O título desse livro fornece ao menos uma bússola para dentro desse labirinto impossível. Sombrio ermo turvo é um livro de contos (vamos chamar a forma dessas narrativas todas de contos para encurtar a conversa, mas aqui há o que parecem rascunhos de narrativas, transcrições de sonhos, esqueletos de peça de teatro, microcontos etc.) que parecem orientados prioritariamente para desabilitar qualquer tipo de interpretação, um livro que desencadeia vozes que ecoam o indeterminado. É um tanto ridículo tentar exercer o papel de crítico sabe tudo diante de um livro que parece querer rir justamente dessa posição.
O que interessa a Stigger, a autora, é explorar não o indizível, mas outra coisa. Tome-se como exemplo um relato curto, O boi, no qual um homem chamado Eduardo (nome do atual marido de Verônica, a autora, um nome que se repete em vários outros momentos ao longo da narrativa, como a sugerir que os fatos narrados aconteceram de alguma forma na realidade, ou ao menos levantando esta dúvida) é alertado de que antes de matar o boi deve o fazê-lo sem que o mesmo olhe para trás; mas, antes de disparar o tiro mortal, Eduardo sussura algo no ouvido do animal, fazendo com que o mesmo se vire na hora decisiva; a narradora, e nós, jamais saberemos o que foi sussurado, e não interessa especular sobre o que foi dito. Este mistério, ou esta ideia de mensagem a qual não temos acesso, é o centro do conto, e podemos dizer que é mais ou menos buscando não atingir, mas construir esses vazios, que suas narrativas operam. Mas são vazios não significantes. O objetivo de Verônica não parece ser o de dar munições para as máquinas interpretativas delirarem e produzirem sentidos, mas acabar com qualquer possibilidade de sentido, inviabilizar essa brincadeira. É um convite a ver tudo, no fundo como pista falsa e, ao final, ver estas pistas falsas como a própria superfície dos textos, suas palavras, frases e imagens criadas. Esse procedimento nos convida a reler e reler exaustivamente seus textos, não para procurar a solução para o mistério, mas para visitá-lo continuamente.