Esta é possivelmente a antologia mais conhecida do poeta seiscentista brasileiro Gregório de Matos, organizada por José Miguel Wisnik nos anos 1970.
Acho que a minha geração só ouviu falar de Gregório de Matos muito breve e esquematicamente nas aulas de literatura do colégio. E quem gosta de música popular brasileira talvez lembre que parte da letra da canção Triste Bahia, de Caetano Veloso, é baseada num soneto do Boca do Inferno.
Mas a verdade é que Triste Bahia, a canção, com seus cantos da capoeira (ê galo cantou camará etc.), deslocam Gregório de Matos da que me parece ser a real perspectiva do poeta em sua época: a de um homem conservador, profundamente ligado aos valores da metrópole e em franca decadência.
Em especial nos poemas satíricos e políticos, Gregório de Matos gasta muito da sua tinta a denunciar a ascensão de uma elite mestiça ("a tropa do trapo", em oposição à nobreza reinol) e a lamentar o distanciamento (político, econômico, cultural) da colônia em relação a Portugal. O poeta acusa a corrupção dos governantes, dos agentes econômicos e do clero da perspectiva de quem integrou essas castas e delas foi progressivamente deslocado.
Mas literatura não se faz com bons sentimentos, e talvez venha justamente dessa perda de status a poesia mais importante do Boca do Inferno. Ao denunciar com humor e sagacidade o autoritarismo dos governantes, a corrupção de padres e freiras, as negociatas da "máquina mercante", Gregório de Matos criou sonetos e também outras formas poéticas que permanecem com justiça no cânone literário da língua portuguesa.
E, talvez Gregório de Matos não gostasse disso, mas acho que ele é um dos documentos mais importantes do surgimento de uma certa brasilidade crítica, cáustica e debochada que vai desaguar no nosso humor político e até nas marchinhas de carnaval.
Só por isso valeria a pena ler Gregório de Matos, mas é preciso dizer que há nele também amor, sexo, tristeza, religiosidade, escatologia: nada do que é humano é estranho ao Boca do Inferno. E sou obrigado a notar também que nem sempre é fácil compreender a prosódia e o léxico do século 17. Mas, nesse sentido, a edição de Wisnik no geral acerta, embora talvez merecesse mais anotações e uma cronologia mais detalhada.