Há silêncios que devemos aprender a escutar algures na nossa paisagem interior; lugares onde a possibilidade de Deus se mostra e a beleza nos transcende. Lugares de rosas, de pirilampos, de perfumes despidos do bulício do mundo.
Sem diminuir a necessidade vital de agirmos sobre o mundo e pensarmos o outro, é da busca insistente desse espaço do sagrado em nós que versa o mais recente livro de José Tolentino Mendonça. Nele se reúnem textos de livros anteriores, condensados em reflexões e aforismos para a vida. Guardei estes (algumas rosas entre muitos pirilampos):
"Ao lado do pão precisaremos sempre de rosas. Ou melhor: em momentos-chave da nossa existência, se não forem as rosas a sustentar-nos, nem o pāo nos servirá."
"Os intelectuais, certamente bem nutridos de sociologia e de método, insistiram numa abordagem distante da realidade. Nenhum deles se deu conta de que uma chave de compreensão fundamental para o mal estar político, cultural e societário que adoecia o país era o desaparecimento dos pirilampos.”
“ Se tivéssemos de buscar um sinónimo para ‘espiritualidade’, diríamos, sem muito risco de errar, ‘interioridade’.
“Acho que todas as vidas, mais longas ou mais breves, têm o mesmo comprimento: medem todas quarenta e dois quilómetros. Porquê? Porque essa é a extensão de uma maratona.”
“A coisa no mundo mais parecida com os olhos de Deus são os olhos de uma mãe. “
"Nós somos imprevisíveis. Às vezes olhamo-nos ao espelho e, mesmo sem dizer, recuperamos aquele verso de Rimbaud, "eu sou um outro". Quem é este que me olha ao espelho? Olhamos para nós e há uma estranheza de ser que nunca se cura: mas sou assim? que caminho é este? que tempos são estes que me habitam? Somos também um segredo para nós mesmos e temos de aceitar-nos assim. Somos um enigma, uma pergunta e temos de aceitar isso. Caso contrário nunca teremos paz."
“Quando renunciamos à sede é que começamos a morrer. Quando desistimos de desejar, de achar sabor nos encontros, nas conversas partilhadas, nas trocas, na saída de nós mesmos, nos projectos, no trabalho, na própria oração. Quando diminui a nossa curiosidade pelo outro, a nossa abertura ao inédito, e tudo nos soa a um requentado déjá-vu que advertimos como um peso inútil, incongruente e absurdo que nos esmaga.”
“As grandes experiências humanas estão do lado do inefável, do intraduzível, do sem nome, do silêncio.”
“A rotina não basta ao coração do homem. O grande desafio é, em cada dia, voltar a olhar tudo pela primeira vez, deslumbrando-se com a surpresa dos dias.”
PRECISAMOS DE REENCONTRAR O ESPANTO. «Espanto» deriva do latino expaventare, que descreve a forte impressão originada por uma coisa inesperada e repentina. Se procurarmos sinónimos, encontraremos «assombro», «admiração», «surpresa». É o contacto (consciente, fulgurante, desarmado, rendido) com a vida maior do que nós, a vida em aberto, não predeterminada. No espanto, a nova e surpreendente expressão da vida prende a nossa atenção à maneira de um relâmpago, de um rasgão imprevisível. Não conseguimos encaixá-la no nosso quadro habitual, pois o seu carácter inédito torna inúteis todos os saberes.”