a resistência dessas pessoas humildes.
Romance soberbo baseado numa história verídica ocorrida em 1932 próximo de Beja. A fome negra dos pobres, assim mantidos com a ajuda da polícia e "alimentada" pela igreja e pela comunicação social. Esta inevitabilidade foi rompida momentaneamente nesse episódio trágico de 1932 quando um trabalhador rural se revolta de forma violenta contra quem tinha semeado os ventos e que depois colheram a tempestade.
Romance baseado em factos reais. A tristeza e desespero reinantes num Alentejo de gente sofrida e à mercê dos lavradores. O vento que fustiga, parecendo acompanhar uma Justiça que não existe. O cismar dos alentejanos tem raízes profundas e muita razão de ser e, falo por mim que já nasci em Lisboa, é hereditário.
"Dobroć, religia...to piękne. Byłoby jeszcze ładniejsze, gdyby ludzie, co te słowa mają na języku, według nich postępowali"
✨️Lekturka time✨️ Całkiem mi się podobało. Ta książka opowiada o rejonach Alentejo, o ludziach żyjących w skrajnej biedzie, ledwo wiążących koniec z końcem i żyjących w cieniu bogatszych, którzy mają ich za nic i jeszcze w dodatku przykładają rękę do pogorszenia sytuacji. Mamy tutaj nawet motyw konfliktu pokoleń i przemian społecznych, widać więc, że książka, choć niełatwa, odgrywa ważną rolę w historii Portugalii. Jedyny minus to taki, że myślałam, że bedzie bardziej egzystencjalnie i filozoficznie, a nie do końca tak było (spodziewałam się po prostu czegoś innego)
“Seara de Vento” é daquelas obras que nos fazem sentir um calafrio. não por ter uma qualidade literária fora do normal - aliás, nem Manuel da Fonseca é um escritor extraordinário (está mais ao nível de ser um bom escritor, capaz, onde também coloco Cardoso Pires, Soeiro Pereira Gomes, ou Carlos de Oliveira) -, mas mais pela força e crueldade que a sua história transmite ao leitor. em suma, trata-se da desventura ou tragédia de um trabalhador rural alentejano dos anos 50, marginalizado pelo cacique local, dono das terras onde há trabalho, e portanto forçado ao desemprego, ao crime e à miséria.
um retrato vivo da desigualdade social profunda, num estilo tipicamente neo-realista (cuja inspiração comunista do escritor se faz notar) que faz de cada personagem o espelho de uma personalidade tipo da realidade histórica que Manuel da Fonseca decide manobrar. é mais por isto que não posso deixar de o destacar nas minhas estantes. (5/5)