Primeiro romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, escrito com 20 anos de idade, assumido como inocente pelo próprio. Primeiro romance e inocente, mas não leve. Longe, muito longe disso.
Lemos solidão, desespero, incompreensão, falta de comunicação e muito mais de vida real. Seguimos Pedro, o médico, o soldado, o morto, o ressuscitado, o pai, o filho, o marido, mas também Marta, a mãe de Rita. Rita. Paula. Alberto. Angola. Portugal. Guerra colonial.
Com escrita envolvente, mas irrequieta, fruto de tanta correria em personagens cruzadas, damos por nós a tentar perceber quem são elas, quem diz o quê no momento em que diz, porque o diz e quando o diz. Muitas vezes esperamos mais, aguardamos por um outro arco de narrativa, mas ele não chega. Noutras esperamos que tudo decorra com (a nossa) normalidade e terminamos com uma pomposa onomatopeia.
Rodrigo Guedes de Carvalho, o escritor, é isto... Agarra em nós, coloca-nos no centro do seu tabuleiro, dispõe as peças e, antes que possam fazer sentido, baralha-as connosco.
"...à medida que o barco se afastava e se perdia na preguiça do horizonte, ocorre-me que talvez sejamos só uma mulher, que talvez só um homem tenha partido, sou igual àquela velha que chora dentro do xaile, além, sou igual a esta criança que acena porque lhe disseram para acenar, para que a mãe se sinta um pouco acompanhada na sua dor. Só partiu um homem, penso eu, desconheço-lhe o nome, o rosto, as expressões, no cais só uma mulher chora baixinho, um homem foi-se quem saberá dizer para onde, quando voltará e com que histórias para contar, que aventuras impensáveis, voltará, não voltará, choremos entretanto, somos Portuguesas, habituadas a estas coisas, choremos que o homem foi ao mar, choremos e pode ser que ele volte, sorridente, bronzeado, com a rede cheia do peixe da saudade."
Nota: 4.0/5.0