Até à data, Urbano Tavares Rodrigues (UTR) tinha encontrado no conto, a sua expressão literária predilecta. É com Bastardos do Sol que se estreou no romance, em 1952.
Localizada no Baixo Alentejo, a acção deste romance orbita em torno do fatídico amor entre Irisalva e Delfino, brutalmente interrompido por Arménio, irmão de Irisalva. Esta procura na sua relação com Delfino um subterfúgio para escapar ao ascendente do irmão, caracterizado pela repressão psicológica que visa fechá-la no espaço familiar, eliminando a sua vontade própria. Porém esta relação mostra-se trágica pois Irisalva vê-se abandonada por Delfino. Contudo Arménio, num acto de extrema crueldade e selvajaria, tenta vingar a irmã desonrada, ferindo quase de morte o amante e acabando preso. Mas tal como se refere no romance: “assim era a vida, porca de vida, naquele povoado, não só em casa dele, mas por toda a parte, turva de recalques, alimentada por invídias cruéis e represálias escarninhas” (pág. 54).
Nesta obra, UTR mostra a sua solidariedade para com os filhos da miséria, unindo a graça pícara e a uma clara dimensão trágica, encontrando similaridades em Gogol ou Dostoievsky. Claude Michel Cluny, no prefácio à edição francesa mostra que “da realidade amarga em que o livro mergulha pelas suas raízes mais profundas e mais vigorosas eleva-se um cântico despojado que é o de uma universalidade” conseguindo o autor extravasar as fronteiras neo-realistas, sendo influenciado pelo noveau roman que então emergia. Essa influência é visível, sobretudo, na exímia caracterização psicológica das personagens.
Esta obra, segundo o próprio UTR, “ são os camponeses alentejanos, mas são também o Delfino e a Irisalva. Portanto, há uma busca de conciliar uma visão intimista, psicológica e uma relação do eu ao mundo com preocupações sociais cada vez mais fortes. Algo que coincide até certo ponto com alguns livros de neo-realistas como o Carlos de Oliveira e o Manuel da Fonseca” (in LOPES, João Marques, "Entrevista a Urbano Tavares Rodrigues" in Navegações, Lisboa, Centro de Literatura e Culturas Lusófonas e Europeias, vol. 3, nº 1, 2010, pp. 96-98).
Em suma, este romance revela uma clara dimensão universal embora localizado num determinado ponto geográfico. As dúvidas, as incertezas e os desamores que assolam esta terra e estas gentes são um lugar-comum na essência humana, tão bem captada por UTR nestas páginas.
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NOTA: a edição utilizada nesta recensão crítica trata-se da 5ª, publicada pela Editorial Caminho, em 1982.