"Açúcar Amargo" é uma obra impactante que me fez mergulhar profundamente nas complexidades da vida rural brasileira. Aborda temas como injustiça social, exploração do trabalho infantil e misoginia. A história se desenrola em uma pequena cidade do interior, onde acompanho Marta enfrentando as duras realidades da vida em um engenho de cana-de-açúcar e em casa.
Marta, a protagonista, tem apenas 13 ou 14 anos, sendo uma pré-adolescente. Mesmo assim, ela se destaca como a personagem mais corajosa e determinada da história. Nunca abaixando a cabeça, Marta demonstra uma coragem incrível ao fazer o que ninguém mais tinha coragem de fazer. Apesar de ser constantemente desmerecida por ser do sexo feminino, ela se mostra a mais forte de todos, enfrentando as adversidades com uma força impressionante.
O livro me trouxe uma enorme angústia ao ver as situações de opressão que Marta vivia. As injustiças que ela enfrentava diariamente eram de partir o coração e mostravam a dura realidade das mulheres e meninas viviam em casa. A ambientação é rica em detalhes, transportando o leitor para o cotidiano de uma menina de raizes humilde e expondo a realidade muitas vezes invisível para quem vive nas cidades.
A misoginia que Marta enfrenta é um dos aspectos mais marcantes e dolorosos da história. Ela é constantemente desvalorizada e humilhada por ser menina, tendo até mesmo uma cena de violência domestica do qual é vitima mas mesmo assim, se mantém firme e determinada. A força de Marta em meio a tanta discriminação é um exemplo inspirador de resistência e emancipação feminina.
Marta é muito mais piedosa do que eu, pois jamais perdoaria alguém por me tratar de maneira tão cruel e humilhante como seu pai a tratava. Sempre a diminuindo e impedindo-a de seguir seus sonhos, Marta teve que lutar por coisas básicas como estudar. É revoltante pensar que se espera que uma menina de treze anos cozinhe para o pai, além de limpar, passar e cozinhar, enquanto ele, um adulto, não assume suas próprias responsabilidades.
Muito mais que isso, Marta foi vítima de violência doméstica pelas mãos do próprio pai, Pedro. A violência doméstica contra meninas, especialmente perpetrada por seus próprios pais, é um assunto extremamente grave e perturbador. É uma traição chocante da confiança e do papel fundamental de proteção que os pais deveriam desempenhar na vida de suas filhas. A narrativa foi conivente com a violência que Pedro cometeu contra sua filha e não utilizou nenhuma ferramenta para conscientizar sobre essa realidade alarmante. Pelo contrário, a agressão de Pedro contra Marta é tratada como um "errinho de nada" e não como a violência grave que realmente foi. Este tipo de violência não apenas causa danos físicos imediatos, mas também tem um impacto profundo e duradouro no bem-estar emocional e psicológico das vítimas. A crueldade e injustiça dessa situação ampliam ainda mais a minha angústia ao ver Marta lutando em um mundo tão cruel e opressivo.
Outra coisa que me incomodou muito na narrativa foi ver uma menina de 13/14 anos sendo descrita como uma mulher. Ela não é uma mulher apenas porque menstruou. Meninas também têm direito à infância, pré-adolescência e adolescência sem serem forçadas a amadurecer mais cedo. Essa perspectiva ressalta ainda mais a injustiça e a pressão que Marta enfrenta, evidenciando a necessidade de proteger e respeitar o desenvolvimento natural das crianças.
Outro ponto que me marcou profundamente foi a morte de Altair. Sua vida foi marcada por inúmeras dificuldades, privações e a ausência de experiências positivas. Ele faleceu um dia antes de completar seu aniversário, sem nunca ter tido a oportunidade de celebrar. Essa perda me trouxe uma tristeza enorme, pois me mostrou como algumas pessoas enfrentam uma existência repleta de sofrimento e com pouca ou nenhuma alegria. Altair foi impedido por seu pai de concluir seus estudos, sendo compelido a suportar a exploração do trabalho infantil. Ele foi privado de qualquer oportunidade de desfrutar os frutos de seu trabalho ou de descansar após longas e árduas jornadas laborais uma realidade que perdurou desde a infância até sua morte.Altair vivia em um ciclo incessante de trabalho, sem jamais poder desfrutar de algo mais. Sua vida foi marcada por uma sucessão implacável de explorações. Essa condição cruel, ao meu ver, acrescenta uma camada adicional de injustiça à sua trágica história.
A linguagem que o livro utiliza é acessível, mas poderosa, para construir uma trama envolvente que prende o leitor do início ao fim. O livro não apenas entretém, mas também educa e provoca reflexões profundas sobre questões sociais, econômicas e de gênero.
Em resumo, "Açúcar Amargo" foi um livro muito prazeroso de ler. Lembro-me de tê-lo lido quando tinha cerca de 12/13 anos e não ter compreendido completamente a mensagem do livro. Foi uma experiência muito boa relê-lo e ter essa visão adulta sobre ele.