A mulher que enfrentou Egas Moniz, Júlio de Matos e os sábios da época. Filha e herdeira do fundador do Diário de Notícias. Mulher do administrador do mesmo jornal, o escritor Alfredo da Cunha. Presa num manicómio por um «crime de amor». Os factos relevantes têm início em Novembro de 1918: era uma vez uma senhora muito rica que fugiu de casa, trocando o marido, escritor e poeta, por um amante. Tinha quarenta e oito anos, pertencia à melhor sociedade portuguesa. O homem por quem esta senhora se apaixonou, tinha praticamente metade da sua idade e fora seu motorista particular. Era herdeira do Diário de Notícias e a sua história chocou a sociedade da época.
- Full time writer since 2000. - Historiadora com o grau de Mestre. - Activista (direitos dos animais, ambientalista, direitos humanos) - 14 títulos publicados nos seguintes géneros: - Biografia; - Romance; - Contos; - Juvenil (young adults) com a Colecção 'O Mundo de André', quatro títulos, os quais integraram o Plano Nacional de Leitura). - Três livros traduzidos e editados em francês - Imperatriz Isabel de Portugal (tradução Laure Collet, edição Le Poisson Volant) Isabelle de Portugal, l'Impératrice , Le pouvoir au féminin au XVIème siècle http://www.amazon.fr/Isabelle-Portuga... Mozambique: Pour que ma mère se souvienne [Format Kindle] http://www.amazon.fr/Mozambique-Pour-...
Foi candidata presidencial às últimas eleições apoiada pelo PAN - Pessoas, Animais, Natureza, tendo cumprido a agenda de uma pré-campanha que terminou em Dezembro de 2015.
Magnífico! Gostei tanto de conhecer esta mulher incrível. Quanta fibra! Opinião de leitura a partir do minuto 7:55, no Cantinho Literário: https://youtu.be/09vFMnKZWNg?si=rjxSQ...
Para além do conhecimento da história em si, este livro fez-me empatizar de uma forma absolutamente dolorosa com Maria Adelaide Coelho da Cunha. Ao ler a sua história de vida, imagino o quão sofrida ela foi, mas ao mesmo tempo, repleta de força, resiliência e, acima de tudo, de amor. Foi por este amor que Maria Adelaide foi condenada a uma vida de louca sem o ser... Uma Mulher que nunca desistiu de ser feliz, apesar de todas as privações, críticas, injustiças, atrocidades, a que foi sujeita.
Maria Adelaide Coelho da Cunha é um nome e personalidade que após lermos este livro não esquecemos com facilidade. Se tal acontece, bem o podemos agradecer a Manuela Gonzaga - para mim a escritora portuguesa mais versátil e verosímil que já li. Tenho uma admiração profunda pela autora que se assoberbou ainda mais ao ler esta biografia tão magnificamente redigida. Há algo que posso destacar desde o início, principalmente para aqueles que resistem a ler biografias: Doida Não e Não! é fascinante de se ler e está escrito num estilo muito próximo do romance, tornando a leitura fácil e prazerosa. Cuidadosamente revisto, agora com uma estrutura ligeiramente diferente da edição anterior, estamos perante um livro que junta duas grandes mulheres - a retratada e a escritora - mostrando a quem quiser ler que enquanto houver espaço para desequilíbrio de géneros, haverá espaço para o absurdo e o inadmissível.
Imaginem-se, há cem anos atrás, numa família poderosa e donos de um pequeno império como o Diário de Notícias. Agora imaginem Maria Adelaide, mulher, herdeira desse império, casada com Alfredo da Cunha, que viria a comandar os negócios da família. A vida parece perfeita. Bailes, recitais de poesia, manifestações públicas de respeito e carinho, a imagem familiar idílica. O problema das aparências é que muito raramente correspondem à realidade vivida na privacidade do lar e Maria Adelaide cometeu a ousadia de fazer diferente e de virar costas ao que já não lhe dizia nada. Largou fortuna, conforto e segurança para perseguir um amor que a fazia sentir viva e lhe dava um novo fôlego. Era mais que sabido que Alfredo da Cunha tinha as suas amantes e ela só queria o divórcio para poder seguir com a sua vida. Resultado? Alfredo da Cunha conseguiu interná-la num manicómio e influenciar os grandes psiquiatras da altura a passarem-lhe um atestado de loucura. Confesso, esta foi uma parte que me custou muito ler, por todas as razões e mais alguma. Primeiro, porque nunca foi administrado qualquer tipo de tratamento a Maria Adelaide, reforçando que não havia qualquer problema com a sua psique; segundo, porque o meu respeito por algumas das maiores figures da psiquiatria nacional, e internacional, diminuiu consideravelmente. Não sou preconceituosa e detesto que associem uma ida a um psiquiatra ou a um psicoterapeuta como estando maluco, mas este tipo de atitudes naquela época só ajudaram a fomentar essa ideia.
Do outro lado desta história temos Manuel Claro, o ex-motorista de Maria Adelaide e por quem esta se apaixonou. Não sabemos muitos pormenores de como é que era a sua vida, mas sabemos que Manuel Claro esteve às portas da morte e que foi Maria Adelaide quem cuidou dele, às escondidas. Sabemos que quando Maria Adelaide foi internada, foi ele quem fez de tudo para a ajudar, arriscando a sua prisão, coisa que efectivamente aconteceu, sem uma acusação concreta e fundamentada. Esteve preso durante anos. Ela esteve presa durante anos. Aquece-me o coração saber que no fim ficaram juntos. Ferve-me o sangue ao lembrar que o próprio filho de Maria Adelaide foi um cobarde. Filho algum deveria ter apoiado uma atitude daquelas, por parte do pai, não tivesse também este algum tipo de interesse na reclusão da mãe. Maria Adelaide não queria fortunas, não queria protagonismo, queria apenas que a deixassem viver uma vida simples e pacata com um homem que a fazia sentir bem.
Poderia ficar aqui eternamente a falar sobre este livro. Sobre a forma como a imprensa escrita, nomeadamente através d'A Capital, já há cem anos atrás serviu para que Maria Adelaide se pudesse defender, ao mesmo tempo que era constantemente atacada pelo marido. Boa parte dos artigos e das cartas estão inseridos neste livro, mas no fim podem encontrar as referências para todos os arquivos que contém essas declarações. Estamos perante um trabalho de pesquisa notável, tudo elaborado ao pormenor com um rigor minucioso. Doida Não e Não! é um livro que merece ser livro e que merece que se reflicta sobre o mesmo. Este tipo de opressão e de violência psicológica é algo que ainda ocorre nos dias de hoje, mesmo que de forma mais ou menos camuflada. A nossa identidade só a nós pertence e ninguém tem o direito de limitar a nossa liberdade quando não estamos a fazer nada que prejudique terceiros. Maria Adelaide foi uma grande mulher, tal como o é Manuela Gonzaga. Uma parelha perfeita.
“Portugal, anos 20 do século XX. Dois opositores, marido e mulher, ambos letrados, ambos muitíssimo famosos, manifestamente inteligentes e reconhecidamente sensíveis, vão a esgrimir um contra o outro, nos respectivos jornais ao seu serviço, com a mais letal de todas as armas. A palavra.” Este parágrafo retirado do livro é um excelente resumo do que foi esta história, verídica, vivida a partir de 1918 por Maria Adelaide Coelho da Cunha, história esta que me era totalmente desconhecida.
A história de Maria Adelaide lembrou da sorte que tenho em ter nascido numa época de liberdade. Sou livre para amar quem quero, para trabalhar, estudar, conduzir. Livre para dizer sim e para dizer não. Maria Adelaide não teve esse direito, impedida de ser mulher e ma~e na sua plenitude, impedida de viver à sua maneira, mas ainda assim não baixou os braços, não desistiu de procurar e correr atrás da sua liberdade, das suas escolhas. Hoje a liberdade de escolha é tão natural que sinto que não se valoriza as amarras que já cortamos: somos livres de amar, de conduzir, vestir calças, votar, pedir o divórcio.. Somos livres (ainda que com algumas arestas por limar, ainda que por este mundo fora milhões de mulheres ainda não o sejam), mas aqui, onde estou eu sou livre e é com algum sofrimento que olho em redor e percebo que nem todas nós saibamos dar valor a liberdade. Ainda temos muito para evoluir, muitas amarras por cortas, muitas lutas por ganhar, mas ainda assim já estamos mais longe do que estava Maria Adelaide... Estamos longe e perto, por dentro das quatro paredes, ainda existem muitas Marias Adelaide. Não podemos deixar de lutar, por nós, e por todas as outras que têm menos que nós. Que a história desta mulher seja um exemplo, que nos dê força para seguir o nosso caminho.
Apesar de medir apenas um metro e meio, Maria Adelaide foi uma mulher destemida. De convicções fortes e espírito livre, decidiu escolher a felicidade mesmo que isso implicasse desafiar as convenções da época e enfrentar a própria família. A sua história de vida é surpreendente mas a forma como esta biografia foi construída deixou-me um pouco dividido.
A autora escolheu um formato narrativo que mistura trechos originais em terceira pessoa com passagens em discurso direto ou na primeira pessoa. O resultado? Um texto de ritmo irregular e algo confuso.
Exemplo: “Quanto às duas primeiras partes — levantamento da interdição e consequente doação de todos os seus bens ao filho —, Alfredo da Cunha declara que «exorbitavam» a sua alçada, tratando-se de uma decisão «mais para ser tomada pelo José do que propriamente por mim».”
Ou ainda: “Em 1923, no prefácio do livro Doida não e não!, Maria Adelaide justifica o aparecimento desta obra […] como a realização «do seu sonho não direi doirado porque do oiro já esqueci a côr, mas um sonho que nunca julguei ver tornado realidade».”
Pode ser uma questão de gosto pessoal, mas para mim esta mescla de vozes quebra o ritmo narrativo e dificulta a leitura. Contudo, não posso negar todo o trabalho de pesquisa feito pela autora. É surpreendentemente vasto. A forma como tudo foi transferido para o papel é que não foi do meu total agrado.
Ah, e uma curiosidade: será que o Palácio de São Vicente, em Lisboa, pode ser visitado? E o Hospital Conde de Ferreira, no Porto? Irei investigar…
Que história incrível, inesquecível. A obra que nos dá conta da força de uma pequena, mas corajosa mulher que nunca desiste de reaver o controlo da sua vida. Muito bem fundamentada, completada com relatos de quem com ela privou. Só não dou nota máxima porque por vezes me perdi um pouco cronologicamente. Amei!
Maria Adelaide Coelho da Cunha apresenta-se socialmente como filha do fundador do jornal Diário de Notícias, sendo a presumível herdeira do império criado em torno da publicação. Casada com Alfredo da Cunha, jornalista e escritor que se torna no administrador do jornal de família de Maria Adelaide, o casamento perfeito é vivido perante toda uma sociedade no início do século XX. Com classe, poder e sabedoria, Maria Adelaide e Alfredo da Cunha são o centro de inúmeros eventos sociais e culturais onde gostam de recebem no Palácio de São Vicente os amigos mais próximos e os conhecidos influentes que convém ter por perto nas lides sociais e políticas do país. Com grandes saraus de demonstração pública onde as letras e o teatro tomam lugar em representações bem formatadas para receberem e mostrarem grandeza perante os outros, o casal mostra ser coeso, apaixonado e um exemplo a seguir perante o modo de vida da época. Embora dada aos outros e mesmo perante a criadagem, Maria Adelaide sempre seguiu a linha que lhe estava pré-destinada, até ao dia em que se acabou por apaixonar pelo seu antigo motorista, Manuel Claro, uns bons anos mais novo. Deixando marido e filho para trás, esta senhora da alta sociedade não temeu a falta de liberdade da época, seguindo o caminho que o coração lhe indicou, perdendo a vida requintada e de luxos que sempre teve para aprender a ser uma cidadã comum que resolveu enfrentar uma mudança total a favor da sua vontade. Desaparecendo da vista de todos e deixando tudo para trás, levando consigo o pouco que conseguiu, sem luxos e dinheiro, Maria Adelaide seguiu os passos de Manuel Claro, cuidando e entrando num mundo que não era o seu. Do Palácio de São Vicente para primeiramente as ruelas de Lisboa, seguindo-se as passagens pelas aldeias do Norte, este exemplo de mulher sem medos para a época enfrentou a mudança, resistindo aos avanços de quem a quis contrariar, mas o castigo chegou. Pouco depois do seu desaparecimento familiar e social, Maria Adelaide é encontrada por Alfredo da Cunha, que através de buscas profissionais conseguiu encontrar a mãe do seu filho que para si não se encontrava no seu perfeito juízo. Com manobras de poder possíveis na altura, esta mulher foi internada no Conde Ferreira, no Porto, um manicómio onde entrou como louca. Louca por ter desistido de tudo e amar verdadeiramente um homem comum, sem ambições e com pouco para lhe dar em troca, a não ser um amor real que ultrapassou ao longo do tempo barreiras. O tempo passa, Maria Adelaide consegue nunca cair no pressuposto de enlouquecer e a vida vai seguindo com esta senhora presa numa casa de doidos e a sua paixão numa cadeia como autor de um rapto e violações que não aconteceram. A partir daqui começa uma luta de palavras onde as acusações são feitas diretamente através de publicações em jornais nacionais e locais com Alfredo da Cunha a fazer recurso do seu Diário de Notícias para mostrar a todos que a sua mulher está louca, através de artigos, crónicas e mesmo livros, como é o caso de Simplesmente Louca. Já Maria Adelaide usa outros serviços informativos nacionais como A Capital para mostrar que de louca pouco tem, sendo vitima de uma cabala montada para denegrir a sua imagem. Doida Não! foi o primeiro livro lançado da autoria desta suposta louca que não passa de uma guerreira exemplo para muitas outras e o filme começou com confrontos pela imprensa do antigo casal, onde também advogados, médicos pagos, onde se inserem Júlio de Matos e Egas Moniz, para alterarem os resultados dos processos e análises desta mulher e familiares começaram a mostrar o seu parecer publicamente através de crónicas e livros publicados dando conta das várias versões da história. A história de Maria Adelaide Coelho da Cunha é uma verdade que aconteceu entre nós há um século atrás e que mostra como na altura era difícil seguir contra os ideais estabelecidos para uma mulher. Hoje esta vida de luta pelo amor é um exemplo de liberdade e de batalha pessoal perante os preconceitos sociais, sendo um exemplo para muitas mulheres que em pleno século XXI ainda se deixam ficar perante vidas onde não se enquadram mas que por falta de meios ou mesmo por medo de represálias vão vivendo em situações onde a felicidade não existe e o medo por vezes é estampado em cada rosto. Vivemos atualmente numa sociedade onde predomina a liberdade, no entanto essa mesma liberdade ainda continua enclausurada para muitos que continuam a viver a sua história consoante a mesma é escrita pela mão de outros e não pela sua própria vontade. Maria Adelaide é um símbolo de força e demonstração da vontade, marcando uma época e dando vida a uma autêntica novela da vida real na altura, desfolhada na imprensa onde muita tinta correu em torno desta mulher que de louca pouco teve. Hoje fica a memória em vários trabalhos, entre eles este livro da autoria de Manuela Gonzaga, Doida Não e Não!, que através de pesquisa por documentos, cartas e conversas com alguns dos envolvidos e suas seguintes gerações sobre esta história, nasceu este registo bibliográfico contado em modo romance e documental ao mesmo tempo. Desde o primeiro momento em que coloquei os olhos pelas primeiras páginas de Doida Não e Não! que me senti preso a uma Maria Adelaide, que umas boas décadas mais tarde consegue manter a capacidade de conquistar o leitor perante a sua história de vida que em ponto algum coloquei em causa, ao contrário dos dados deixados e publicados da autoria de Alfredo da Cunha e seus companheiros de percurso que de tudo fizeram e inventaram para desacreditar esta mulher de armas. Um livro apaixonante onde se juntam os escritos da época com as palavras de Manuela Gonzaga e que me arrebatou do início ao fim, tendo mesmo sentido necessidade de acalmar a sua leitura para que não encontrasse tão rapidamente o final de vida de uma mulher exemplo para tantas outras. Acredito que quem pegar nesta história verídica que ficará rendido como eu fiquei para sempre preso a Maria Adelaide Coelho da Cunha, um exemplo de força para cada um criar o seu próprio caminho, mesmo quando todos parecem estar do outro lado.
Em primeiro lugar, este livro captou a minha atenção por ser da mesma autora de Xerazade - A Última Noite (um livro que quero muito ler pois tenho visto boas opiniões), depois pelo o título e por último pela sua sinopse.
Maria Adelaide Coelho da Cunha, filha e herdeira do fundador do jornal "Diário de Notícias", casada com o escritor e administrador do mesmo jornal, Alfredo da Cunha. Maria Adelaide é uma mulher rica, de sociedade e que está sempre presente em eventos culturais e sociais. Até que começa a mudar de atitudes e um dia, desaparece. Posteriormente, descobre-se que Maria Adelaide fugiu com o seu antigo motorista, que tem praticamente metade da sua idade. Marido e filho, acabam então por alegar que Maria Adelaide não está no seu perfeito juízo e acaba internada no manicómio, o Conde Ferreira, no Porto. Com as acusações e defesas de ambos a fazerem-se nos jornais, através do poder da palavra escrita. Gostei bastante do livro. A história de Maria Adelaide, que desconhecia, é extremamente interessante, quer pelo amor entre Maria Adelaide e Manuel Claro, mas principalmente pelos contornos que envolvem a alegada perturbação mental. É impressionante como era fácil internar uma pessoa num manicómio, sendo apenas necessário dois atestados médicos. Interessante também é Maria Adelaide tem sido diagnosticada por grandes alienistas, entre os quais Júlio de Matos e Egas Moniz. Um excelente trabalho de pesquisa por parte de Manuela Gonzaga, que se nota pela quantidade de notas de rodapé que encontramos no final de cada parte, que resultou num magnífico registo bibliográfico. De referir ainda a linguagem usada, a autora teve o cuidado de manter o tipo de escrita da época, o que no início nos pode causar um pouco de confusão pois parecem erros ortográficos. A história desta fantástica mulher, que desafiou os preconceitos sociais, que lutou pela sua liberdade, pela verdade é acima de tudo pelo amor. Gostaria de poder recomendar este livro a todos mas percebo que bibliografias não são do agrado de todos os leitores, por serem leituras mais descritivas. Mas é, sem dúvida, uma leitura bastante interessante.
Gostei muito de ler este livro. A história é extremamente interessante não apenas por si própria, mas também por tudo o que a rodeia. Maria Adelaide, senhora de sociedade, festas e tertúlias apaixona-se pelo motorista da casa e foge com ele.
O que terá levado uma senhora tão distinta e amada pelos seus a cometer tal acto, tão tresloucado e repreensível?
Numa sociedade em que o adultério era prática e consentido, desde que camuflado e mantidas as aparências, Maria Adelaide, uma mulher de aparência frágil, toma a destemida atitude de não manter uma relação adúltera, optando por fugir com o seu amante e pedir o divórcio a seu marido. No entanto, em vez de conseguir o divórcio, vê-se internada no Hospital Psiquiátrico de Conde Ferreira, como se estivesse louca.
Este livro é a história desta mulher e a sua luta pela verdade, pela liberdade e pelo amor.
É fantástica a forma como é descrito o Hospital Conde Ferreira, as práticas da medicina psiquiátrica da altura e toda a sociedade do início de século.
Um livro que recomendo sem reservas.
Prós: A escrita, que nos cativa desde logo e a história que mais do que a história de uma mulher é um retrato de uma sociedade.
Partindo de uma história verídica, o livro assemelha-se mais a um registo que a um romance. De facto, trata-se de dar a conhecer – ou relembrar – o percurso de Maria Adelaide e não de o romantizar. Para tal contribuiu sem dúvida a grande inserção de citações e excertos de documentos escritos pelos “participantes da trama”, inserção essa que ficou bem conseguida. No entanto, também a contextualização histórica se revelou fundamental: a compreensão dos acontecimentos da época, explicados e salientados ao longo das páginas deste livro, levam a que haja também uma melhor compreensão da história privada. A nível de estrutura, temos uma divisão de dez partes – cada uma sendo uma fase do “processo” –, não faltando as respectivas notas finais. Os capítulos curtos falham a nível da narração: notam-se as vírgulas mal colocadas e as gralhas, revelando a necessidade de uma revisão mais cuidada.
Um livro fantástico, de pesquisa sobre um escândo na sociedade portuguesa do início do século passado. A filha e herdeira do fundador do Diário de Notícias, ao fim de 20 e poucos anos de um casamento "aparentemente" feliz, apaixona-se pelo motorista, com quase metade da sua idade, e foge. Pouco tempo depois é presa num manicómio por um "crime de amor". Esta é a sua história. Adorei.
A great book, a research about a scandal in the portuguese society from the early 20th century. The daugther and heiress of the "Diario de Notícias" newspaper (portuguese) founder, after 30 years of an "apparently" happy marriage, flls in love with her driver, almost half her age, and runs away. Shortly after she is is held in a mental institution for a "crime of passion". This is her story. I loved it.
De um grande rigor histórico, documentado de forma precisa, este romance aborda a história de Maria Adelaide Cunha, filha e herdeira de Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias. Casada com o administrador deste jornal, Alfredo da Cunha, ela e o marido ocupavam um lugar de prestígio na sociedade da época, organizando grandes festas, onde Maria Adelaide, uma mulher de uma elegância exemplar, representava e declamava textos do marido. Nestas festas recebiam nomes notáveis da cultura do seu tempo, de entre os quais Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Eça de Queirós, Teófilo Braga e Antero de Quental. Viajavam juntos, com alguma frequência, para o estrangeiro e, mesmo, por Portugal, onde conheceu um pouco de todo o país, como Tomar, Coimbra, Penacova, Abrantes, Lousã, Pedras Salgadas, Oliveira de Azeméis, Entre-os-Rios, Viseu e Fundão. Apesar desta vida de azáfama e boémia, Maria Adelaide não era feliz e ressentia-se com as atitudes pouco delicadas do marido, homem seco e arrogante. Maria Adelaide acaba por se apaixonar pelo seu motorista, Manuel Cardoso Claro, que a admirava pela sua bondade, sempre cuidadosa e vigilante com o bem-estar dos seus serviçais, acabando, em 1919, por prescindir de toda a sua riqueza, palácio lisboeta, fortuna e vida social para fugir com ele para Santa Comba Dão, passando a ter uma vida modesta e simples, muito diferente da que tivera até então. Porém, o seu romance idílico não durou muito, pois Alfredo da Cunha cedo descobriu onde ela se encontrava e a foi buscar, com o filho e um agente da polícia de investigação. Onze dias depois da fuga, Maria Adelaide era internada pelo marido no Hospital Conde de Ferreira, no Porto. Era mais fácil dá-la como louca para justificar as suas atitudes perante a sociedade, do que aceitar as suas decisões, que constituíam um escândalo para a época. Maria Adelaide consegue, ainda, numa determinada ocasião, fugir do manicómio e recolher-se numa aldeia do concelho de Castro Daire, com Manuel Claro, onde foi muito bem tratada pela família deste. Mas também aí o marido a descobriu. Foi, então, no regresso ao Conde de Ferreira, que se viu encarcerada num quarto minúsculo, sem poder fazer rigorosamente nada e onde desejou, muitas vezes, a morte, que seria menos cruel do que a vida que arrastava naquele quarto, onde ficaria presa durante muito tempo. Quanto a Manuel Claro, fora preso por rapto. Alfredo da Cunha, o marido, facultou toda a documentação necessária para constar de um livro sem autoria, Infelizmente Louca, que contou com atestados dos médicos Júlio de Matos, Egas Moniz e Sobral Cid, bem como com vários depoimentos (alguns deles falsos) que instigariam no público uma onda de solidariedade para com o marido abandonado. Mas Maria Adelaide é uma mulher forte, que de doida tem muito pouco. São as suas convicções que não a deixam desistir. Terá ela conseguido libertar-se do cárcere a que foi sujeita pelo seu “crime de amor”? Até que ponto, na época, os manicómios não serviam para “calar” todos os que ousassem seguir padrões de comportamento considerados reprováveis nas famílias influentes da época? Uma história com história, fascinante e envolvente, que documenta a desigualdade de género, a coragem de uma mulher que segue as suas paixões e convicções, um exemplo de coragem, que não aceita o destino que lhe foi traçado pelo marido e que ergue a sua voz para dizer Não, Doida Não e Não!”.
No meu percurso de leitor assíduo e atento, devo confessar que não encontro em biografias um apelo particularmente sedutor. Passam-me pelas mãos de longe em longe, sempre por manifesto interesse em aprofundar o meu conhecimento sobre a vida dos biografados, mas fica-me, normalmente, um sabor a desilusão, ora porque a obra se embrenha em considerandos “técnicos” que a tornam fastidiosa e de difícil entendimento, ora porque se revela demasiado ligeira, a ficção a assomar aqui e ali, retirando-lhe a necessária credibilidade. Daí que comece, desde já, por tirar o chapéu a “Doida Não e Não!”, de Manuela Gonzaga, obra que se configura como honrosa excepção à particular regra da minha experiência pessoal, trilhando com rigor e determinação caminhos de risco e sabendo evitar os muitos escolhos que, seguramente, lhe foram surgindo pela frente. O que é uma virtude!
Não caindo em excessos de qualquer ordem, a autora oferece-nos uma narrativa intensa e rica de imagens, ao encontro de Maria Adelaide Coelho da Cunha, uma mulher “presa num manicómio por um crime de amor”, como se pode ler na própria capa do livro. O caso desta mulher da alta sociedade do início do século passado, que se vê legalmente privada de liberdade apenas por dar livre curso aos ditames do seu coração, configura um dos mais lamentáveis erros da história da justiça portuguesa, sobretudo porque assente em “doutos” pareceres médicos e confirmado por decreto. Mas ele é também a imagem dum País pequenino e mesquinho, que menorizava o papel da mulher na sociedade e fazia tábua-rasa dos seus direitos, um estigma que, desgraçadamente, vingou até aos dias de hoje.
Detalhando todo o intrincado processo, enquadrando os vários momentos nos espaços que lhes são devidos, pintando retratos de época de enorme riqueza e contextualizando de forma objectiva cada desenvolvimento – os momentos de clausura no Hospital do Conde de Ferreira são disto um bom exemplo -, Manuela Gonzaga oferece-nos uma narrativa intensa e absorvente, de grande rigor histórico, simultaneamente fascinante e aterradora pelo que encerra de maldade humana, arbitrariedade e prepotência, mas também de força e coragem numa luta desigual pelo direito ao reconhecimento e pela reposição da verdade e dignidade. Particularmente interessante é a estrutura formal da narrativa, afastando-se do eixo central sempre que importa particularizar, a ele regressando com a repetição do que ficara dito anteriormente, num “tomar o fio à meada” inteligente e que o leitor agradece. Um excelente livro e que é, ao mesmo tempo, um importante sinal de alerta numa sociedade que ainda vê a mulher como o “sexo fraco” e tem um problema não resolvido com questões como paridade e igualdade de género, discrepâncias salariais e precariedade e, voltando ao assunto do livro, com a forma discriminatória como a justiça portuguesa continua a olhar para a mulher em pleno século XXI.
Terminado o livro "Doida Não e Não" de Manuela Gonzaga. Uma leitura para ir sendo absorvida, fazendo umas pausas (às vezes até com um dia de intervalo). Apesar de haver momentos em que é difícil parar, há outros em que temos mesmo de "descansar". É um livro para refletir sobre a condição de se ser uma mulher e toda a emancipação feita até aos dias de hoje. Apesar de ainda estarmos numa sociedade machista, ao lermos o que se passou para trás, estamos num filme da Disney na atualidade (isto falando de Portugal). Ao "conhecer" Maria Adelaide Coelho da Cunha (filha do fundador do jornal Diário de Notícias) através das páginas deste livro, deparamo-nos com uma mulher extremamente inteligente, corajosa, determinada, revolucionária e sim, inspiradora! Uma verdadeira força da natureza, que fez história na história das mulheres na primeira metade do século XX! Ler tudo aquilo por que passou e ter continuado resiliente e inabalável não nos pode "passar ao lado". Um livro inquietante (é impossível não nos sentirmos revoltados, pelo menos nós mulheres), que nos tira completamente da zona de conforto e que, com certeza, fica connosco como um testemunho feminino inspirador.
Em Doida Não e Não! Manuela Gonzaga apresenta a biografia de Maria Adelaide Coelho da Cunha internada como louca num manicómio no Porto. Personagem da alta sociedade lisboeta, herdeira do fundador do Diário de Notícias, casada com um homem de letras, Alfredo da Cunha, Maria Adelaide decide aos 48 anos abandonar tudo (casa, fortuna e conforto) e todos (marido, filho, amigos, …) para fugir com o “chauffeur” da casa, um jovem de 26 anos. Esta história verídica, que ocorreu em 1918, destaca a inteligência e a luta feroz que esta mulher manteve contra a sua família e a sociedade conservadora e corrupta da época. Maria Adelaide numa luta desigual bateu-se por amor, pela liberdade e pela verdade, revelando uma forte lucidez. “ (…) afirmo-o convicta porque sendo certo que não estou, nem nunca estive doida, há-de provar-se. Leva cinco, dez, quinze anos? Leva-me o resto da vida? Leve o tempo que levar; há-de provar-se.”
Mesmo nos momentos de grande sofrimento, conseguiu manter vivo o seu espírito que lhe permitiu registar tudo a que foi sujeita durante o internamento e, mais tarde, travar por escrito, nos jornais, uma batalha violentíssima contra o seu “marido ferido violentamente nos sentimentos época e no orgulho, que congemina vingança (…) a comprar testemunhos e a pagar opiniões falsas e requintadamente más, a médicos que lhas facultam a troco de uns contos de réis”.
Recomendo vivamente a leitura desta biografia, autêntica história de amor que marcou a época e que fez correr muita tinta na imprensa, em livros publicados e até na realização de um filme (Solo de Violino, de Monique Rutler, 1992). Manuela Gonzaga desenvolveu um trabalho meticuloso e rigoroso, mantendo nas citações a escrita da época e fornecendo inúmeras fontes, prova de uma intensa pesquisa em documentos vários, cartas e testemunhos.
DOIDA NÃO E NÃO! * Review com Spoilers Este livro de Manuela Gonzaga conta a história de amor, que de crime nada tem, de Maria Adelaide Coelho da Cunha, uma senhora rica que fugiu de casa, trocando toda uma vida triste ao lado do seu marido, escritor e poeta, por um amante, precisamente o seu motorista. Mas o que nos conta e descreve ultrapassa tudo o que possam pensar. Maria Adelaide é presa num manicómio, com um diagnóstico de loucura, assinado pelos mais ilustres da época, Júlio de Matos, Egas Moniz. Era esta então a condição da Mulher em Portugal. Este foi o resultado de 2 anos de trabalho da escritora, onde traça a vida da Senhora de S.Vicente, "que nasceu nos jornais, era filha de um jornalista, mulher de outro, que quando todos os recursos foram-lhe negados, recorreu à mais poderosa de todas as armas, a palavra escrita."
"(...) nesta luta de vida ou de morte, em que para salvar o coração, é preciso esfacelá-lo primeiro, e em que, para conservar a vida, é necessário gastá-la pouco a pouco."
Maria Adelaide Coelho da Cunha é uma mulher real. Herdeira do Diário de Notícias, apaixonou-se pelo motorista da família, Manuel Cardoso Claro. Saiu de casa, fugiu à família, foi internada num manicómio e fugiu de lá duas vezes! Refugiou-se nos verdadeiros amigos e no jornal A Capital que lhe permitiu publicar as crónicas que davam conta do que passou e do que ia se passando! Depois de quatro anos e muitas privações, conseguiu unir-se ao seu amor Manuel Claro, com quem viveu até serem velhinhos! Nunca se casaram. O amor sempre vence! Doida, não e não é um trabalho de amor, escrito com o maior rigor e dedicação! Importa muito registar que os quatro anos de maior incidência do livro acontecem entre 1918 e 1922!
Ah, se valeu a pena ler!
"Portugal, anos 20 do século XX. Dois opositores, marido e mulher, ambos letrados, ambos muitíssimo famosos, manifestamente inteligentes, reconhecidamente sensíveis, vão a esgrimir um contra o outro noa respetivos jornais ao seu serviço, com a mais letal de todas as armas,l. A palavra. "
O livro apresenta claramente o retrato da sociedade portuguesa no início do séc XX. Uma história fascinante e envolvente que documenta claramente a desigualdade de género e a coragem de uma mulher que, apesar da opressão e da violência psicológica vivida, segue as suas paixões e convicções lutando pela verdade, pela liberdade e pelo amor.
Muito bom, mesmo!!! historia real de Maria Adelaide Coelho da Cunha. Filha de um dos fundadores do Diario de Noticias e mulher de um dos seus administradores. Cinco estrelas para esta historia veridica de amor do inicio do sec XX . recomendo vivamente.