Empregarei a ler ou a estudar o tempo que muitos empregam a palrar.
Enquanto não vão sendo horas de mudar o ano, sempre se aproveita para ler qualquer coisinha. E eu quis acabar 2024 com o cheirinho doce e picante da polpa de madeira dos livros antigos (já não os fazem assim!). Edison foi o escolhido para esta vez. E, como noutras leituras de Enid Lamonte Meadowcroft (1952) nota-se a inevitável candura e sanitização típica da época, mas as recordações que me traz esta coleção - herdada em segunda geração - apagam quaisquer aspectos menos positivos que encontre na leitura.
A coleção de biografias (juvenis) lançada pela Civilização Editora nos anos 50 do século XX era, apesar das suas falhas, uma tentativa bastante competente de divulgação dos nomes ainda hoje mais repetidos às crianças nas áreas das artes e das ciências (ocidentais) como Mozart, Beethoven, Nightingale, Alcott, Da Vinci, Franklin etc., e uma forma, embora muito modesta, de divulgar história e algum conhecimento geral sobre temas que então estavam mais em voga (como TV e cinema e, claro, as versões gloriosas dos descobridores e dos descobrimentos europeus).
Aquilo que, para mim, esta coleção (a original apelida-se Signature Books) tem de melhor, é o facto (que hoje justifica o seu valor para os colecionadores) de publicar autores cuja obra se inicia e extingue exatamente aqui. Enid Lamonte Meadowcroft é um dos exemplos de escritora praticamente desconhecida (em Portugal nos nossos dias, história diferente contarão os norte americanos), cuja obra se limitou essencialmente à escrita de livrinhos biográficos (como este Edison) que procuravam interessar os mais jovens na história de pessoas famosas e seus feitos. Publicados pela Grosset & Dunlap nas décadas de 50/60, estes livrinhos são, já o disse noutra ocasião, uma janela para uma época e um espaço diferentes dos nossos, com regras, perspetivas e até vocabulário que já nos parece desarticulado da realidade que vivemos. E é normal que assim seja. É por isso que a leitura deste Edison tem um sabor especial.
O Al Edison de Enid Lamonte Meadowcroft é um miúdo esperto, irrequieto e desatinado que, mesmo sem pôr os pés na escola, está destinado a grandes feitos. Curioso por natureza, nada o detém:
- Talvez um dia te venham a nascer umas asas! - disse por sua vez Jim, com uma gargalhada. Quem sabe? Mas até lá, não penses em voar. Voar, sem asas, é impossível. - Estás enganado - tornou Al, sentando-se para coçar um pé que tinha sido mordido por um mosquito. Os balões também voam e não têm asas. Podem até transportar na nacela gente e animais. -E como é que eles se aguentam no ar sem cair? - perguntou Sam, interessado. - Estão cheios de um gás mais leve do que o ar, chamado hidrogénio - explicou Al. - Por isso pairam e... -Ouve cá! - exclamou Jim interrompendo-o. - Gostava que me dissesses como é que sabes tantas coisas, porque, afinal, tens só dez anos e não frequentas a escola. - Aprendo nos livros-respondeu Al.
Rato de biblioteca ousado, o rapaz avança rapidamente para experiências que, ainda hoje, deixariam qualquer mãe de cabelos em pé. Mas, como falamos aqui no grande Thomas Alva Edison, mãe que é mãe não impõe limites ao génio:
Mrs. Edison deixou cair a colher que tinha na mão e abriu precipitadamente a porta que conduzia à adega. - Al! - chamou ela, aflita. Estás aí? - Claro! - gritou Al, lá de baixo. - Acabo agora mesmo de fazer uma experiência e estou satisfeitíssimo com o resultado. Já sou capaz de fazer explodir hidrogénio por meio de electricidade! Seguiram-se uns momentos de silêncio. - Mãe! - continuou Al, lá de baixo. - Se eu tivesse a quantidade precisa de hidrogénio, podia fazer rebentar o mundo inteiro com uma simples faísca eléctrica. - Está bem-respondeu a mãe, mas espero que o não faças, pelo menos esta tarde. Arruma lá as tuas coisas e vem para cima.
E no meio de inúmeras experiências, de vários acidentes mais ou menos graves, lá vamos vendo Al tornar-se o grande inventor americano, o recordista das 1093 patentes, o homem sem o qual não teria acabado esta leitura quando o sol já se pôs, nem escrito esta review sem a ajuda de uma resma de papel:
(...)na véspera do Ano Novo, compareceram em Menlo Park mais de três mil pessoas para assistirem a uma exibição de luz eléctrica, feita por Mr. Edison. (...)A rua, que conduzia ao laboratório, estava toda iluminada. Multiplicavam-se as lâmpadas, nas janelas das casas de habitação e doutros edifícios, chegando a dar a impressão de que a noite se transformara em dia.(...) Juntaram-se no laboratório centenas de curiosos para verem uma lâmpada a arder debaixo de água; outra que se mantinha acesa havia dezassete dias; outra ainda, presa a uma corda, que podia ser agitada em todos os sentidos sem se apagar.
Claro que aqui não há grande menção à fragilidade física do jovem Thomas Edison - e mesmo a sua surdez é enfrentada com um estoicismo estonteante para um miúdo de 10/12 anos -, também não existe qualquer referências às dificuldades do seu casamento ou ao abandono dos filhos do primeiro casamento após as novas núpcias. Aquilo que há é um elencar das suas mais relevantes descobertas de forma entusiasta, do comboio elétrico, ao fonógrafo à lâmpada de filamento de carbono:
- Talvez se venha um dia a utilizar a electricidade nas grandes linhas de caminho de ferro - dizia um. E será verdade que Edison está em Nova Iorque construindo uma central eléctrica com poder para iluminar parte da cidade? perguntava outro. -É, sim-respondia um terceiro. - Já lá andam homens a trabalhar nas escavações que hão-de ser necessárias para a passagem dos cabos subterrâneos. Os moradores das casas vizinhas estão apavorados, com a ideia de que ele pegue fogo à cidade...
É sempre em termos muito elogiosos que Edison é descrito, mas também é muito factual toda a informação que Meadowcroft elenca. O tom é o típico da época, uma exaltação heróica e espiritual dos grandes nomes americanos, mas, mesmo assim, há uma qualquer aura especial nesta coleção. Talvez o facto de juntar artistas (escritores e ilustradores) como uma espécie de guilda de anos 50, talvez o facto de se posicionar numa época muito própria marcada pelo início da Guerra Fria (Truman Doctrine), pelas políticas anti-comunismo, pela Guerra do Vietname, pela corrida ao espaço, pela época dourada da televisão, pela ressurreição do cinema (e da animação) pós-Segunda Guerra Mundial, e pelos avanços científicos como a descoberta da vacina da poliomielite - que já não chegou a tempo de poupar Roosevelt. Seja por aquilo que for, gosto de pegar nestes livrinhos de vez em quando e esquecer que vivo numa época tão privilegiada e tão ingrata, onde nada nos falta, mas nada nos chega, onde desperdiçamos aquilo que faltou a tantos... De certa forma, esta coleção é a minha máquina do tempo segura e privada. Isto é, se não se quiserem juntar a mim.
- Então não tem lido os jornais, nem ligado a telefonia, Ma? Temos cá hoje as personalidades mais importantes de todo o país: o grande actor Will Rogers, que chegou esta manhã; Orville Wright, o homem dos aviões; o presidente Hoover... - O presidente?! - interrompeu Ma Henderson. - E que vem ele cá fazer? - O mesmo que os outros - respondeu Jake, mordiscando uma azeitona. - Vêm todos ao grande banquete, que Mr. Ford dá em honra do homem que inventou as lâmpadas eléctricas.