Um homem? Uma mulher? Uma travesti? Dentro do livro encontramos esse tipo de questionamento, com longas descrições de sentimentos e emoções sobre todos os pontos de vista. Solange. Claire. Thomas. Laurent. E Mathilda.
Difícil dizer quando o começo da narrativa, fria e sem sal, realmente se torna emocionante. Chuto que seja pela página 83, com a grande revelação de Laurent no meio do jantar em família. Ingênuo eu, ao fim desse arco, a narrativa chata volta sem muitas reviravoltas emocionantes. Me parece mais uma (auto)biografia. Solange não aceita a notícia muito bem e sugere um psicólogo louco que promete a "cura trans" em pouco tempo. Mas a autora falha em desenvolver esse arco e o possível vilão soa mais como um charlatão que anota coisas num caderninho. Então temos Cynthia. Transsexual com vivência e que já passou pela transição hormonal. Se considera uma ponte que leva outras garotas para o caminho da hormonoterapia. Mostrou à Laurent o caminho, e ele seguiu a risca, tomando alguns passos precipitados. E então, começa a hormonização sem que ninguém saiba. Daí em diante, temos rejeição por todos os lados, trabalho, família, amizades. Nenhum dos arcos é realmente desenvolvido, além da personagem principal e seu ego inacabável. Ela passa por cima de todos com uma atitude de cinema e portanto, temos o final, lindo e digno de conto de fadas, com Solange e sua mulher tomando um drink no bar, conversando sobre o quão louco foi o ano. Sem saber a autora deixa diversos arcos sem resposta como a relação Solange-Gaétan, o processo de aceitação de Thomas, como a Claire lida com tudo isso na escola. Num piscar de olhos a Lauren começou o tratamento e está indo fazer a cirurgia sem que ninguém tenha ciência ou que tenha buscado a aceitação social de alguém. É uma história linda de autoconfiança acima de tudo, certo?
Errado. É necessário um ponto de intervenção. Onde consigamos separar as experiências reais das ficcionais, então aqui vai um balde de água fria:
Definitivamente não é assim que acontece. É demasiado surpreendente, causa uma má impressão. Não é o que a gente quer. A gente quer ser aceito. Uma notícia chocante normalmente é levada em partes. Parabenizo a autora pelos meses de pesquisa e imersão, mas a retratação dos sentimentos "trans" (disforia, desconfortos, passabilidade) se tornou muito teatral. Tudo isso no "nosso universo" é muito mais sútil e imperceptível.
No livro, damos de cara com um Laurent em momento de realização, questionando desde já seu real "eu". Esse é o momento de maior expressão, descobrindo aos poucos e dando pequenas, e imperceptíveis, pistas sobre o que se passa dentro de si. Sem desculpas, sem "ciclismos". Só pequenos fatos. Como um "obrigadA" ao invés de "obrigadO" ou comprar desodorante feminino. Nessa realização é muito mais sobre os pequenos detalhes que a real amostragem de tudo. Mas na realidade de Lauren(t), é sobre ir ao ZanziBar, se travestir e voltar pra casa com seus "ciclismos" e fantasias. Ser trans não é uma vida social dupla, é uma vida solitária. Questionamentos solitários e máscaras sociais, é disso que se trata.
Logo na metade do livro, a autora chuta o balde do bom senso e a própria cronologia dos fatos e começa a jogar falsas verdades que, aos olhos dos leigos, pode ser facilmente confundido com os reais procedimentos. Laurent sequer experiencia sua vida como Lauren, no que chamamos de transição social, e já pula direto para a hormonização. Com a ajuda de duas ou três consultas, tem a receita na mão. Mesmo após o fechamento dos arcos, ela se mantém com os questionamentos identitários. Não é assim. Obviamente, os questionamentos aparecem às vezes, mas não tão fortes quanto antes. Isso é sinônimo de incerteza. Palavra inadmissível em qualquer consultório.
O que eu quero mostrar aqui é: aos olhos de quem nada sabe, isso soa verdadeiro. Dá um ar fácil e indeciso da transição. Cada passo acontece em seu próprio tempo, e por experiência própria, digo que é um processo longo. Mas o livro não nos dá essa perspectiva, de que ela é uma exceção a regra.
Por fim, fica aqui uma reflexão: vale tudo pela tão sonhada "representatividade das minorias" ou há limites pra isso?