Apesar da dimensão relativamente pequena da sua obra literária, Daniel Faria é um nome incontornável da poesia portuguesa. O bispo D. Carlos Azevedo dizia mesmo que se tratava do "último poeta místico do século XX". Esta nota é especialmente importante, pois "O Livro do Joaquim" abre uma janela para a interioridade de Daniel; como se de uma visita ao seu quarto se tratasse, ao seu espaço mais íntimo, Daniel Faria conduz-nos pela mão precisamente saindo para fora de si mesmo, abrindo o seu mundo, expondo-se e dizendo-se na simplicidade de poucas linhas manuscritas num pequeno e sóbrio caderno dedicado a um amigo.
É um texto que desafia e cativa. É desafiante, na medida em que é difícil de catalogar e inserir numa categoria. Daniel Faria parece rasgar essas barreiras e mover-se com absoluta liberdade pelas diversas formas literárias, abraçando uma e deixando outra com assumida naturalidade. E cativa, pois agarra o leitor pela excelência literária e pela profunda autenticidade do poeta, que fala da sua vida com uma transparência cristalina.
Falando da sua vida, não é uma autobiografia; contendo pequenas narrações de estilo confessional datadas e situadas no tempo e espaço, não é um diário; mergulhando na profundeza da condição humana, não é uma obra filosófica. É, contudo, inegavelmente, uma obra espiritual, sem ser de espiritualidade. A questão de Deus, ou pelo menos o pano de fundo cristão e as dimensões inerentes a esta condição de crente são inseparáveis do autor e, portanto, surgem passivamente nesta obra. Não deve isto afastar os não-crentes, nem apaziguar os crentes. Pelo contrário, deve a todos inquietar. Talvez Daniel Faria seja um mestre - ou numa categoria em que talvez se reconhecesse mais, um peregrino - da inquietude: não aquela que fecha o Homem em si mesmo e o aprisiona no relativismo, mas aquela que impele na busca do sentido da vida humana, da verdade e da beleza, essa "beleza frágil cujo único sentido é empenhar-se na salvação dos homens e do mundo" (Cf. O Livro do Joaquim, p. 69).
Segundo o editor desta edição pela Assírio e Alvim, Francisco Saraiva Fino, esta obra destinava-se à leitura de um só amigo. Talvez isso justifique a familiaridade com que Daniel apresenta o texto e a falta de explicações e de contextos que podem surpreender o leitor. Neste sentido, o fac-símile que abre esta mesma edição vem enriquecê-la, permitindo quase repetir a experiência de uma leitura pessoal do manuscrito em primeira mão, como se fosse destinado unicamente a cada um dos leitores em particular, enquadrando assim a obra na intenção original do autor.
É um livro que vale o tempo dedicado à sua leitura: na pequenez de um reduzido número de páginas, revela a grandeza do autor e do seu olhar apurado que ajuda a abrir novos horizontes de reflexão sobre a condição humana. Em pequenos ditos ou versos, quase semelhantes a aforismos, vislumbramos uma profunda sabedoria que não deve ser entendida como um mero depósito de informação. Pelo contrário, trata-se de uma sabedoria vital, isto é, sabedoria de vida e para a vida. Penso que a de Daniel Faria é uma sabedoria a par daquela que a tradição bíblica nos legou, particularmente nos escritos da reflexão sapiencial (escritos esses que Daniel conhece bem, como atesta uma parte da sua obra poética). Tal como para os sábios de Israel, nenhum assunto é menor para Daniel Faria; o episódio mais comum do quotidiano é lugar e espaço para falar e pensar uma grande diversidade de temas - a vocação religiosa, a vida e a morte, o sofrimento e as paixões humanas, a poesia e a amizade são alguns desses lugares por onde Daniel Faria caminha procurando, mais do que propor respostas, escutar a realidade da vida tal como ela se apresenta. Dado o leque cultural amplo do autor, não é de estranhar que Daniel cite, evoque ou se confronte em diálogo com figuras que vão desde Santo Agostinho a Dylan Thomas ou Salieri.
Creio, portanto, que esta é uma obra que surpreende. É um investimento seguro. Talvez a densidade e a consistência do pensamento próprio de Daniel Faria estejam só agora a ser descobertas. De qualquer modo, este é um livro cuja leitura não deixará ninguém indiferente e que acredito que será fascinante para qualquer leitor, mesmo que nunca tenha aberto outro livro de Daniel Faria.