Acho que esse é o melhor livro do Ailton Krenak até aqui.
Além de retomar ideias dos anteriores, ele fala da importância de nos conectarmos com os ancestrais e a natureza, e apresenta conceitos que desafiam nossa visão política dentro do capitalismo, como o de futuro ancestral: a ideia de olharmos para o passado buscando mudar o jeito como vivemos — e aqui não se fala de conservadorismo, mas de valorizar os povos originários que tinham e têm uma relação de harmonia com a terra. "Um povo como esse, mesmo quando expropriado de tudo e sem ter nem chão para pisar, ainda consegue recriar um lugar para ser habitado."
Ailton defende que há pluralidade no mundo e nas histórias que o formam. Impor uma narrativa única, assim como ideias fixas sobre o que é humanidade, nunca funcionou. Para ilustrar, traz o conceito de "florestania" como alternativa à "cidadania". É preciso ter atenção aos povos que vivem nas florestas e não precisam que ela seja invadida por estradas, concreto e barragens.
"Temos que reflorestar o nosso imaginário e, assim, quem sabe, a gente consiga se reaproximar de uma poética de urbanidade que devolva a potência da vida, em vez de ficarmos repetindo os gregos e os romanos."
Ele também é uma voz ativa que chama atenção para o reconhecimento dos rios e águas como seres vivos. Enquanto vermos como coisas, objetos, os rios continuarão sendo transformados em esgoto e depósito de dejetos. Em um momento, destaca as discussões acontecendo no Chile que vão nesse sentido.
"Temos que parar com essa fúria de meter asfalto e cimento em tudo. Nossos córregos estão sem respirar, porque uma mentalidade de catacumba, agravada com a política do marco sanitário, acha que tem que meter uma placa de concreto em cima de qualquer corregozinho, como se fosse uma vergonha ter água correndo ali."
Vale muito a leitura para pensar alternativas de vida na terra!
"Os orixás, assim como os ancestrais indígenas e de outras tradições, instituíram mundos onde a gente pudesse experimentar a vida, cantar e dançar, mas parece que a vontade do capital é empobrecer a existência."