"A eles dei a misericórdia de um punhado de vésperas."
"As palavras permitem todo tipo de realidade."
Ainda não sei descrever muito bem minha impressão quanto a este livro. Carla Madeira tem uns rompantes muito bons em sua escrita, com muita leveza e lirismo, mas na maior parte do texto essa tentativa falha. O resultado são longos trechos desnecessários, até cafonas, que não acrescentam nada nem ao enredo nem à vontade de dizer mais através das entrelinhas. A maior parte dos diálogos são mal escritos, repetitivos, pouco espontâneos e vários dos personagens secundários tem o péssimo costume de discursar como se fossem oradores com um texto pronto em mãos. Aliás, estes personagens parecem existir apenas com o propósito de realizar estes mesmos discursos e não tem qualquer complexidade, nem mesmo a ligeira sensação de que pareçam uma pessoa de verdade. E mesmo naqueles em que existe alguma profundidade, a impressão que passa é que a autora falhou na dramatização desnecessária em muitas cenas e escassez de emoções em outras. São muitos, muitos mesmo os problemas de ritmo: cenas inteiras que "param" para que o personagem possa pensar ou que o narrador possa exibir uma prosa poética que quase sempre pesa em vez de acrescentar significado ao texto. Mesmo a divisão dos capítulos, bastante original, sai perdendo pela falta de organização entre o que pretende narrar o presente e o que deveria explicar o passado que conduziu os personagens até ali. Há uma promessa de confronto que nunca chega e talvez este seja o motivo pelo qual o final frustra quem lê. Promessa, aliás, é o que define bem esse livro, porque ele é uma conjunção de expectativas não atendidas: o paralelo invertido entre Caim e Abel do livro e suas versões bíblicas; suas trajetórias que se afastam quanto mais a mãe quer que se aproximem; a pulsão violenta de um deles, claramente herdada do batismo e desenvolvida ao longo dos anos; o relacionamento difícil e amargurado entre Custódia e Antunes; o tom de metaficção do epílogo. Contudo, existem algumas frases e cenas muito boas, como a recorrência dos meninos de mãos dadas que inevitavelmente se separam, o primeiro beijo entre um dos casais, os momentos em que uma das personagens percebe que se tornou aquilo do que sempre fugiu. É por enxergar nelas algum potencial é que dou três estrelas, pois considero o livro regular. Véspera, mais do ser, é o que poderia ter sido um grande livro.