Pois, não fiquei maravilhada com este livro, muito pelo contrário. Elena Medel é poetisa, mas aqui não se nota, porque a escrita é plana e muitas vezes confusa. Escolheram, por isso, calculo eu, um poeta para a traduzir para português, mas isso não ajudou. Aliás, não sei se não atrapalhou (“Cabelo moreno”? Alguém fala assim?).
É um livro que tem por tema o dinheiro ou a falta dele, razão por que o quis ler, mas a tese de que é ele que condiciona todas as escolhas das personagens e molda a sua maneira de ser foi desenvolvida de forma deficiente, superficial e parece-me até de má-fé por parte da autora, ao criar uma personagem com a profundidade de uma casca de ovo e outra a raiar a sociopatia.
Não avance daqui quem pretenda ler esta história.
María teve de deixar a sua terra nos anos 70 para ir servir e deixa a sua bebé ao cuidado dos pais. Vemos que trabalha muito, que nunca tem dinheiro para trazer a menina para junto de si, que não é má pessoa, mas pareceu-me apática, desprovida de sentimentos. Quando a autora decide dar-lhe um companheiro, eles não podem ir viver juntos. É que ele tem uma mãe dependente. Acontece. Mas ele também tem um pai quase vegetal. Que azar... Mas ele também tem um irmão doente mental que precisa de tomar a medicação para não se tornar violento. Já começa a cansar, não?
Não, há mais, ainda não percebemos que é muito mau ser pobre.
Em paralelo, seguimos Alicia, uma adolescente que foi rica e, depois, ficou pobre, que não era boa pessoa e não ficou melhor, por isso, a tese da falta de dinheiro pouco contribui para a forma de ser da jovem, que é bully na escola, depois, começa a sentir-se atraída por rapazes com pequenas deficiências, depois, afasta-se da mãe e da irmã porque não gosta delas, depois arranja um emprego indiscriminado porque não quis terminar a faculdade, depois aceita casar com um tipo que ela considera ridículo só porque ficou desempregada e sem casa...
Alicia ficaria com ele até que a chamassem de algum sítio, e pudesse pagar o quarto sozinha. Mudaram a sua roupa e alguns utensílios de cozinha para casa dele, e ela começou a ir buscá-lo à paragem de autocarro, a caminhar ao lado dele por Alcalá, a reconhecer o cheiro da sua merda de manhã.
...depois, engata tipos indiscriminadamente na rua (alguém leu “O Jardim do Ogre”), mas chega aos 30 anos (os 30 são os novos 80?) e acha-se acabada, por isso, se calhar, só consegue levar para a cama velhos da idade do pai ou com deficiências físicas.
Um coxear severíssimo, um tique que atrapalha a fala. Não quer doentes; não para já.
Não é, no entanto, a aridez emocional o grande elo de ligação entre as duas protagonistas, visto que há uma terceira pessoa, igualmente pobre de dinheiro e de espírito, que faz essa ponte em “As Maravilhas”, ainda que pareça apenas uma personagem secundária que passa de fugida pela história. No último capítulo, dá-se o tão esperado encontro entre María e Alicia, que nunca se viram na vida, nem sequer em foto. Como é que elas se reconhecem no meio da multidão de uma manifestação? Têm um queixo parecido.
Mas depois concentrei-me no queixo, a mesma forma indiferente do meu.
Não sou sentimental, mas como é possível não haver um pingo de amor neste livro? Os pobres não amam sequer os filhos? Os pobres não amam sequer as mães? Não preciso de luz ao fundo do túnel na literatura, mas um livro mainstream como este precisava de ter um acto de redenção, uma catarse, uma esperança, ainda que ténue, de dias melhores. É tramado ser-se pobre!