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O pacto da branquitude

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Diante de dezenas de recusas em processos seletivos, Cida Bento identificou um padrão: por mais qualificada que fosse, ela nunca era a escolhida para as vagas. O mesmo ocorria com seus irmãos, que, como ela, também tinham ensino superior completo. Por outro lado, pessoas brancas com currículos equivalentes – quando não inferiores – eram contratadas.

Em suas pesquisas de mestrado e doutorado, a autora se dedicou a investigar esse modelo, que se repetia nas mais diversas esferas corporativas, e a desmistificar a falácia do discurso meritocrático. O que encontrou foi um acordo não verbalizado de autopreservação, que atende a interesses de determinados grupos e perpetua o poder de pessoas brancas. A esse fenômeno, Cida Bento deu o nome de "pacto narcísico da branquitude".

Neste livro, a cofundadora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert) reúne sua experiência para apresentar evidências desse acordo tácito e nos convidar a deslocar nosso olhar para aqueles que, a fim de se manter no centro, impelem todos os outros à margem.

152 pages, Paperback

First published March 21, 2022

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About the author

Maria Aparecida Silva Bento

7 books43 followers
Maria Aparecida da Silva Bento, ou CIDA BENTO, nasceu em São Paulo (SP). Doutora em psicologia, defendeu em 2002 a tese intitulada "Pactos narcísicos no racismo: branquitude e poder nas organizações empresariais e no poder público". É conselheira e uma das fundadoras do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert). Foi professora visitante na Universidade do Texas e, em 2015, foi eleita pela revista britânica The Economist uma das cinquenta pessoas mais influentes do mundo no campo da diversidade.

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Displaying 1 - 30 of 107 reviews
Profile Image for Alfredo.
470 reviews604 followers
February 20, 2023
Durante as aulas de história no meu ensino médio, uma pergunta surgiu: "qual país teria colonizado melhor o Brasil?" A resposta desejada era "Inglaterra", claro, assim seríamos mais parecidos com os Estados Unidos e falaríamos inglês. Talvez, quem sabe, a escravidão não teria sido tão forte e a dita democracia racial viria mais cedo.

Essa pergunta revela muitas coisas. Primeiro, o privilégio de quem a fala, que considera a colonização como algo essencial. Segundo, a falha do sistema educacional em mostrar os efeitos da colonização e escravidão que reverberam na nossa sociedade hoje — entre pessoas negras e indígenas, sim, mas também entre pessoas brancas, que se beneficiam imensamente desse legado.

Um dos grandes problemas disso, como Cida Bento argumenta em "O pacto da branquitude", é que a "falha", na verdade, é um objetivo desse sistema, construído para manter a lógica por trás das dinâmicas de poder. Aliás, é assim que o livro abre: com uma reflexão sobre as pessoas brancas não sentirem vergonha da escravidão, dos horrores cometidos por outras pessoas brancas, muito pelo contrário: sentem vergonha de pessoas negras descendentes de escravizados.

A partir dessa reflexão, o livro, em capítulos curtos, aborda os mecanismos de exclusão de pessoas negras no mercado de trabalho através do pacto que dá título à obra, e que, como explica a autora, é "um pacto de cumplicidade não verbalizado entre pessoas brancas, que visa manter seus privilégios". Ela continua: "É evidente que os brancos não promovem reuniões secretas às cinco da manhã para definir como vão manter seus privilégios e excluir os negros. Mas é como se assim fosse: as formas de exclusão e manutenção de privilégios nos mais diferentes tipos de instituições são similares e sistematicamente negadas ou silenciadas. Esse pacto da branquitude possui um componente narcísico, de autopreservação, como se o 'diferente' ameaçasse o 'normal', o 'universal'. Esse sentimento de ameaça e medo está na essência do preconceito, da representação que [e feita do outro e da forma como reagimos a ele."

Ao longo das próximas páginas, entendemos como os sistemas de seleção promovem o racismo, como as pessoas brancas se veem como "universais", como os processos "diversos" que focam apenas em categorias de gênero também são excludentes e como a estrutura racista se mantém.

Excelente leitura!
Profile Image for Adriana Scarpin.
1,737 reviews
May 29, 2023
Leitura rápida, mas intensa, sobre o pacto narcísico da branquitude, como está entranhado em nós uma subalternização dos corpos negros, como a branquitude se sente ameaçada em seus privilégios diante do povo negro empoderado. 2023 e ainda se encontram restrições na contratação de negros em empresas. Democracia racial meu ovo.

Profile Image for Conceição Puga.
148 reviews28 followers
October 18, 2024
"Em um ambiente em que todas as pessoas são brancas, elas se identificam umas com as outras e se veem como iguais, membros de um mesmo grupo. Essa presença exclusiva de brancos, aliás, faz parte da maioria das organizações públicas, privadas e da sociedade civil. Quando isto é rompido pela presença de uma pessoa negra, o grupo se sente ameaçado pelo 'diferente', que por ser na instituição ou no departamento a única pessoa negra, num país majoritariamente negro, expõe os pés de barro do 'sistema meritocrático'".
Profile Image for Pedro.
41 reviews2 followers
December 26, 2023
Os capítulos iniciais sobre o que é um pacto narcísico e toda a explicação de como a autora chegou a esse conceito pela psicanálise e pela teoria racial americana foi incrível. O que me decepcionou foram as partes seguintes que tratam do ambiente de trabalho. Um dos capítulos resume: políticas de diversidade e inclusão são necessárias em organizações privadas porque já se provou em pesquisas que isso dá melhores resultados para essas organizações através da convivência de diferentes pensamentos, além de serem uma trava para regimes autoritários. Essa argumentação faz sentido, mas senti falta de algo maior que o próprio neoliberalismo que, como dito no livro, Marilena Chaui diz que é autoritário. A presença de pessoas negras se faz necessária por mero pragmatismo? Entendo que essa é a experiência de Cida Bento como profissional do RH e que como ativista ela tem uma argumentação mais política do que teórica, mas se usarmos os argumentos dela, talvez pessoas com deficiência não teriam direito à participação em corporações, já que muitas vezes isso resulta em uma produtividade não condizente com a lógica atual.
Profile Image for Nathalia Mendes.
68 reviews
September 6, 2025
Essa leitura foi um verdadeiro soco no estômago. Cida Bento consegue explicar com clareza algo que muitas vezes passa despercebido: o chamado pacto narcísico da branquitude, um silêncio coletivo que garante a manutenção dos privilégios de pessoas brancas, ao mesmo tempo que reforça a exclusão da população negra. O que mais me chamou atenção é que ela não fala disso de forma abstrata ou distante; ela mostra como esse pacto está presente nas instituições, no mercado de trabalho, na política e até nas relações pessoais.

O livro é desconfortável, mas de uma forma necessária. É impossível sair dessa leitura sem refletir sobre a própria posição diante dessas estruturas. Para mim, funcionou quase como um espelho incômodo: em que momentos eu, mesmo sem perceber, reproduzo esse silêncio? A escrita é clara, bem fundamentada e costura conceitos de forma acessível, sem perder a densidade.

Foi uma das leituras mais transformadoras que fiz nos últimos tempos. Um livro que eu recomendo não apenas para quem se interessa por estudos de raça e gênero, mas para qualquer pessoa que queira entender de verdade como o racismo se sustenta de forma tão enraizada no Brasil.
Profile Image for Esperança Almeida.
117 reviews8 followers
May 17, 2023
Por ser psicanalista, sempre fico receosa quando me deparo com livros que abordam questões sociais articuladas à psicanálise. Meu receio se dá por entender que a psicanálise é uma teoria (como todas as outras) limitada, principalmente à prática clínica. Assim, examinar questões sociais sob a ótica das teorias sociológicas faz muito mais sentido, evitando uma individualização do problema. Esse livro foi uma grata surpresa por utilizar a noção de pacto narcísico da branquitude sem perder de vista a dimensão estrutural das relações raciais e, claro, seus efeitos individuais. Gostei muito de conhecer toda a experiência da Cida no mundo no trabalho e seu percurso no Ceert. Leitura recomendadíssima e super importante para o letramento racial.
Profile Image for naná.
25 reviews
August 26, 2024
Não apresenta novidades se você já teve algum tipo de contato com o debate de origem étnico-racial. A autora condensou ideias já existentes na literatura sobre privilégio branco. Acredito que o livro acrescentaria para as pessoas brancas que desejam iniciar na luta anti racista. Aliás, a bibliografia final é bem interessante.
Profile Image for thaís bambozzi.
277 reviews46 followers
October 18, 2022
leitura importante, didática e bem estruturada em dados e referências. vontade de dar de presente para todo mundo que eu conheço.
Profile Image for Elis Arrais.
2 reviews
July 21, 2025

“O Pacto da Branquitude” é, sem dúvida, um livro que provoca reflexões profundas. Ele é, ao mesmo tempo, difícil e fácil de ler. Difícil porque revela, de forma crua, como o racismo estrutural persiste ao longo da história, perpetuando privilégios para a branquitude e desigualdades para outros grupos. É dolorido encarar essa realidade, mas essencial para quem deseja não apenas não ser racista, mas ser ativista contra o racismo.
Ao mesmo tempo, a linguagem do livro é extremamente acessível, o que torna a leitura mais leve do que se imagina. É uma obra indispensável para todos que querem compreender as raízes do racismo e contribuir para uma sociedade mais justa.
Profile Image for Vanessa Pérola.
Author 5 books40 followers
February 19, 2023
Que pena que pessoas brancas não se dão ao luxo de lerem e colocarem em práticas leituras como essa. Isso com certeza as faria ser de fato antirracistas e começarem a se racializar. Cida Bento traz questões importantíssimas de como há um pacto silencioso e tácito entre pessoas brancas que ajuda a manter os seus privilégios durante os anos e, como isso ocorre de forma corriqueira em instituições. É uma leitura para estudar e revisar sempre que possível! Fantástico!
Profile Image for Guilherme Smee.
Author 27 books190 followers
October 29, 2023
O pacto da branquitude, que intitula este livro de Maria Aparecida "Cida" Silva Bento, é definido por ela como um pacto narcísico - que conversa somente entre iguais e para iguais - que dá legitimidade de poder às pessoas brancas, mas em especial a homens ricos heterossexuais. Cida Bento traça diversas dimensões em que esse privilégio branco se dá na vida das pessoas de etnia caucasiana em detrimento das pessoas de pele negra. O enfoque de Bento neste livro se direciona mais para o mundo do trabalho e as relações estabelecidas nesse espaço social. Dentro dos meus estudos, o que mais me interessou neste livro é a forma como Cida explora a masculinidade branca, a personalidade autoritária e o nacionalismo como algo intrínseco a este pacto narcísico que direciona e confirma o poder aos poderosos do mundo. Cida Bento também traz um panorama histórico muito útil sobre os estudos da branquitude. A autora faz um giro epistemológico importante com esse livro: a pesquisa dos opressores e das causas da opressão e não dos oprimidos e das condições da opressão, giro que acho que deveria ser empregado mais vezes pelos pesquisados de gênero, etnia, sexualidade e classe social. Que a popularidade imensa deste livro propicie mais estudos futuros nessa direção.
Profile Image for Leonardo Bianchi.
85 reviews1 follower
November 26, 2023
Neste texto de clareza ímpar, Cida Bento, eleita uma das 50 pessoas mais influentes do mundo em diversidade pela The Economist, concentra a discussão de racismo a partir do passado escravocrata das pessoas brancas e quanto isso favoreceu uma rede de privilégios transmitida de geração para geração. Através de um pacto narcísico, de um acordo tácito, a branquitude perpetua-se com dominante nas lideranças e nos melhores postos de trabalho. Provocada a promover mais diversidade e equidade, reage imediatamente, pois sente-se ameaçada, apontando a meritocracia como justificativa. A autora desconstrói esse mito: “A racionalidade que explica o suposto sistema meritocrático não considera ainda o impacto de histórias e heranças diferentes na vida contemporânea dos grupos, tais como qualidade de escolas frequentadas, disponibilidade de equipamentos e acesso à internet nos ambientes familiares e escolares, ao sistema de saúde, de saneamento básico nos locais de moradia etc.”
Profile Image for Amanda Pereira.
87 reviews
September 26, 2025
Eu tenho me interessado por assuntos como o desse livro, me surpreendi na maneira como a autora é certeira na fala, mas ao mesmo tempo envolvente. Achava que seria um livro mais “científico”, um estudo.

O livro traz reflexões importantíssimas.
Tem muitas pessoas que argumentam que o racismo estrutural não existe sem sequer saber o que é. Mas, quando você realmente entende que o país em que vive está cercado por todos os lados de sua história por preconceito e discriminação em relação às pessoas pretas, você percebe que o racismo estrutural existe sim e precisa ser combatido.
A autora explica o que é e como o racismo é institucionalizado de maneira sútil na sociedade.
Além disso, ela demonstra indignação, porém, indica que não há solução mágica para resolver o problema.
As pessoas precisam tomar consciência e analisar, não só o próprio umbigo, sim o coletivo. Só assim, o racismo deixará de ser estrutural.
Profile Image for Mari Keiko.
13 reviews2 followers
January 22, 2025
Um livro muito importante para se entender o racismo estrutural. Leitura curta e objetiva.
Cida Bento tem uma trajetória incrível na área de relações de trabalho e desigualdades, e esse livro é uma grande introdução às suas pesquisas. Gostaria muito de ver mais publicações da autora, sinto que poderia ficar horas me debruçando por esses assuntos de maneira mais detalhada do que o livro propõe.

Leitura indispensável para a luta antirracista.
Profile Image for Alice.
17 reviews
July 16, 2024
extremamente necessário
embora seja uma leitura acadêmica, é um ótimo lugar para recolher referências e é uma leitura obrigatória para os brancos (principalmente os primeiros capítulos que são os melhores)

queria ter dado 3.5
Profile Image for Felipe Beirigo.
210 reviews19 followers
June 24, 2025
Livro sério não tem resenha com zueira. O livro é para todos mundo, mas o direcionamento mesmo é para quem está nos lugares de liderança/decisão.
Profile Image for nathália.
145 reviews3 followers
April 27, 2023
leitura extremamente necessária! me trouxe inúmeras mobilizações e reflexões bem pertinentes acerca do lugar que ocupo.

"Assim, foi no bojo do processo de colonização que se constituiu a branquitude. Os europeus, brancos, foram criando uma identidade comum que usou os africanos, negros, como principal contraste. A natureza desigual dessa relação permitiu que os brancos estipulassem e disseminassem o significado de si próprios e do outro através de projeções, exclusões, negações e atos de repressão."
Profile Image for Cayo Candido.
80 reviews9 followers
April 18, 2022
O livro de Cida Bento vai direto ao ponto sintetizando mais de trinta anos de pesquisa acadêmica em conjunto com sua luta por equidade racial ligada ao Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT). Invertendo o questionamento, porém sem ignorá-lo, sobre quais foram as consequências da escravidão para negros no Brasil, a autora pergunta de que modo brancos se beneficiaram e ainda se beneficiam desse violento passado escravista. Desse modo, a obra é dividida em pequenos capítulos, baseando-se em intelectuais já consagrados sobre o tema (incluindo a própria autora), deixando assim explícitas as fissuras da narrativa meritocrática encampada pela branquitude, mas também apontando caminhos para uma sociedade mais justa e igualitária.
Profile Image for Renan Simão.
23 reviews35 followers
November 16, 2025
Introdutório e acessível. É pra gente branca, e suspeito que a rapidez com que passa por diversas dimensões da branquitude é um trunfo para atrair esse público. A parte do CEERT é essencial para mostrar como a força dessa importante organização do movimento negro tem origem no movimento sindical.
Profile Image for Stephanie.
588 reviews
February 5, 2024
This was great, it was refreshing to read about the subject of Black empowerment and antiracism from the perspective of a Black HR professional.
Profile Image for Mila.
178 reviews4 followers
December 19, 2024
mais uma leitura desse livrinho que, na realidade, é um livrão! feliz demais que foi com meu grupo de estudos e principalmente perceber o meu crescimento ao decorrer dessa trajetória <3
Profile Image for Luisin.
34 reviews
July 27, 2024
Cida Bento é pokas... 💛🔥

"

Uma política de diversidade e equidade exige a identificação de sinais de discriminação nas normas, nos processos e nas ferramentas utilizados para selecionar pessoas para inserção e ascensão profissionais. As situações de discriminação no ambiente de trabalho não aparecem como atos explícitos de racismo, pois isso configuraria um descumprimento da lei que define racismo como crime inafiançável e imprescritível. Portanto, essas situações se manifestam de outras maneiras. Dessa forma, é imprescindível realizar diagnósticos que permitam analisar e comparar trajetórias ocupacionais a partir das diferenças de cargos e salários, oportunidades de desenvolvimento, promoção e mentorias. É fundamental elencar as ações afirmativas em curso nas empresas, estabelecer indicadores, definir metas e sistemas de monitoramento periódicos das informações demográficas do quadro de lideranças e de pessoal de toda a organização, relativas a gênero, cor/raça, orientação sexual, deficiência, etc.

Essa política deve observar também como a diversidade se reflete no quadro de fornecedores das organizações, como se manifesta nos serviços e produtos oferecidos e na relação com clientes e com a comunidade em torno. A partir do diagnóstico, podem-se realizar debates sobre os resultados obtidos, visando construir um plano de ação com metas e passos concretos a serem atingidos e monitorados periodicamente pelas diferentes áreas da organização. Esse processo exige que lideranças, gestores e todo o quadro de trabalhadores sejam envolvidos em programas de treinamento para receber e discutir informações sobre desigualdades na sociedade brasileira e na organização onde trabalham. É preciso lembrar que resistências sempre surgirão, e algumas se apoiam na mesma lógica: "Vamos ter que flexibilizar os critérios de seleção" ou "Vamos ter que baixar a régua", dizem as lideranças diante de programas de ações afirmativas que visam acelerar a inserção ou ascensão de pessoas negras nas organizações. É como se a presença de pessoas negras fosse diminuir a qualidade da instituição.

Empresas com índices altos de diversidade de raça (ascendência africana, do Oriente Médio, asiática, indígena, latina, europeia) têm 35% mais probabilidade de obter resultados acima da média em seu ramo. Investigação recente da McKinsey & Company sobre diversidade corporativa na América Latina indicou que as empresas que adotam a diversidade têm mais chance de alcançar uma performance financeira superior se comparadas às que não adotam. O estudo foi realizado com cerca de mil funcionários e mais de trinta executivos seniores de empresas líderes, envolvendo setecentas grandes empresas de capital aberto, abrangendo todas as principais indústrias sediadas no Brasil, no Chile, no Peru, na Argentina, na Colômbia e no Panamá.

O argumento de que as organizações vão perder a excelência por conta da ampliação da presença negra é um clichê que continua sendo repetido. Nesse sentido, urge a inserção de ações afirmativas concretas nos ambientes de trabalho para efetivamente mudar esse imaginário. E é aí que outros desafios se colocam, pois especialistas que lideram a implementação de programas nas organizações para a diversidade muitas vezes são pessoas negras em posição de saber e poder, a quem cabe orientar a instituição sobre quais ações necessita desenvolver para se tornar mais equânime e diversa.

Então, pode ocorrer um "curto-circuito", pois a mudança na hierarquia de quem detém o saber e o poder muitas vezes provoca reações que podem estar relacionadas ao que a estudiosa Robin DiAngelo definiu como fragilidade branca. Essa fragilidade é apontada por ela como um estado inerente à branquitude, no qual o estresse racial se torna intolerável para as pessoas brancas. Quando incitadas ao debate racial, as pessoas tendem a reagir defensivamente e a responder com raiva, medo e culpa.

Algumas situações que causam reações de autodefesa nas pessoas brancas e que costumamos constatar em organizações que estão utilizando ação afirmativa são:

- Dificuldade de as pessoas brancas reconhecerem que o acesso a oportunidades e recursos é diferente para vários grupos raciais. Ou seja, não querem questionar o mito da meritocracia.
- Deparar-se com pessoas negras em posição de liderança, o que desafia a autoridade branca.
- Participar de atividades em que pessoas negras falam de racismo de maneira direta, desnudando os códigos da branquitude.
- Serem racializadas, já que pessoas brancas se veem e são vistas como universais.

"
Profile Image for Raphael Donaire.
Author 2 books37 followers
January 21, 2025
Será que algum dia, pessoas brancas, especialmente aquelas em posições executivas de empresas públicas ou privadas, já se perguntaram sobre sua raça? Ou sobre a ausência de negros nesses espaços de poder? Provavelmente não. E é nessa falta de questionamento que "O Pacto da Branquitude", de Cida Bento, encontra seu ponto de partida. O livro, fruto de ações sociais, atuação no meio corporativo e debates em uma jornada acadêmica, revela um acordo tácito entre pessoas brancas para se manterem como padrão universal e em posições de poder.

Cida Bento explora como as estruturas organizacionais, os processos de contratação e promoção, e as dinâmicas de equipe são moldados por vieses inconscientes que perpetuam a supremacia branca e masculina. Ao situar sua análise no contexto do legado escravagista do Brasil, a autora ilumina como práticas corporativas contemporâneas podem reforçar desigualdades raciais, muitas vezes de maneira velada, quase invisível, mas profundamente enraizada.

Com uma crítica incisiva, Bento desmonta a noção de meritocracia, frequentemente usada para justificar a sobrerrepresentação branca em cargos de prestígio. Ela argumenta que tais justificativas falham em reconhecer as barreiras institucionais que pessoas negras e outros grupos marginalizados enfrentam, perpetuando um ciclo de exclusão e desigualdade.

Além disso, o trabalho de Cida convida à reflexão sobre a própria fragilidade branca. Ela desafia a complacência e o conforto da indiferença, sugerindo que a verdadeira aliança antirracista requer desconforto e um enfrentamento direto das próprias inseguranças e resistências.

A defensiva e as reações pouco amigáveis que o livro provoca podem ser vistas como indicativos de que as palavras de Cida estão atingindo aspectos críticos, desencadeando uma mudança que se faz necessária em leitoras(es) brancos.

"O Pacto da Branquitude" é um convite para engajarmos em discussões relevantes sobre raça e desigualdade, oferecendo uma oportunidade para repensar e transformar as dinâmicas de poder que definem a sociedade brasileira.

Ao desmistificar a neutralidade da branquitude e desafiar os pilares de um sistema racializado, Cida Bento nos convida a participar ativamente na construção de organizações e de uma sociedade menos racistas. Este é um livro base, não só para entender as dinâmicas raciais no Brasil, mas também para inspirar ações concretas que promovam a equidade racial em todos os níveis da sociedade.
Profile Image for Daniel Urpia Dourado.
2 reviews
October 13, 2025
Pacto da Branquitude se apresenta como uma obra acadêmica, mas, na prática, é um tratado de culpa alheia disfarçado de ciência social. Maria Aparecida Bento parece acreditar que escrever um longo texto cheio de crenças e algumas experiências pessoais é equivalente a produzir pesquisa rigorosa — Muitas das afirmações são genéricas, caricatas, levianas e desprovidas de qualquer embasamento. Como um livro que conta relatos de discriminação e racismo, comove. A história da bisavó de Sueli, particularmente, me tocou profundamente, mas como uma publicação com caráter de pesquisa, é problemático. Há afirmações feitas por Bento que te colocam para refletir, outras são desmentidas com uma rápida pesquisa no Google ou visita ao site do IBGE. De resto, não há dados confiáveis, há poucas estatísticas verificáveis e, em vários momentos, nem fontes são citadas. A preocupação de Bento parece mais ser a de inculcar culpa do que em compreender ou explicar estruturas sociais.

A autora extrai trechos de outros autores e os expõe fora de contexto, pega uma pesquisa feita em um contexto micro e clínico e a utiliza para corroborar com afirmações feitas sobre o macro e o social. Faz paralelos incompreensíveis entre o Brasil de 2020 e os EUA dos anos 80/90, e apresenta experiências pessoais como se fossem verdades universais. Ignorando completamente nuance, lógica ou realidade concreta. É impossível levar a sério qualquer afirmação sem questionar constantemente a validade dos exemplos e a ausência de método.

Bento insiste em que todo branco deve sentir vigilância e culpa racial, mas nunca oferece ferramentas práticas ou soluções para desigualdades reais. A obra é teoria rasa e aplicação prática zero. A repetição de que se trata do resultado de sua pesquisa de doutorado não transforma o livro em análise científica: o texto se lê como um trabalho de calouro na primeira semana de faculdade, curioso e bem-intencionado, mas superficial e desorganizado, além de por vezes, ser desprovido de fontes.

Por fim, o livro serve apenas como um amontoado de relatos pessoais ou ponto de partida para debates, mas falha como estudo sério ou guia realista. Se você valoriza evidência, lógica e observação do mundo concreto, se você passou pela universidade e foi apresentado ao método de pesquisa cientifico, prepare-se para se irritar com abstrações vazias e moralismo acadêmico inflado.
Profile Image for Filipe Vieira.
55 reviews1 follower
October 25, 2024
Lately, the phrase "In a racist society, it’s not enough to be non-racist; we must be anti-racist," by Angela Davis, has been frequently repeated. Like any concept distilled into a few words, it runs the risk of losing its meaning. For this and other reasons, reading *O Pacto da Branquitude* by Cida Bento becomes even more essential.

Throughout ten chapters and an epilogue, the author lays out ways to ensure the American philosopher's words retain their weight despite repeated use. Cida Bento explicitly argues that "mere abstention from discriminatory practices isn’t enough; effective measures to promote equality are needed." In other words, if our aim is to build a truly egalitarian society, we must take proactive steps daily to reach that goal—a point also outlined in *Pequeno Manual Antirracista* by Djamila Ribeiro.

But the central theme of Bento's book is the idea that we, as white people, view ourselves as universal, as the standard or model, and label anyone who differs from us as other or diverse. This perspective is at the root of racist practices, even within progressive rhetoric, which often falls into this conceptual trap. An example is overlooking the psychological "deformation" of slaveholders when examining the legacy of three centuries of slavery in Brazil. As the author points out, history is told not only through collective memory but also through collective amnesia.

These and other topics, like the concept of racial capitalism, are discussed in the book, supported by data, interviews, and research, including the author’s own master’s and doctoral work. It is a crucial book for anyone who truly wants to be an agent of change, bringing our country closer to the ideal of equality.
Profile Image for Felippe De Paula Pereira.
22 reviews1 follower
December 30, 2023
No final, qual é o tal pacto?

Achei a parte psicanálitica pouco aprofundada, diferente de outros textos que estudam raça e psicologia, como "Pele Negra, Máscaras Brancas", de Fanon. Muitos dos exemplos dados para reforçar a tese são casos de um racismo internalizado também por pretos e pardos, que não fazem parte do "pacto". Dessa forma, a autora invisibiliza os pardos brasileiros, ao tratar a questão de raça segundo o binômio branco-preto.

Seria interessante mostrar, por exemplo, como os pardos, em parte, internalizam o mito da universalidade branca e com ela se identificam, sem necessariamente usufruir seus privilégios. Suponho que essa ausência ocorre porque o livro se baseia em teóricos estadunidenses das relações raciais, que, no Brasil, devido à mestiçagem, são completamente diferentes.

Outra contradição do livro é excluir as relações de classe da análise, apesar de estas permearem os exemplos dados pela autora. A categoria "branco" é analisada sem esse recorte: o coleguinha do filho, a recrutadora, operários europeus miseráveis e executivos pertencem todos à mesma categoria e compõem o dito pacto.

O livro deixa a desejar pela forma como simplifica as relações de raça e exclui classe como critério de análise.
10 reviews
April 13, 2024
O livro esclarece com dados e casos conceitos formulados sobre o funcionamento do racismo nas instituições. A autora argumenta que estudar o racismo apenas do ponto de vista dos negros não é suficiente para entender por que estudar a cultura negra nas escolas é insuficiente. Ela defende que entender como o pensamento branco contribui é crucial para compreender e enfrentar o racismo.

Utilizando conceitos psicanalíticos, como o pacto narcísico na primeira parte, a autora explora os meandros sutis das relações, mostrando como o silenciamento e a perpetuação da violência são realizados através de narrativas históricas construídas para dominar. Isso não se aplica apenas ao racismo, mas também a outras organizações que defendem hegemonias de grupos, contrariando a noção de meritocracia real e democracia.

Ao discorrer sobre o capitalismo e as práticas racistas nas instituições, a autora permite-nos inferir sobre como o pacto narcísico influencia os resultados. O enfrentamento do racismo institucional desafia a ideia de meritocracia, e os argumentos em favor dela são desmontados pelos efeitos comprovados por dados. Enfim, uma análise muito embasada do tema. Devorei o livro em três dias, mas dá em um.
Displaying 1 - 30 of 107 reviews

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