Tenho mais críticas à edição do que ao conteúdo. Este aqui é um livro datado cuja leitura anacrônica pode ser perigosa. Muitas das colocações de Ellen White são pertinentes ao seu tempo e ao seu lugar, mas não contemplam a realidade do Brasil no séc XXI (e nem tinha como!). Um prefácio que promete um tratado atemporal de educação faz um grande desserviço ao leitor desavisado e desconhecedor do contexto no qual a autora vivia.
Agora falando do conteúdo. Ellen White tem posições que podem ser consideradas muito progressistas. A importância da educação física, o mal que esta educação "industrializada" traz, o envolvimento do professor com o aluno... Tem muita coisa boa aqui e ali. Mas, como de se esperar de um livro escrito há mais de um século, nenhuma dessas coisas é novidade.
De qualquer maneira, dificilmente é um livro que poderia ser usado para guiar a educação de uma maneira geral. Em diversas partes, parece mais um Tratado Teológico Adventista do Sétimo Dia do que um livro sobre educação. Por ter uma vivência de 22 anos na igreja Adventista do Sétimo Dia, posso afirmar que forçar o texto bíblico a se aplicar a tudo quanto é área é um erro. A gente acaba atentando contra o Estado Laico e contra a Liberdade Religiosa. Aqui não é os EUA do Século XIX. isso não pode ser admitido.
O maior valor do livro está em poder conhecer o zeitgeist da época e conhecer as ideias de Ellen White. Creio, porém, de que isso só seja interessante para adventistas do sétimo dia e pessoas interessadas nesta comunidade religiosa em especial. Apesar disso, uma leitura dogmática seria também extremamente perigosa — e, infelizmente, o cristianismo é dogmático pra caramba (o que o levou a corroborar historicamente com racismo, xenofobia, colonialismo, todos os tipos de discriminação contra a sexualidade das pessoas... é tenso). Mas, para quem gosta de invocar os escritos de uma das fundadoras desta denominação religiosa (quase um culto à personalidade), seria interessante a leitura. Fica bem claro o quanto não tem NADA A VER! E acho que (paradoxalmente) traria algum avanço para uma comunidade que insiste em ser tão retrógrada.
Para quem nada quer ter a ver com a IASD ou Cristianismo.. Dificilmente terá algum ganho com este livro aqui. Porém, tem um trecho que vale a pena ser reproduzido e lido por todo e qualquer cristão se vitimizando por causa das críticas.
"O fato de que o ensino das Escrituras não tem maior efeito sobre a juventude, é devido a que tantos pais e mestres professem crer na Palavra de Deus, enquanto sua vida nega o poder dela. As vezes os jovens são levados a sentir o poder da Palavra. Veem a preciosidade do amor de Cristo. Veem a beleza de Seu caráter, as possibilidades de uma vida dada a Seu serviço. Mas, em contraste, veem eles a vida dos que proessam reverenciar os preceitos de Deus."
É, ela foi muito feliz nesta colocação. O problema do cristianismo tá aí. Muito bonito discursos de Deus, Amor, Justiça e etc. Mas na prática a gente vê controle social biopolítico (num sentido violento mesmo) ao ditar o que é pecado, o que não é (e pecadores são "escória). E entao já vemos discurso de ódio. segregação, e.... Já chegamos na injustiça social, não é? É aqui que qualquer argumento bíblico para a Educação cai por terra. Na prática as pessoas "seguidoras" da bíblia são as que mais trazem males à sociedade.
Seria positivo que os cristãos prestassem atenção nisso. Em vez de se condoerem com "é o Diabo perseguindo o povo de Deus" ou sei lá o quê, ouvirem e enxergarem a dor das pessoas que sofrem, reconhecer sua parte neste processo, e mudar — mesmo (e talvez até principalmente) que a mudança os leve a um estilo de vida que a sociedade não reconheça mais como "cristão".