“O Sertão é o Mundo”, disse, certa vez, Guimarães Rosa. O mesmo poderíamos dizer sobre o Pampa, esta espécie de sertão meridional que baralha fronteiras e entremescla muitas pátrias. E é nesse inesgotável, rico e melancólico mundo pampeano que transitam os personagens desse romance: Pedro Guarany, um encantador de cavalos marcado por uma antiga tragédia; João Fôia, lacônico homem cuja real personalidade é um mistério; e o francês Alphonse Saint Dominguet, cujo olhar forasteiro revela a estranheza, os arcaísmos e a alma profunda destes rincões à margem do mundo. Esses três andarilhos se reúnem em uma improvável comitiva de viagem, passando por cenários pitorescos, enfrentando ameaças e, principalmente, o passado - sempre à espreita (como um tigre nas matas) - pronto para cobrar seus tributos. Trata-se de uma história que envolve temas universais, como o amor, a perda, amizade e (quem sabe) a redenção, e que apresenta grandes e verossímeis personagens - que criam empatia logo nos primeiros traços.
Tavares contorna os eventuais clichês da prosa regionalista com um romance ágil, que não se limita a ser um painel de tradições e costumes, mas também uma aventura conduzida a galope pelo seu herói Pedro Guarany - um homem que vaga pelo pampa sendo perseguido pelo passado, serpenteando atrás dele como um fogo-fátuo ou, simbolicamente, como o mboitatá, esse personagem recorrente de suas perturbações noturnas. Chama atenção como o autor se vale da alternância de pontos de vista (o de Pedro Guarany, o de João Fôia, o do breve interlúdio da "Vida e Morte de Antônio Neto" e o das cartas de Saint Dominguet) a fim de compor a urdidura de sua narração, dando um dinamismo estrutural ao romance que favorece suas reviravoltas e as torna ainda mais potentes. Uma bela incursão pelo gênero - mais um, vide sua passagem pela narrativa pulp no anterior "Noite Escura".
Andarilhos é uma ode ao gaúcho, não apenas ao homem dos pampas, mas sobretudo a identidade de um povo. Tavares desloca o olhar dos centros urbanos para o campo, ambientando sua história no início do século XX, acompanhando as andanças do andarilho Pedro Guarany e pouco a pouco revelando sua personalidade e o que o motivou a cruzar o pampa sobre o lombo de seu inseparável cavalo.
Assim, vamos sendo apresentados as tradições, a personagens anônimos, gente humilde que fez e faz o Brasil. Nesse sentido, celebra o homem do campo, o sujeito simples que é forçado a se mover de um a outro canto para sobreviver.
O romance finca os pés no regionalismo, com forte influência de Érico Veríssimo, tanto em suas personagens quanto no vocabulário profundamente fincado naquelas paragens. E ali ao sopro do minuano, que R. Tavares vai apropriando-se do regionalismo, trazendo o movimento à literatura brasileira de nosso tempo. Bastaria isso para o colocar no lugar daqueles romances que se destacam, em especial, se comparado a produção literária gaúcha alicerçada no urbano, no sujeito classe média escolarizada.
O desenlace do romance é inteligente, seus capítulos acompanham não apenas o protagonista, mas também vai revelando outras peças para a compreensão do conflito e construção do arco redentor. Tavares olha para esse homem do campo, para esses andarilhos, não como errantes ou sujeitos pobres em todos os aspectos, mas ponta em cores vívidas a esperança, o companheirismo, o fascínio místico, o encanto assombroso de quem se arrisca, divide e celebra a vida um ao lado do outro. E isso faz com que a experiência do leitor seja de envolvimento e deslumbramento.
A nota é 3.5, arredondada pra cima pois tenho meus preconceitos a favor de obras nacionais.
O maior problema desse livro é a falta de espaço. Ele tem personagens ótimos e carismáticos, e histórias muito interessantes dentro do enredo, mas os relacionamentos dos personagens e a narrativa em si sofrem por falta de desenvolvimento. Se esse livro tivesse lá suas 300 páginas, poderia ser perfeito no que se propõe e inclusive um favorito meu. Mas esse é um de muito poucos problemas. Os personagens, como já mencionei, são um ponto forte do livro. Pedro Guarany ganhou minha simpatia na primeira página, João Foia praticamente pulava da página e "seu Domingues" me fez rir em vários pontos da história. Até o Geraldo, o Farid e o Tião deixam sua marca, apesar do pouco tempo de holofote em comparação aos outros. Apesar de realmente pensar que o livro teria benefício de mais comprimento, não posso negar que, como está, é uma leitura dinâmica e acessível que valoriza em muito seu tema e cenário.
Andarilhos é uma road trip empreendida no lombo de um cavalo. Pedro Guarany não explicita porque resolveu levar essa vida sem apegos e sem grandes compromissos, mas está óbvio que uma grande decepção o acompanha. Em suas andanças, oferece serviços de capataz (doma cavalos, cuida da propriedade, etc), mas mantém o hábito de se despedir dos patrões antes de criar laços mais profundos de afeto. O encontro com o misterioso João Fôia nos prepara para um possível confronto final, que em certo ponto se torna o motivo do desfecho. A partir de certo momento, o narrador abandona o sotaque tão carregado de termos do interior gaúcho, o que considerei uma decisão acertada por tornar a leitura mais ágil. E assim segue Guarany, nos apresentando, com certa nostalgia, belas cenas do cotidiano do gaúcho (impossível não pensar em Veríssimo). Uma bela narrativa.
Meu primeiro romance pampeano, confesso que cheguei com um certo preconceito do tipo de escrita exageradamente gaudéria: não era exagerado. Eram só os campos bonitos brilhando lavoura ao pôr-do-sol, cheiro de cavalo e chimarrão, romance bom demais. Daqueles com emoção, choro de dor e de alegria, final feliz pra ninguém botar defeito.
A leitura deste romance lindo e muito brasileiro nas suas raízes foi uma recomendação aceita de braços abertos. Nada falta nesta história de homens simples e sinceros reencontrando os fantasmas do passado e se perdoando pelos erros que um dia foram forçados a fazer. Recomendo!
Um livro que me tocou bastante, uma leitura que não costumo fazer geralmente.
Observar a realidade em outras regiões do Brasil sempre me faz refletir sobre a pluralidade que nos forma e que beleza é testemunhar obras nacionais potentes como essa.
"Não podia ser coincidência aquele encontro. Coincidências não existiam, Pedro chegava a escutar o velho pai repetindo a frase. Era o destino que os estava aproximando novamente. E contra o destino não adiantava: não se fazia preço com ele. Pagava-se o que a ele era devido."
Acompanhamos Pedro Guarany em sua jornada como andarilho pelos pampas, sempre atrás de serviço e de um cantinho para passar a noite. Com o desenrolar da história somos apresentados aos costumes dos gaúchos, o autor usa muitas expressões regionais, mas não tive problemas com isso, pelo contrário, achei a prosa bonita, cheia de detalhes que nos fazem sentir andando junto no lombo do cavalo. Em meio às andanças encontramos todo tipo de personagem, fazendeiros, peões, um francês escrevendo sobre sua viagem, donos de bolichos e há muitos aspectos a serem notados, como a pobreza dos trabalhadores, o racismo, o machismo e o papel das mulheres, relegadas à submissão, e como tudo isso é base para a cultura do "homem gaúcho". É um livro gostoso de ler, que me surpreendeu pelos caminhos que tomou, uma história de amizade, amor e redenção com um final muito bonito.
Faz bastante sentido que o nome de Letícia Wierzchowski seja citado nos agradecimentos de Andarilhos. Talvez o primeiro (único) nome que vem à mente quando se pensa em literatura regionalista gaúcha, a escritora responsável pelo famoso A Casa das Sete Mulheres parece ter sido um referencial muito importante para Rodrigo Tavares em seu Andarilhos, romance breve porém bastante climático que une as vidas de três homens no extremo sul do Brasil em meados do século 20 (talvez Érico Veríssimo seja outro nome a se citar). Levemente indeciso entre ficção histórica, melodrama e romance de cavalaria, o texto pode soar algo episódico e desconjuntado em alguns momentos mas os personagens, e sobretudo seu léxico tão sedutoramente gaúcho, são capazes de aliviar defeitos aqui e ali. No mais, parece que escritores iniciantes tem medo da palavra, querem dominá-la e não trocar com ela. Passada essa fase de tentar compactar o discurso e não caminhar a seu lado as coisas devem fluir mais naturalmente; fico aguardando uma próxima empreitada do rapaz.
Que bela viagem pela cultura e vida do meu estado em um livro, por muitas vezes pude lembrar das minhas memórias no interior com cavalos. Além de aprender até palavras novas que são do vocabulário gaúcho, também me aproximei mais de um estilo de vida que muito provavelmente exista até os dias de hoje no RS. Conhecer mais sobre a perspectiva do homem gaúcho sobre a vida no campo, cavalo também me fez conectar alguns pontos sobre os desafios que consigo perceber hoje enraizados no nosso jeito de ver o mundo. Afinal, o machismo por exemplo se torna muito claro quando os costumes diziam que a égua não era pra ser usada pra cavalgar e somente reproduzir novos cavalos.E para não gastar com tanto recurso e tempo cuidando dos bichos, entre uma égua e um cavalo era a égua que, depois de já ter reproduzido, seria abatida.
Érico Veríssimo é um dos meus autores favoritos. E se alguém me desse esse livro e dissesse que foi escrito por ele, eu jamais iria duvidar. Que história incrível!!! Uma história sobre os ensinamentos que a vida nos oferece a cada passo, sobre como somente o tempo pode curar as feridas mais profundas que o mundo nos dá. Uma história sobre nunca desistir de ser feliz, e sobre estar aberto a encontrar a felicidade nos pequenos pequenos momentos do dia-a-dia, e aos encontros e reencontros que fazem a vida valer a pena. Não poderia recomendá-lo mais.
Achei incrível!!! Comecei a ler sem saber o que esperar, só confiando na indicação da Ju Cirqueira, que pra mim sempre é certeira. Fazia muito tempo que não lia literatura regionalista, e nunca tinha experimentado uma de cultura gaúcha. Mesmo assim, achei a ambientação e o vocabulário no ponto certo pra serem enriquecedores sem causar confusão. O enredo é ótimo, achei as críticas sociais e políticas muito bem trabalhadas. A história flui num ritmo muito agradável, e mesmo sendo curta é bem desenvolvida.
Li no meu kindle e adorei o livro. A história é ambientada na região Sul do Brasil, aborada temas como a miscigenação e presença de indígenas na região fronteiriça do Estado do Rio Grande do Sul. Também retrada o modo de vida dos gaúchos dos Pampas, acredito que no início ou meados do século passado. Muito bom. Super recomendo!!!
Li porque a Tati do TLT recomendou o autor e estava bem avaliado na Amazon mas não consegui me relacionar muito com os personagens. Tem uma reviravolta bacana no final do livro, e a parte histórica do povo gaúcho como pano de fundo é muito interessante, no entanto não foi o suficiente para me deixar curiosa por mais obras do autor.
Aaaah que delícia de livro! Simplemente amei! Pedro Guarany e João Fôia são personagens marcantes! E a história como um todo, apesar de tràgica é muito bonita, e tem um final feliz. Gostei também de como tudo se interliga, ao decorrer da narrativa.
Tavares mais uma vez me surpreendeu. Que livro incrível com uma escrita fluída e uma experiência nova pra mim, visto que os diálogos me vez lembrar dos sotaques da região Sul do país. 😍😍😍😍
A história traz uma energia tão pura e nacional da vida dos andarilhos, mesclando com uma visão europeia do Brasil e com um enredo e personagens marcantes.