2,5*
É curioso que esta obra se chame "Identidade", porque me parece haver, acima de tudo, uma perda de identidade do autor que, ao escrever em francês e ao adoptar um estilo oh là là, deixou de ser o Milan Kundera que reconheço e aprecio. Este pot pourri, por sinal, bastante mais pourri do que o habitual, é também feito de sonhos, mecanismo narrativo que abomino, e orgias em que as pessoas se transformam em animais. Freud explica. Não, deve ser Lacan, para continuar no espírito da baguete.
Também nesta obra surgem interrogações pertinentes que advêm dos actos mais rotineiros e Kundera continua a explorar ideias filosóficas aplicadas a situações mundanas, mas a relação do casal que protagoniza “Identidade” é superficial e absurda.
Chantal está na idade dos afrontamentos e, um dia, queixa-se ao companheiro, quatro anos mais novo (atente-se no pormenor porque é aparentemente importante: a mulher é QUA-TRO anos mais velha, praticamente uma predadora) que os homens já não olham para ela quando passa na rua. Ele, piedoso, para lhe aumentar a auto-estima, escreve-lhe cartas anónimas onde diz coisas como: “Observo-te na rua. Vi-te a entrar no sítio tal. És muito atraente. A cor X fica-te muito bem.” Ela, então, fica muito envaidecida, a achar que todos com quem se cruza, incluindo um mendigo, podem ser o seu admirador secreto, enquanto o pseudo-Cyrano de Bergerac acaba por ter um ataque de ciúmes por a namorada não lhe contar o sucedido, estando decerto a planear ser-lhe infiel. Em primeiro lugar, Kundera tem um fraquinho por protagonistas ingénuas quase a raiar a burrice, mas costuma compensá-las com outros atributos. Segundo, sou só eu que me arrepiaria se me aparecessem cartas anónimas na caixa de correio de um homem sinistro que me observa e diz que quer fazer malandrices comigo? Sou a única que trataria de arranjar rapidamente uma botija de gás-pimenta? Não tenho um pingo de romantismo, eu sei, e por isso não poderei nunca protagonizar um romance.
“O tédio do meu avô exprimia-se através daquele som, daquele aaaaa infinito, porque sem aquele aaaaa o tempo tê-lo-ia esmagado, e o meu avô só podia brandir contra o tempo aquela única arma, aquele pobre aaaaa que nunca mais acabava.
- Queres dizer que estava a morrer e se entediava?
- É o que eu quero dizer.”