Durante a leitura de uma obra marcada por grande distância temporal (sobretudo quando pensamos em uma modalidade artística cuja linguagem ainda estava em pleno desenvolvimento), é preciso reconhecer que esse contato não funciona se a obra for lida a partir de critérios contemporâneos. Seria anacrônico esperar, por exemplo, a mesma fluidez narrativa ou o mesmo grau de sofisticação na decupagem de página, no uso das angulações, na articulação entre texto e imagem ou no tratamento das tramas que caracterizam os quadrinhos produzidos hoje.
Dito isso, Arquivo de Casos Inexplicáveis, ou The Black Casebook, revela-se uma leitura bastante interessante. A edição reúne 12 histórias, das quais sete foram desenvolvidas por Bill Finger, um dos criadores originais do Batman, publicadas entre 1951 e 1964. O volume permite observar com clareza como a linguagem dos quadrinhos de super-heróis norte-americanos desse período difere da atual.
Há uma redundância frequente entre aquilo que é mostrado nos quadros e o que é verbalizado por personagens ou pelos recordatórios. O texto escrito cumpre, muitas vezes, um papel bastante explicativo, mesmo em situações nas quais a informação já é plenamente perceptível no plano visual. Soma-se a isso um tom mais aventuresco do que propriamente detetivesco, no caso do Batman, com enredos que por vezes soam ingênuos, ou mesmo pueris, quando comparados aos padrões narrativos contemporâneos.
Ainda assim, há histórias bastante instigantes. Algumas trabalham com elementos como alucinações ou crises psicológicas do morcegoso, inclusive em um período já marcado pela vigência do Comics Code Authority. E são justamente roteiros assinados por Bill Finger, o que afasta qualquer leitura que atribua tais desvios de tom a “deturpações” promovidas por equipes criativas posteriores ou externas ao núcleo original do personagem.
A leitura deste volume me deu vontade de reler as três primeiras encadernações da fase de Grant Morrison no Batman,que dialogam fortemente com muitos dos elementos dessas histórias reunidas em Arquivo de Casos Inexplicáveis, e também prosseguir na leitura dessa fase até o fim, algo que acabei não fazendo quando ela foi originalmente publicada, no final dos anos 2000.