Que livro forte e necessário! Um livro que provavelmente gera um incômodo em certa elite privilegiada (inclusive a progressista!) que sempre se considerou superior aos seus empregados domésticos e, com muita frequência, os trata de maneira só ligeiramente mais humanizada que a um escravizado. Se Carolina Maria de Jesus usou a metáfora do "quarto de despejo" para falar de como a sociedade via as favelas, Eliana não hesita em usar outra analogia igualmente potente: a de que o "quartinho da empregada" pode ser visto como uma solitária. Lendo o livro, fica muito claro que isso não é exagero. Delimita-se um espaço para esses empregados a fim de que eles não se confundam com os proprietários, isto é, os "reis do castelo", como se houvesse algo de desonroso, hostil ou terrivelmente baixo no trabalho que fazem (e fazem, seja dito, para os próprios reis!).
O livro também mostra de maneira muito convincente como essa elite privilegiada, que é capaz de dispor de empregados (insisto, isso acontece também em famílias ditas progressistas!), alimenta uma relação de dependência e se considera especialmente caridosa quando é capaz de oferecer alguma coisa a esses que mantêm cativos em suas próprias casas. Definitivamente, não enxergam a menor desigualdade ou injustiça no tipo de tratamento que dispensam a empregadas e diaristas, parecendo achar que há lugar para cada um e que eles, naturalmente, estão no que é adequado.
Essas são reflexões mais gerais que me ocorriam enquanto lia a trama específica de uma mulher, Eunice, empregada de uma família rica, daquelas que precisavam dormir no trabalho, sua filha Mabel, cujo crescimento acompanhamos, e todo o pequeno universo de um condomínio de elite. São muitas violências simbólicas nesse ambiente, a começar pelo fato de que Eunice não tem com quem deixar a sua filha e precisa mantê-la no trabalho com ela, após as "bênçãos" da sua "patroa". Há ainda a violência doméstica, de um pai alcoólatra, mas nada começa ali, no vício, mas na carência e nas ausências que não são individuais, mas estruturais, marcas de uma sociedade desigual.
Enquanto isso, os donos do cativeiro vivem suas vidas cheias de vantagens, podendo usar o poder do dinheiro como bem entender, torcendo a justiça para aqui e para lá como for conveniente, e tudo ainda passando uma aura de respeitabilidade, capaz de enganar inclusive a eles mesmos. Nenhum deles acha que é uma má pessoa! E, no entanto, subjugam, oprimem, exploram, mentem, e fazem tudo isso simplesmente porque se consideraram merecedores naturais da posição que ocupam. No livro, essa gente é representada por dona Lúcia e seu Tiago, empregadores de Eunice, mas também por outros vizinhos de prédio, incluindo um ultrajante idoso com patentes do exército e uma mulher que conseguiu levar a perversão social ao paroxismo, ao manter uma escravizada.
Felizmente, há os focos de rebeldia e revolução, a começar pela própria Mabel, além dos irmãos João Pedro e Cacau, filhos do porteiro Jurandir - que representa uma possibilidade de resgate afetivo para Eunice, no meio da dura vida de violências a que é submetida cotidianamente. Esse núcleo é o que confronta os ricos do prédio, e será graças a eles que uma série de crimes e tragédias não será silenciada, como o dinheiro geralmente faz na nossa realidade.
A essa altura, claro está que gostei muito do livro, mas devo confessar que quase tive uma síncope quando a autora mudou de voz narrativa, isto é, foi de Mabel para Eunice, a certa altura do livro. Sei que isso acontece quase sempre na literatura contemporânea, mas sou da opinião de que, com muita frequência, isso prejudica a história. Eu odiaria saber que a autora estragou um livro que, àquela altura, eu já estava achando ótimo. Pois não estragou. A mudança de voz se deu com muita naturalidade, a agilidade da narrativa permaneceu e eu continuei achando a história excelente. Por fim, eu já aceitaria o que viesse, como os próprios quartos assumindo a voz narrativa.
Enfim, um livro que, para mim, deveria ser muito mais conhecido e celebrado. Tem uns livros aí que são tratados como se fossem a melhor coisa já produzida na literatura brasileira, mas não acho que estavam acima deste livro, de história e personagens marcantes e necessários.