3,5*
Tomara que não voltemos à normalidade, pois, se voltarmos, é porque não valeu nada a morte de milhares de pessoas no mundo inteiro.
Não é a mesma coisa ler esta obra, redigida a partir de três entrevistas dadas por Ailton Krenak, em plena pandemia, e agora, passados quase seis anos. Agora, é impossível não se ser cínico e perceber que todos os vaticínios de fim de mundo felizmente não se concretizaram, mas também que toda a esperança de uma verdadeira mudança de mentalidades foi igualmente em vão. Não, não nos tornámos melhores pessoas, continuamos a estar todos em cima uns dos outros e aposto que a maioria já espirra à vontade em público e nem lava as mãos quando chega a casa ou antes de comer, quanto mais desinfectá-las…
Com o avanço do capitalismo, foram criados os instrumentos de deixar viver e de fazer morrer: quando o indivíduo para de produzir, passa a ser uma despesa. Ou você produz as condições para se manter vivo ou produz as condições para morrer. O que conhecemos como Previdência, que existe em todos os países com economia de mercado, tem um custo. Os governos estão achando que, se morressem todas as pessoas que representam gastos, seria ótimo. Isso significa dizer: pode deixar morrer os que integram os grupos de risco.
Ainda que esta obra não tenha envelhecido muito bem, gostei desta minha primeira abordagem à escrita de Krenak, activista e resistente, o primeiro membro indígena da Academia Brasileira de Letras, cuja ligação ancestral e umbilical à Terra faz dele uma autoridade em matéria de conservação ambiental. De todas as afirmações que Krenak faz, há uma que transmite uma das minhas convicções: nós não passamos sem a Natureza que estamos a destruir de uma forma suicida, mas ela passa bem sem nós. Quando desaparecemos de um ponto do globo, até do nosso país, é impressionante a velocidade e a força com que ela se regenera.
É terrível o que está acontecendo, mas a sociedade precisa entender que não somos o sal da terra. Temos que abandonar o antropocentrismo; há muita vida além da gente, não fazemos falta na biodiversidade. Pelo contrário. Desde pequenos, aprendemos que há listas de espécies em extinção. Enquanto essas listas aumentam, os humanos proliferam, destruindo florestas, rios e animais. Somos piores que a covid-19. Esse pacote chamado de humanidade vai sendo descolado de maneira absoluta desse organismo que é a Terra, vivendo numa abstração civilizatória que suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de Vida, de existência e de hábitos.