Este livro pode ser algo como um orgao de igreja com muitos registros, ou um canivete suico com inumeras laminas, escreve o critico Lorenzo Mammi. Pode ser lido como um guia - perfeitamente compreensivel ao leigo como uma historia sem nomes ou datas, constantemente apoiada em dois elementos o recurso a experiencia acustica concreta e a comparacao com as outras estruturas produtoras de sentido (a lingua, o mito, a sociedade). Para o nao-leigo, apresenta uma rede de questoes (das fisico-acusticas as estritamente ideologicas) que dificilmente se encontrariam, com tamanha complexidade, nos textos especializados. Lancado ha dez anos, em 1989, O som e o sentido inclui agora um CD no lugar da antiga fita cassete.
José Miguel Soares Wisnik é músico, compositor e ensaísta brasileiro. É também professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo.
Graduado em Letras (Português) pela Universidade de São Paulo (1970), mestre (1974) e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada (1980), pela mesma Universidade.
Não é uma leitura fácil, tem muitas notas e referências (O Fausto de Goethe, o Doutor Fausto de Thomas Mann, e mais um monte de Levi-Strauss, Adorno, Lyotard, Jameson, psicanálise, os gregos etc.), mas é uma interpretação fantástica sobre a história das músicas. Destaco o primeiro capítulo, um pouco mais técnico, em que o autor descreve as propriedades do som.
Leitura feita durante pesquisa sobre o cantor Jorge Ben Jor para a tese de doutoramento em sociologia. A partir da hipótese de que o regime de valorização que guinda Jorge Ben Jor a signo de autenticidade e de identidade nacional estabelece intrínseca relação com uma aproximação a raízes do "modalismo" que está na base do samba, chegamos à análise — inovadora e original — de Wisnik, na obra "O Som e o Sentido". Perseguindo a trilha analítica legada por esta obra, dizemos que Jorge Ben Jor "abandona", de certa maneira, algumas das conquistas técnicas da bossa nova — notadamente a aliança entre a estética intimista e a complexidade harmônica — em prol do ritmo de seu violão-tambor, agora com dois ou três acordes tocados a partir do movimento expansivo do braço inteiro. Com isso, sua música desloca o foco da elaboração harmônica e da contenção corporal, típicas do tonalismo, e aproxima-se de matrizes diversas da música modal. Assim como quaresma e carnaval, tonalismo e modalismo são postos como duas epistemes antagônicas: é a estética da arte autônoma [sem função], da primazia harmônica, do controle corporal e do recalcamento dos ruídos em oposição à função ritualística, ao relevo rítmico-percussivo, ao engajamento corporal e à aceitação dos ruídos. . Sumarizando as ideias de Wisnik, poderíamos dizer que a música modal — no interior da qual o autor insere a tradição percussiva do continente africano — é voltada para o ritmo e para a percussão, criando pulsações complexas em favor do engajamento corporal pressuposto por sua função ritual. E é em nome dessa funcionalidade que se desenrolam as características essenciais do modalismo: há uma quebra da linearidade de início, meio e fim que caracteriza os registros fonográficos, em favor do tempo circular infindável conduzido pela percussão e pelo ritmo sincopado. Frequentemente, temos a sensação de que as músicas não têm fim, pois interpelam umas às outras e, por minutos a fio, levam ao engajamento corporal quase hipnótico. Os refrões cantados em coro e de forma repetida aparecem como antífonas que solucionam a aparente desordenação métrica das demais estrofes. Em termos de canto, verificamos o uso de timbres guturais, jodls, ataques de garganta e glissandos. Segundo Wisnik: “instrumentos que são vozes e vozes que são instrumentos”. Todos estes elementos são acionados para criar um envolvimento coletivo e integrado do canto, do instrumental e da dança. . Em outra obra, o pesquisador Paulo da Costa e Silva aproxima o cantor Jorge Ben Jor, em que pese sua flagrante associação quase simbiótica à indústria fonográfica, às estética modais, pois ele conseguiria trazer em sua música toda sorte de "sujeiras" e "ruídos" sonoros inconcebíveis pela matriz "limpa" da bossa nova. Não deixa de ser curioso a utilização do termo "sujeira" — e seu homólogo "ruído", também acionado por Wisnik para caracterizar a música modal — para definir a operacionalização de recursos sonoros recalcados pela bossa nova, pois, ao fazê-lo, o autor admite que a música brasileira de matriz bossanovista instaura critérios de respeitabilidade baseados na contenção dos impulsos corporais, no monocromatismo, no dedilhado lírico e harmonicamente sofisticado, em torno dos quais passarão orbitar seus epígonos. Em outras palavras, a bossa nova é tomada aqui não apenas como um gênero musical, mas também como um sistema de “pureza” que é frequentemente maculado — "sujo" — por Jorge Ben Jor e o modalismo de sua canção. . A análise de Wisnik é perspicaz ao perceber que o movimento operado por Ben Jor, tomado como objeto de estudo nesta pesquisa, não é característica exclusiva de um ou outro cantor. Com efeito, a retomada do modalismo após o pináculo oitocentista do tonalismo é encarada como uma tendência da história da música mundial, como parte de um processo de "desrecalcamento sensual" [termo usado pelo mesmo autor em outra obra, "O nacional e o popular na cultura brasileira] cuja característica fundamental é a retomada da dimensão extática [e não estática] da música, incluídos aí o apelo coloquial, a marca dançante e a primazia dos elementos percussivos outrora negados ou subjugados pela matriz civilizatória hegemônica do tonalismo.
Acho que não tenho metade da educação musical necessária para entender o livro, e muitas vezes os devaneios e paralelos com antropologia e sociologia parecem meio forçados, mas isso não é um obstáculo para admirar a erudição e a paixão de Wisnik pelo universo musical -- de Schoenberg aos pigmeus do Gabão. É certamente um livro a frente do tempo em que foi escrito, uma viagem multimídia que ficou muito melhor com o acesso livre e fácil a todas as referências citadas. Boa viagem!
O som e o Sentido é um livro excelente para os apaixonados por musica e sua história. Não é, como o próprio autor afirma, uma historia da música de forma literal e pedagógica, mas passeia pelos tempo, estilos, compositores, continentes e culturas, desde a origem do som ao que conhecemos hoje como musica de mercado. Não é um livro fácil. Demanda certo conhecimento prévio musical, seja no quesito instrumental, teórico e sonoro. Além de certa intimidade com autores clássicos. Para além desses detalhes, um livro de muitos adjetivos, de uma escrita grandiosa, e que expande todo universo sonoro, trazendo contextos econômicos, sociais e filosóficos dentro da música. Obrigatório para aquele que estuda música, ou é apaixonado por ela.
O comentário do Haymone é muito pertinente: não é um livro fácil. Não tenho educação formal em música, e passei boa parte do livro pesquisando conceitos e anotações na internet. É uma boa "primeira leitura" para quem estiver inserido (ou se inserindo) no meio. É um livro de não-ficção mais difícil do que de costume por tratar de temas que não são geralmente discutidos.
O livro é bem escrito, com muitas passagens interessantes. Se não se prender pelos temas, será preso pelo estilo literário.
O antídoto para todo livro de história da música insosso e pedestre que se reduz a uma lista de compositores, obras e momentos de importância do cânone eurocêntrico.
Recomendo fortemente a leitura auxiliada com a playlist/CD que acompanha o livro, o capítulo sobre a música modal e serial são excelentes por jogarem uma luz em dois períodos distintos e mal explicados da história da música.
nao vo dar estrelinha pq pra falar a verdade, eu acho que nao entendi nada e se vc não tiver educação musical (ou não tiver lido o Fausto do Mann), não lê esse negócio