A meio do século passado já me apercebera, confusamente, que tanto ou mais do que eu estavam doentes as palavras...
“A meio do século passado já me apercebera, confusamente, que tanto ou mais do que eu estavam doentes as palavras. Uma terapêutica, a do alambique, levaria à meditação do branco sobre o branco, e no melhor dos casos ao silêncio. A da ignição, se permitia revelações — nos teus bonitos, banais, olhos castanhos, o favor do seu "verde secreto" — carregava ainda as execráveis maiúsculas "Amor, Aventura, Poesia", e com elas a fantasmagoria do sagrado, a "vida mentirosa, mental". Outra começava em No Reino da Dinamarca, dura e feroz como a abrir nos fora dito: "diamante cruel". Supunha um diagnóstico: o destino como "solidão e mágoa", o "quotidiano não", a vida que "não vivemos", a vizinhança do grotesco normal, do vil decente, e ainda, contudo, o beijo do "jovem amor que recebeu / mandado de captura ou de despejo". Sobretudo, para quem lia ou, pior, escrevia versos, mandava romper com a "poética poesia", afastar os "cabeleireiros de palavras, / pirotécnicos do estupor", lutar contra o "bonito" para fazer "bom". Noutra aparentemente diversa circunstância, quanta merecida e salutar bofetada nos dá O’Neill. Ir, ao contrário, buscar saúde à linguagem doente, no sarcasmo e no jogo, no sem cerimónia e no impuro; e a meio, dizer serenamente algumas verdades decisivas, algumas emblemáticas: que o medo "tudo vai ter" ou o "remorso de todos nós". Mallarmé, — "a tristeza é que não há por lustro um", decerto sob o lustre – não se limitava, não se limita para nós, a reduzir o pobre mundo nosso às sobras do poema; diz-nos antes que a poesia pode e deve atravessar a realidade toda, até ao singular e insigificante, e ao impossível que lhe resiste, tipo mosca Albertina. Tornar-se livro o mundo, é tornar-se mundo o livro, e ainda, não coincidirem nunca.”
António Franco Alexandre in A Phala
Reedição da Assírio & Alvim da obra de Novembro de 2000.
Autodidacta, O’Neill foi um dos fundadores do Movimento Surrealista de Lisboa. É nesta corrente que publica a sua primeira obra, o volume de colagens A Ampola Miraculosa, mas o grupo rapidamente se desdobra e acaba. As influências surrealistas permanecem visíveis nas obras dele, que além dos livros de poesia incluem prosa, discos de poesia, traduções e antologias. Não conseguindo viver apenas da sua arte, o autor alargou a sua acção à publicidade. É da sua autoria o lema publicitário «Há mar e mar, há ir e voltar». Foi várias vezes preso pela polícia política, a PIDE.
Fala a sério e fala no gozo fa-la p'la calada e fala claro fala deveras saboroso fala barato e fala caro Fala ao ouvido fala ao coração falinhas mansas ou palavrão Fala a miúda mas fala bem Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe Fala franciú fala béu-béu Fala fininho e fala grosso desentulha a garganta levanta o pescoço Fala como se falar fosse andar fala com elegância muita e devagar.
Sou tocado pela poesia. Sou profundamente tocado por Alexandre O'Neill. Sim, aquele que escreveu "A Gaivota" para a Amália e que termina "Portugal" com "meu remorso/meu remorso de todos nós". O poeta surrealista, que se aventura, ao longo da meia dúzia de obras, na poesia gráfica, nomeadamente. O'Neill escreve sem pudores. Sem o preconceito estilizado da poesia erudita. Não o encontro em nenhum dos outros poetas que li. Temos a poesia mais clássica, que ressurge os valores da poesia tradicional, que surge com mais frequência nas primeiras obras do autor; e a poesia mais vanguardista, mais surrealista, mais original também, que se identifica com os poemas existentes nas últimas obras aqui colectadas. Na primeira poesia, são ressalvadas - e revividas - as matrizes nacionais. A esperteza saloia, a preocupação com o outro, a experiência misturada com a candura, a ignorância selectiva. No segundo estilo, o irreal, o surrealismo, a metafísica, o vanguardismo invadem os versos o'neillianos. É um poeta para respirar. Para gritar. Para declamar em voz alta. Para gargalhar. Quando Natália Correia disse que "a poesia é para comer" estaria, certamente, a pensar em O'Neill.
Um calhamaço com a obra deste autor para ler ao ritmo que se quiser... depressa ou devagar, lê-se lindamente. É extremamente gráfico e lúdico, não apenas atento ao som das palavras, mas também à forma das letras e sinais de pontuação, brincando bastante com isso. Também gostei da prosa nonsense.
* Flor de acaso ou ave deslumbrante, Palavra tremendo nas redes da poesia, O teu nome, como o destino, chega, O teu nome, meu amor, o teu nome nascendo De todas as cores do dia! *
Adorei alguns poemas, outros fiz um esforço para compreender porém não consegui. Em geral gostei, apesar de não ser dos poetas que mais goste. Seria interessante as pessoas que só conhecem os poemas "Fala" e "Há palavras que nos beijam" entre outros mais conhecidos, que abrissem o livro , eu fiquei pasmada com a quantidade de poemas que não conhecia do autor, sem dúvida alguma valeu a pena, mas não o suficiente para 4 estrelas pois não me emocionou.
Estava a espera de muito melhor do que palavras soltas a balda em páginas e poemas desleixados. Talvez não seja simplesmente o meu estilo mas achei demasiado seco, sem nada que justificasse a minha leitura. Nenhuma arte. Nenhum carácter. Não senti absolutamente nada e adormeci em cima do livro por mais do que uma vez.