Li deliciado e nostálgico “A religião dos livros – Alfarrabistas, livrarias e livreiros”, do Carlos Maria Bobone, que saúdo, e cheguei à conclusão de que é um opúsculo precioso num período de mudanças profundas neste mundo dos alfarrábios, do seu circuito e dos seus protagonistas.
Fui trabalhar para o Bairro Alto em 1996 e, tendo cedo apanhado o vício dos livros por via do meu Avô materno, não podia estar em melhor zona da capital. Entrei e conheci o mundo dos alfarrabistas, estreitei amizades duradouras nas buscas intermináveis por “aquele volume” ou na ansiedade “daquela biblioteca” que estava a entrar. Recordo também com saudade a tertúlia bibliófila, onde conheci livreiros e outros doentes dos livros como eu. Foi a idade de ouro numa vida em que, hoje mais do que nunca, o espaço não chega para os livros que continuam a chegar.
Senti-me, de facto, religado na leitura deste livro, que sintetiza muito bem um universo tão diverso como complexo, com os seus códigos e práticas, tão estranhos como intimidantes para os leigos nesta matéria. E, talvez por isso, tão fascinantes… Aqui encontrei locais que já não existem, pessoas que bem conheci e já não estão entre nós, mas também os que, como o Carlos Maria, continuam a tradição dos livros – isto é, a sua transmissão.
Este livro abre, sem dúvida, a porta a mais obras sobre este tema tão pouco tratado. Um deles espero que tenha as histórias de livreiros que o Carlos Maria aqui aflora. Reconheci algumas e sei bem como ultrapassam qualquer exercício de ficção literária.