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Canário

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Confia nas grades. Aproxima-te. Vou-te contar. Vá lá, aproxima-te, leitor. E tu, leitora. Não tenhas medo. Estou preso vai para três anos. Não vês as grades? Não te consigo tocar. Receias sequer olhar-me? Então escuta só, vou contar-te do escritor conceituado. Soube agora que sou seu filho. Não se lembra sequer da minha mãe, não sabia de mim. Recompôs-se, aceita-me, vem-me buscar. Vai-me conseguir a liberdade. É famoso, influente, já viste a minha sorte? Se me ouvires, vais saber que a mulher dele nem sonha que existo, vais ver o neto autista que ele finge não ver. Mais o padre que se dedicou a mim na prisão, que acredita que ainda vou a tempo, que jurou que não me deixa apodrecer aqui. O padre que me perdoa o crime horrível. Sim, o crime. Mas não te assustes. Não te afastes agora. Confia nas grades. Aproxima-te. Vou-te contar. Canário de Rodrigo Guedes de Carvalho CRÍTICAS DE IMPRENSA « "Canário" é marcado por uma pujante empatia humana, pela criação de personagens credíveis [...], pelos longos monólogos discursivos, pela descrição convincente (mesmo quando sucinta) de cenas a dois.» Pedro Mexia, Público

320 pages, Paperback

First published January 1, 2007

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About the author

Rodrigo Guedes de Carvalho

12 books254 followers
RODRIGO GUEDES DE CARVALHO nasceu no Porto, a 14 de Novembro de 1963.
Licenciado em Comunicação Social, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, profissionalizou-se na RTP. Actualmente é subdirector de Informação da SIC. Em 1997 recebeu o Prémio Especial do Júri do Festival FIGRA, em França, pela reportagem A condição humana, sobre as urgências hospitalares.
Em 1992 estreou-se na escrita, com o romance Daqui a Nada, vencedor do Prémio Jovens Talentos da ONU, conhecendo uma reedição pela Publicações Dom Quixote, em 2005. Nesse ano lançou o best-seller A Casa Quieta e assinou o argumento da longa-metragem Coisa Ruim, co-realizada pelo seu irmão Tiago Guedes. É ainda autor de A Mulher em Branco (2006), Canário (2007), O Pianista de Hotel (2017), Jogos de Raiva (2018) e Margarida Espantada (2020).

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13 (8%)
1 star
6 (3%)
Displaying 1 - 12 of 12 reviews
Profile Image for João Duarte.
140 reviews4 followers
August 3, 2017
Geraldo está preso pela morte de um homem, e o padre Gervásio, preso à sua vocação sacerdotal, acredita que o jovem merece uma segunda oportunidade na vida.
Alexandre Vilar Raposo é um escritor conceituadíssimo, que vive refém do medo de já não agradar aos leitores, e que descobre, passados 24 anos, que é pai de Geraldo.
O doutor Maurício, amigo de longa data de Alexandre, será o responsável por que pai e filho se conheçam, mas nunca superou ter perdido a mulher da sua vida, Antónia, esposa de Alexandre.
Camila, a filha de Alexandre e Antónia, está acorrentada à dura realidade de ter um filho autista, fechado num mundo que lhe é particular.

Podemos dizer que todas as personagens deste livro estão presas, de algum modo. Todas as personagens são como canários, não em gaiolas reais de ter na parede, mas nas gaiolas da mente, que também têm que se lhes diga.

"(...) os livros não têm grades, esteja a gente onde estiver, não têm grades e em consequência se a gente mergulha neles fica um nadinha sem grades também (...)" (página 105).

Que grande verdade! Justiça seja feita: Rodrigo Guedes de Carvalho revelou não ser o típico jornalista que escreve livros; o autor é um escritor que pode bem entrar na lista dos conceituadíssimos.

A história é narrada em pessoas diferentes, consoante a personagem de que se fala e, sobretudo, o estilo da escrita é diferente em cada um dos narradores. Às vezes, há frases cortadas a meio por pontos finais, mas ao caminhar para o final da obra, isso demonstra ser coerente com uma ideia, e com a própria construção da personagem de Alexandre.

Porém, o que me causou mais impacto ao ler "Canário", não foi apenas a densidade psicológica por trás de cada uma das personagens, como também a reprodução perfeita de tantas frases feitas e situações que todos já vivemos.

"Mas os livros têm uma coisa engraçada que é depois de a gente se despedir deles eles às vezes voltam" (página 203). Sem dúvida que irei voltar aos livros de Rodrigo Guedes de Carvalho.
25 reviews
May 19, 2024
Todos de alguma forma temos as nossas prisões, todos de alguma forma estamos presos
Profile Image for Ana Paulino.
83 reviews11 followers
February 26, 2021
“Canário” é o quarto livro que leio do jornalista e escritor português Rodrigo Guedes de Carvalho e, não me canso de dizer o quanto não consigo associar as duas figuras numa só. Por vezes dou comigo a vê-lo na televisão enquanto revejo mentalmente as leituras, e a duvidar que jornalista e autor sejam, de facto, a mesma pessoa.

Sendo o quarto livro, o terceiro do qual faço apresentação, pouco me resta dizer sobre a sua escrita que não tenha referido já nos livros “A Casa Quieta” e “Daqui a Nada”, talvez que este seja um pouco mais “ordeiro” em relação à construção – uma das coisas que mais gosto em RGC é a forma como “desrespeita” as regras gramaticais e troca de narrador a meio de uma frase ou dispensa a pontuação, técnica que, a mim, não me disturba a leitura porque a forma como é capaz de captar os nossos sentidos e de nos envolver numa imensidão de imagens e sensações é de tal ordem, que o discurso, mesmo que, aparentemente, desorganizado, se entende perfeitamente no ritmo da leitura, que ele consegue tornar bastante poético.

Em “Canário” RGC, tal como em “Mulher em Branco”, escrito no ano anterior, arrisca na construção do enredo, tornando-os mais complexos do que os dois primeiros. Não quero desvendar muito do que podem encontrar, mas tal como em todas as obras que li até aqui, ele centra-se na família e nos laços que são obrigatórios e nos que escolhemos. Como lidamos com cada um deles e como eles se vão construindo à volta uns dos outros. Além disso, “Canário” tem uma voz masculina extremamente forte, enquanto que, nos anteriores, o universo femino se destaca, pormenor que saliento porque julgo que RGC é dos autores, que eu já li, com a maior capacidade de captar e representar a mulher na literatura – e digo isto sem que isto soe a qualquer tipo de acto discriminatório sobre o género, e sobre o qual não vou entrar em pormenores aqui.

O romance vai-se construindo através de capítulos com vozes diferentes, há personagens que falam para outras, ou o narrador que fala para o leitor, mas todos têm direito a participar com a sua visão, na construção desta história que não segue, tal como as obras anteriores, uma cronologia.

Torna-se difícil continuar a falar do livro sem mencionar o enredo, mas é crucial que o não faça de forma a não prejudicar a leitura, pois ele vai sendo revelado à medida que o vamos lendo, lentamente, sem criar suspense, apenas como camada acrescentada em cima de cama, ponto cosido sobre ponto. Mas posso dizer que vamos encontrar, como podemos perceber pelo título e pela capa, e até logo nos primeiros capítulos, a história de um rapaz preso que recebe visitas regulares de um padre que o vai ajudar a tecer um novo caminho aquando do seu momento de liberdade, história essa que acaba por se cruzar com a de um autor famoso, cujos livros ele leu, porque o padre lhe trazia livros nas suas visitas. Mais uma vez, e embora certos capítulos, principalmente os narrados pelo rapaz preso, sejam escritos com um ritmo mais rápido, cheios da sede típica de alguém encarcerado que adivinha a liberdade, nada neste livro se constrói a correr, até porque, em contrapartida, os capítulos dedicados ao autor, são mais introspectivos.

Gosto imenso da escrita de Rodrigo Guedes de Carvalho e, o ano passado, quando soube que ia lançar outro livro, decidi ler a obra toda, cronologicamente, até chegar a “Margarida Espantada”. De todos os que li, “Canário” é, sem sombra de dúvidas, o meu favorito, no que achei mais qualidade, tanto a nível de escrita quanto de opções de narrativa, um livro que me fez sufocar, rir e me fez chorar. Talvez que quem queira conhecer o autor não precise de ler mais do que 2, visto que, pelo menos do que li (e até do que posso adivinhar), a escrita não varia muito, nem mesmo os temas, só quem se apaixonar (tal como eu) é que poderá, eventualmente) querer querer ler tudo, mas de outra forma, pode achar-se “mais do mesmo”, e então, a solução será mesmo escolher pelo enredo, porque escolhendo qualquer um que seja, mesmo o primeiro, a qualidade não é menor.

Deixo uma questão que me ficou da leitura. Será que, ao escolher a profissão de escritor para esta personagem central, Rodrigo Guedes de Carvalho, quis colocar-se questões sobre a sua própria relação com a autoria?

“É uma angustiante felicidade, ideia que poderá soar contraditória a quem não escreve.”

“Os livros não têm grades, , esteja a gente onde estiver, não têm grades e em consequência se a gente mergulha neles fica um nadinha sem grades também.”

“Uns dizem que o escritor só pode escrever sobre o que conhece, que só assim pode ser verdadeiro, como se a verdade fosse para aqui chamada. Outros dizem que não, que um ficcionista é tanto melhor quanto consegue percorrer estradas onde nunca caminhou de facto. Que a medida do talento é a medida da sua imaginação.”

“Stresse. Uma palavra daquelas que metem medo, porque se adequa a tudo e já não significa nada: não há pior destino para uma palavra.”

“_ Cala-te. Cala-te um bocadinho.
Fazemos sempre isto quando se nos abre um abismo. Pedimos uma pausa, um tempo pequeno, julgamos que assim nos aparecerão saídas, conclusões, raciocínios rápidos que solucionam. Pedimos um tempo, como se o tempo resolvesse.”

A minha próxima leitura começará entretanto, será “O Pianista de Hotel“, depois “Jogos de Raiva” e, por fim, “Margarida Espantada“.
Profile Image for Eunice Tavares.
60 reviews
September 17, 2012
Canário é de um enredo envolvente, imprevisível e sempre surpreendente, principalmente a parte final. É um livro que nos deixa a pensar em vários aspectos da sociedade em que vivemos. Até que ponto conhecemos uma pessoa? Até que ponto podemos ter controlo absoluto do rumo da nossa vida? Será que não somos todos uns canários, pelo menos uma vez na vida?
Um canário vive grande parte da sua vida em cativeiro, entre grades, sendo alimentado por terceiros e sem autonomia para sobreviver sozinho. Um canário que, uma vez livre das grandes, assusta-se pela confusão e insegurança da vida lá fora e não sabe como sobreviver.
É também agonizante a vida que se leva nas prisões, no meio da gente que tem medo da gente que assusta. É um lugar em que se contam todos os seguntos, os minutos duram horas, as horas duram dias e o medo dura a vida a inteira. O perigo espreita mesmo enquanto se dorme e o sono foge mesmo antes de aparecer. Isto não é vida, é a morte da alma. Para muitos, é a justiça pouca pelos crimes horrendos que cometeram. Crimes que julgamos animalescos e inumanos. Para outros, é o castigo que pune pequenas infracções, pequenos delitos. Mas não é castigo, não corrige. Marca com um adormecer do espírito para toda a vida que deixou de o ser.
Profile Image for David Fernandes.
Author 2 books21 followers
December 17, 2008
Uma surpresa muito grande (não li as anteriores obras).

Uma escrita nova, arejada, quem sabe ainda um pouco marcada por "escrever para agradar a Lobo Antunes".

Deixa o seu congénere jornalista (e "romancista" ocupante crónico de posições cimeiras nos Tops de vendas) a uma distância intransponível.
Profile Image for Ana Fonseca.
26 reviews4 followers
January 24, 2019
Esta obra é um retrato sublime da prisão em que todos vivemos, ainda que o desconheçamos ou não queiramos admitir.
Começamos por conhecer Geraldo, um jovem de 24 anos que está preso porque cometeu um crime. Depois, conhecemos o casal Alexandre e Maria Antónia: ele, escritor, preso aos porquês e às dúvidas que não o deixam sossegado, à obrigação que sente de ser o melhor e de se superar, às críticas e à busca pela inspiração para mais um livro; ela, mulher do escritor, presa a uma vida que não a faz feliz, a um casamento que a consome, a um homem que a deixa na sombra, aos medos, às dúvidas e aos arrependimentos do que não foi e podia ter sido. Através deles surgem mais três personagens, sendo estas a sua filha Camila, o genro Duarte e o neto Pedro: a primeira presa a um filho que não a reconhece, o segundo preso à impotência de não saber o que fazer e o terceiro preso a uma doença que com ele nasceu e para sempre o definirá. Mas, e estando ainda longe de desbravar toda complexidade do enredo, há mais duas personagens que para mim são importantíssimas: o padre Gervásio, preso à devoção e ao dever para com os que sofrem, e Amélia, a mãe de Geraldo, presa a uma vida que sempre a maltratou.
Todas estas pessoas e estas vidas nos são apresentadas subtilmente, com cuidado, devagarinho, para que as vamos conhecendo e compreendendo e a certa altura adorando ou odiando ou simplesmente entendendo, de acordo com a perspetiva de cada leitor. O autor vai-nos abrindo as portas das casas e das mentes e dos corações de cada personagem, convida-nos a entrar, a sentar e a observar, e nós vamo-nos agitando e sofrendo com eles, acabando por a certa altura nos sentirmos também nós presos: a eles, às suas vidas, às suas histórias e às suas escolhas.
Este livro é, no bom sentido, uma prisãoe o título Canário foi uma escolha esplêndida, pois também os canários estão presos em gaiolas e ali ficam, para sempre presos, esperando a morte ou a liberdade.
Uma leitura que recomendo, e será certamente uma obra para reler!
Profile Image for Carla Ferreirinho.
137 reviews5 followers
June 2, 2023
Canário é 1 livro com 1 enredo envolvente e absorvente que nos faz pensar em vários aspetos da sociedade em que vivemos.
Será que não somos todos uns canários, pelo menos uma vez na vida?
Será que não vivemos todos numa “prisão” ainda que o desconheçamos ou não queiramos admitir?
O autor vai-nos apresentando as personagens, as suas vidas, as suas histórias e as suas escolhas:
Geraldo, um jovem de 24 anos que está preso porque cometeu um crime.
O casal Alexandre e Maria Antónia: ele, escritor, preso aos porquês e às dúvidas, preso à aceitação do público em relação aos seus livros e preso ao passado de uma relação adultera e fugaz da qual resultou o nascimento de 1 filho (Geraldo).
A mulher do escritor, presa a uma vida e a um casamento que não a faz feliz.
A filha do casal, Camila, presa a um filho autista que não a reconhece.
O genro Duarte preso à impotência de não saber o que fazer e preso à revolta por o filho não ter cura.
O neto Pedro: preso a uma doença de nascença e que o marcará para a vida toda.
O padre Gervásio, preso à devoção e ao dever para com os que sofrem.
Amélia, a mãe de Geraldo, presa a uma vida que sempre a maltratou.
Todas as personagens deste livro estão presas, de algum modo.
Todas as personagens são como canários, não em gaiolas reais, mas em gaiolas psicológicas.
4 reviews
June 30, 2018
Uma agradável surpresa que termina de forma abrupta, como se tivessem acabado as ideias ou porque se imponha terminar!
Profile Image for Samuel Tomé.
90 reviews4 followers
March 9, 2020
Um argumento interessante, contudo a forma de escrever não me agarrou. Agarrou o "querer saber como termina".
Profile Image for Rita (the_bookthiefgirl).
359 reviews84 followers
June 29, 2020
Estreei-me na escrita de Rodrigo Guedes de Carvalho e li esta obra de uma assentada . Apesar de não ser propriamente o meu estilo de livro, apreciei a sua escrita reinventiva, diria uma mistura de Saramago, sem pontuação , com travos de poesia e narrativa pura. .
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Porque o escritor procurou traduzir , tendo feito na sua total integridade, um poder de voz popular, um tom irónico , um caráter realista.
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Este livro apresenta a história de um canário, de nome Geraldo, uma pessoa como tantas outras , preso literalmente e figuradamente atrás das suas grades. Um dia , descobre que um inventor conceituado é seu pai e o vai libertar da prisão, sendo que a mãe está às portas da morte. .
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A história , para ser mais completa, envolve outros canários que se encontram presos nas suas míseras gaiolas. É uma história que explora a dor, a futilidade, a impotência , a desistência e a fuga da realidade. .
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De uma maneira ou outra, quem lê esta obra, vai identificar-se com algum episódio e , por isso, nunca se sentirá só . É o que há de mais mágico nos livros.
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. “os livros não têm grades, esteja onde a gente estiver, não têm grades e em consequência se a gente mergulha neles fica um nadinha sem grades também “
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