Considerado por Pessoa como “imperador da língua portuguesa”, ainda hoje é possível sentir a pujança e apreciar a fluidez da escrita daquele que se atreveu a conceber a História do Futuro, o Padre António Vieira. Homem multifacetado, ficou conhecido, sobretudo, pelos seus sermões, que galvanizaram o país, mobilizaram a sociedade civil e chegaram até a inquietar a Inquisição. A presente colectânea reúne dois dos mais famosos, o “Sermão de Santo António aos Peixes” e o “Sermão Pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal Contra as da Holanda”.
Cronologicamente, o “Sermão Pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal Contra as da Holanda” é o mais antigo, datando de 1640, oficiado na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, cidade de São Salvador da Bahia. Grito de revolta contra a invasão holandesa do Brasil, no contexto da guerra de independência da Holanda face à Coroa espanhola, à qual Portugal esteve ligado também, entre 1580 e 1640, o sermão surge como um incentivo à insurreição armada dos colonos brasileiros. O mote escolhido é o Salmo 43:24-25,27 (segundo a Bíblia Sagrada – Ave Maria):
“Acordai, Senhor! Porque dormis? Despertai! Não nos rejeiteis continuamente!
Porque ocultais a vossa face e esqueceis nossas misérias e opressões?
Levantai-vos em nosso socorro e livrai-nos, pela vossa misericórdia.”
Partindo de uma premissa arrojada, não já um apelo, mas antes um contínuo debate directo com Deus com vista à acérrima defesa da causa portuguesa, Vieira fundamenta a sua argumentação em quatro pontos principais. (1) Uma vitória holandesa levaria ao enaltecimento herético da falsa religião protestante perante a verdadeira religião cristã, a católica. (2) O desfavorecimento dos portugueses na luta pela posse do Brasil conduziria à entrega de mão beijada dos frutos do labor de verdadeiros crentes a heréticos, o que, mais uma vez, mancharia a glória divina. (3) O recurso à piedade divina para com os portugueses é um acto de preservação da verdadeira fé e dos santíssimos sacramentos católicos apostólicos romanos. (4) Os próprios pecados dos colonos brasileiros, dada a sua enorme dimensão, plenamente assumida por Vieira, só poderiam ser perdoados à luz da misericórdia de Deus, pois o perdão é um acto de enaltecimento do Seu próprio nome.
Catorze anos depois, após uma carreira diplomática bem-sucedida, na Holanda e na França, o Padre António Vieira retorna ao Brasil. Aí profere o “Sermão de Santo António aos Peixes”, na cidade de S. Luís do Maranhão, no dia 13 de Junho de 1654. Aguerrido defensor da causa jesuítica contra a exploração indígena, predominante nas roças de açúcar e tabaco da colónia, Vieira utiliza o sermão como arma de denúncia e moralização dos latifundiários esclavagistas. O mote adoptado para a prédica é a passagem do Evangelho de São Mateus 5:13 (segundo a Bíblia Sagrada – Ave Maria): “Vós sois o sal da terra”.
Aproveitando a festividade litúrgica em honra de Santo António, Vieira serve-se de um episódio da hagiografia do santo – o sermão dado aos peixes em Rimini, alienado que foi pelos heréticos da cidade – como pretexto metafórico para criticar abertamente o seu público-alvo. Primeiramente, tece o elogio dos peixes, particularizando-o através de quatro espécimes: o peixe de Tobias, uma referência bíblica, capaz de curar a cegueira e exorcizar os demónios; a rémora, epítome da fortaleza dos princípios e da vontade; o torpedo, associado à conversão dos heréticos; e o quatro-olhos, símbolo da prudência. Todavia, o âmago do sermão centra-se nas repreensões do binómio peixes/colonos esclavagistas que, segundo afirma António Vieira, se comem “uns aos outros” e, pior, “os grandes comem os pequenos” (VIEIRA, p. 23), visando a exploração do homem pelo homem e a voracidade dos latifundiários. Também aqui se serve de quatro peixes como veículo principal das suas críticas: os roncadores, personificação da soberba; os pegadores, parasitas por natureza, metáfora dos cortesãos oportunistas gravitando em torno do Vice-Rei do Brasil; os voadores, de ambição desmedida; e o polvo, representação da dissimulação. As suas últimas palavras são reservadas para criticar o roubo dos pertences dos náufragos, uma violação grosseira da piedade cristã, e negar a graça divina, usual no final de cada sermão, aos colonos pecadores.
Perpassa por toda a prosa do Padre António Vieira um brilho incandescente, bem fundado na fé inabalável em Cristo, que se serve de todos os meios da razão e da exegese bíblica, da qual era um profundo conhecedor, para a argumentar e difundir. Num período de intensas convulsões políticas e socioeconómicas como foi a Restauração da Independência, Vieira, o homem das causas humanitárias, Vieira, o incansável defensor dos interesses de Portugal no estrangeiro, Vieira, o profeta, é a personificação da exuberância e do dinamismo cultural do barroco. Seria esse cromatismo multidisciplinar, solidamente ancorado na fé, na razão e no humanismo, que tanto impressionaria homens como Pessoa, que, em 1931 se queixava já da deterioração dessas bases da civilização ocidental, no trecho “Quando nasceu a geração, a que pertenço, encontrou o mundo desprovido de apoios para quem tivesse cérebro, e ao mesmo tempo coração…”, do Livro do Desassossego (PESSOA, p. 191-192).
Referências
VIEIRA, Padre António (2008) – Sermões. Porto: QuidNovi. (Colecção 120 Anos JN – Grandes Autores Portugueses, n.º 4).
PESSOA, Fernando (2012) – Livro do Desassossego. Org. e Notas de Richard Zenith. 10.ª Ed. Porto: Assírio & Alvim.