Antes de fugir para o Brasil, D. Maria I já se encontrava louca. Passava por períodos de frenesi e supunha que o seu próprio corpo estava oco. No Rio de Janeiro, imaginava que o Diabo se escondia no Pão de Açúcar. Como foi que a vida sexual de D. Afonso VI e os seus órgãos genitais acabaram escrutinados num tribunal que ambicionava demonstrar que o soberano era impotente, louco e incapaz de governar? Hoje é possível entender os bastidores das acções destes monarcas?
O Marquês de Pombal encontrar-se-ia tão obcecado com os jesuítas que só admitia conversas que os visassem. Entre os muitos que encarcerou e matou, conta-se o padre Malagrida. Qual dos dois era menos equilibrado? O iluminista que do beato fez herege para o queimar na fogueira ou o roupeta-preta que assumia a autoria de milagres e exorcismos? Um dia, Antero de Quental sentou-se num banco de um jardim público e deu dois tiros na cabeça. Porque foi que esse poeta-herói encerrou assim a sua vida? Fernando Pessoa revelou, desde cedo, uma grande preocupação com a sua própria sanidade mental, adoptando diferentes classificações psiquiátricas para si mesmo. Estaria louco ou apenas com medo?
A psicóloga clínica Joana Amaral Dias traça o retrato psicológico destas e de outras personagens tidas como loucas. Baseada numa investigação histórica cuidada e na leitura de escritos e registos biográficos e autobiográficos – cartas, diários, etc. -, a autora revela-nos a dor psiquíca destas figuras, bem como o seu respectivo diagnóstico clínico.
Porém Joana Amaral Dias vai mais longe e, nesta viagem aos universos mentais de portugueses célebres, questiona os rótulos com que estes foram marcados e os tratamentos a que foram sujeitos – da fogueira a sanguessugas, dos banhos gelados aos choques eléctricos, das tareias ao apedrejamento.
Uma reflexão original sobre a forma como ao longo dos tempos a sociedade encarou a doença mental e acerca das alianças que a Psiquiatria estabeleceu com o poder e a própria loucura.
JOANA AMARAL DIAS nasceu em Luanda, a 13 de Maio de 1973. Licenciou-se em Psicologia, ramo de Psicologia Clínica, pela Universidade de Coimbra, tendo igualmente concluído a componente teórica do Ramo de Psicossociologia das Organizações. Fez o Mestrado em Psicologia do Desenvolvimento, a Pós-Graduação em Terapia Familiar Sistémica e em Psicodrama (é sócia didata da Sociedade Portuguesa de Psicodrama) e foi bolseira da Fundação para a Ciência e Tecnologia e doutoranda pelo Chicago Center for Family Health/ University of Chicago e pela Universidade de Coimbra. Leccionou em diferentes universidades, colaborando com o Instituto Superior de Psicologia Aplicada desde 2004, designadamente nas disciplinas de Modelos de Desenvolvimento e Processos de Inclusão/Exclusão Social e de Minorias étnicas e culturais. Foi dirigente associativa, passou pelo Bloco de Esquerda e foi deputada à Assembleia da República (2002-2005), mandatária para a juventude da candidatura presidencial de Mário Soares (2006) e integrou movimentos como o AGIR o Juntos Podemos. Colabora assiduamente em jornais, revistas e televisão enquanto comentadora e analista política.
Had I been the translator of this book into English, I would pick as title this: "Quality Maniacs". It would fit, I guess.
This is a book written by a Portuguese clinical psychologist. A former deputy (MP) of the left-wing bloc party. The book is an in-depth study (a psychopathological and psychological analysis) of historical figures, most of the Portuguese have certainly already heard of. It’s about psycho-biography, involving historical research.
The particularity of the work is that it focuses on one sort of disturbances: “maniacs”. Well, here are my only reserves. Let's see some meanings of the word "maniac":
-maniac: 1. An insane person. 2. A person who has an excessive enthusiasm or desire for something: a sports maniac. 3. A person who acts in a wildly irresponsible way: maniacs on the highway.
-maniac: 1. a wild disorderly person 2. a person who has a great craving or enthusiasm for something, a football maniac 3. (Psychiatry) Psychiatry obsolete a person afflicted with mania
[From Late Latin maniacus belonging to madness, from Greek] [From Late Latin maniacus, maniacal, from Greek maniakos, from mani, madness]
But then, in the book, you've got a so great variety of disturbances that it's hard to qualify them all as "mania" or "maniac". You'll find two cases of schizophrenia (poets Angelo Lima and António Gancho), one suicidal case (philosopher Antero Quental),...and obsessive disorders and personality ones,...you name them. I finally found peace and closure on the meaning and the title: "ok, they were all maniacs with some talent, though...,in some instances, a LOT OF TALENT".
As the author writes in her preface, there’s always the risk of running into “pathologizing” each and every human behavior: the American DSM classification* is quite complete.
In fact, the author points out the book title was derived from a 18th century expression, from an encyclopedia journal (Jornal Enciclopédico).
My own view is that it’s a good attempt to shed another kind of light on History and the people that populate many textbooks. Analyzing their own psychology to better understand their own historical lives. In this sense, it’s a good book, worth reading. Next I will indicate some notes on several of the historical figures approached in the book.
King D. Afonso VI (1643-1683). He was diagnosed to be impotent….and therefore not fit to govern. And yet he was called the “Victorious” and ruled the nation for a while: from 13 to 18 years old. He died at 40 incarcerated and crying for God. He had difficulties controlling his impulses.
Marquis of Pombal (1699-1782). He was the grandson of a black woman. He was obsessed with the Jesuits…and was responsible for the killing of Italian-born priest (and prophet) Malagrida.
The book presents some photos and pictures. One is a painting of the Marquis and the city of Lisbon and the river Tagus, … on the background the ships leaving the city of Lisbon. There’s this cogitation about the meaning of the scene: is it related to his feat of expelling the Jesuits or referring the famous Marquis-reconstruction of Lisbon after the 1755 earthquake?
Queen Maria I(1734-1816); she had periods of frenzy…and self-perceptions of having a “hollow” body. She was already crazy before fleeing to Brazil.
Fernando Pessoa (1888-1935): the writer. The poet pondered frequently on his own mental sanity…and picked up several labels. He made several astrological studies about himself and other figures. It’s very interesting the description made in the book of Pessoa’s rendezvous with A. Crawley (an occultist, also known as The Great Beast...) in Lisbon. Pessoa was 42 years old.
Some more contemporary figures are approached like "fiery" filmmaker João César Monteiro (1939-1996), with personality issues…sometimes being violent even to friends.
And the Marquise Margarida Vitoria (1919-1996): also with personality disorders. One histrionic personality.
*The Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM) published by the American Psychiatric Association
Este livro é excelente. Comprei-o há dois anos porque me interessava o assunto - portugueses ilustres que viveram com psicopatologias. Alguns são muito famosos, como os poetas Fernando Pessoa e Antero de Quental, outros nem tanto: marquesa de Jacome Correia, que foi esposa de Vitorino Nemésio. Saber que tivemos um rei, D. Afonso VI, que era um psicopata foi um choque. Achei muito curiosa a coincidência de ser o mesmo rei que o historiador José Hermano Saraiva referiu num vídeo sobre Sintra no YouTube que eu vi há pouco que tinha sido trancado no Palácio Nacional de Sintra.
Joana Amaral Dias é conhecida dos portugueses pelas suas aparições em debates promovidos pela RTPN. Ex-deputada pelo Bloco de Esquerda, é licenciada em Psicologia no ramo de psicologia clínica, e mestre em psicologia clínica do desenvolvimento.
Neste livro propoe-se analisar a vida de algumas personagens portuguesas, nomeadamente algumas que pelo seu comportamento ficaram para a História como sendo excentricos ou mesmo loucos.
E o trabalho de Joana Amaral Dias é exemplar. Para além de abordar algumas dessas personagens (deduzo que haveria muito mais para analisar), a autora situa-nos nos plano histórico-social dando-nos uma aula de História que serve também para explicar os possíveis ou eventuais motivos desses comportamentos.
E faz desfilar figuras como o Rei D. Afonso VI, o Padre Malagrida, Marquês de Pombal, Rainha D. Maria I, Antero de Quental, Ângelo de Lima, António Gancho, Fernando Pessoa, Margarida Vitória e João César Monteiro. Baseando-se em referências escritas da época e, em vários casos, documentos escritos pelos próprios e até, nos casos mais contemporâneos, entrevistas de amigos, a autora traça um perfil dessa pessoa, analisando as possíveis causas dessas (supostas) loucuras, excentricidades ou formas de agir.
Pessoalmente o que mais me cativou foi a explanação do plano Histórico-Social. A autora vai buscar todos os pormenores na tentativa de construir um puzzle que explique comportamentos. Por exemplo, no caso do padre Malagrida e do Marquês de Pombal, dois contemporâneos que se odiavam, a autora analisa a infância e o percurso destes dois personagens. Aí desfilam a política, a situação social de Portugal, os interesses e toda uma conjuntura que moldou o carácter destes dois. Tudo somado explica as suas acções.
O capítulo sobre Fernando Pessoa - a razão pela qual comprei este livro - não desaponta. É delicioso. Extremamente bem pesquisado, com a medida certa de especulação, e com uma escrita fluida que torna a leitura non-stop. Recomendo para quem gosta de história e/ou de Fernando Pessoa.