A minha sensibilidade estética (se assim se lhe pode chamar) nunca concordou com a obra de Van Gogh - para não mencionar que a reação fisiológica ao seu uso de cores complementares me deixa doente -, e não será por batalhar numa educação no realismo/ expressionismo/ surrealismo (como se isto do gosto individual fosse algum defeito) que passarei a admirar uma arte que vai contra tudo aquilo que aprecio. No entanto, parti para esta leitura com alguma expectativa de, ao menos, entender o homem por detrás da obra. Não esperava mudar de opinião, mas esperava mudar de entendimento. Se isso se verificou é coisa que julgo (mas duvido) ainda vir a amadurecer com o tempo...
Claro que a "loucura" de Van Gogh é infame e qualquer pessoa, ainda que nunca tenha empregado tempo a olhar para um quadro, já ouviu contar a história da orelha até à exaustão. Mesmo assim, este é o derradeiro momento que alimenta rios e rios de tinta (cada vez mais), pelo que não é de estranhar que Martin Gayford, uma sumidade no reino da (história da) arte, lhe tenha também pegado.
E como Gayford não é um biógrafo, per si, mas um historiador/crítico de arte, neste livro a vida de Van Gogh é particularmente relevante para entender a obra, e foi esse ponto de vista que me interessou imediatamente. No entanto, e embora até certo ponto cumpra com a premissa, o tom académico a par da novelização/romantização em que o autor empreende não funcionam em conjunto. Além disso, há várias inconsistências neste trabalho (nomeadamente com a legendagem, as notas etc), um uso absurdo de imagens a preto e branco, e sem qualquer definição, para dar a conhecer dois pintores cuja marca é a cor, e uma perigosa incursão do autor nos meandros da medicina - defendendo um diagnóstico em detrimento de outro, como um especialista.
À parte tudo isto, a combinação Van Gogh/Gauguin só veio piorar as coisas e oferecer um contexto de bordel, álcool e alucinação que explicam demasiado bem duas carreiras feitas em estreita cumplicidade.
Porque a realidade é que tratamos aqui de dois homens decadentes, beberrōes, imaturos, belicosos e obcecados com prostitutas (galante e literalmente compradas a porcos - como as restantes mulheres); dois artistas moldados por um tempo em que a dicotomia mulher virgem (esposa) /prostituta (amante) eram binóminos perfeitamente naturais; quando explorar o homem trabalhador se começava a tornar uma afronta à dignidade humana, mas explorar as mulheres fazia parte do dia a dia. Verdade seja dita que Van Gogh é dos dois artistas/homens o mais humano, mas nem isso o salva de uma fixação perfeitamente aviltante perante os prostíbulos de que se serve como método higiénico(!).
Ok, e então se são opções de vida questionáveis? Como afetam tudo o resto?
É aqui que tendo a resvalar para a doutrinação , ainda que sem querer, já que, a partir do momento em que se plasmam numa obra, todos os elementos de um percurso particular são de peso. Sobretudo quando se defende uma história da arte holística, a qual obriga a uma leitura das obras à luz de contextos de vida pessoal e social indissociáveis do valor final de qualquer trabalho.
E foi aqui, uma vez mais, que A Casa Amarela me trouxe: continuo a não gostar da obra, e agora também não gosto das criaturas que foram Vincent Van Gogh e o seu amigo Paul Gauguin, e não gosto da pessoa evangelizadora que saiu desta leitura. Claro que aprendi que me fartei sobre todas as correlações entre meio, personalidade, eventos e arte produzida por estes dois homens, mas foi outro dos casos em que tanto revirei os olhos que corri o franco risco de ficar estrábica.