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Carta à rainha louca

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Mesclando linguagem histórica e uma crítica profundamente atual, Maria Valéria Rezende cria um romance sem par na literatura contemporânea, no qual mulheres mostram sua força frente às mais impensáveis repressões

Olinda, 1789. Isabel das Santas Virgens, presa no convento do Recolhimento da Conceição, escreve à rainha Maria I, conhecida como a Rainha Louca. Em suas cartas, ela, tida por muitos como também lunática, conta os destemperos cometidos pelos homens da Coroa – e por aqueles que galgaram tal posto – contra mulheres, escravizados e todos os que se encontravam mais vulneráveis. Por meio dos tormentos passados por ela e por sua senhora Blandina, nossa narradora expõe o pano de fundo da colonização brasileira e da situação da mulher que ousava desafiar.
Com uma pesquisa histórica ímpar e usando o vocabulário próprio do setecentos mesclado a uma linguagem moderna, Maria Valéria Rezende recria com maestria a história de duas mulheres em um período conturbado do passado brasileiro. Como promete à rainha, Isabel conta “toda a verdade sobre o que em Vosso nome se faz nestas terras e a mim me fizeram.”

144 pages, Paperback

First published January 1, 2019

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About the author

Maria Valéria Rezende

44 books56 followers
Maria Valéria Rezende nasceu em 1942, em Santos (SP), onde morou até os 18 anos. Em 1965 entrou para a Congregação de Nossa Senhora - Cônegas de Santo Agostinho. Sempre se dedicou à educação popular, primeiro na periferia de São Paulo e, a partir de 1972, no Nordeste. Viveu no meio rural de Pernambuco e da Paraíba e, desde 1986, mora em João Pessoa. Já esteve em Angola, Cuba, França e Timor, entre outros países, convidada a falar sobre seus projetos sociais. Maria Valéria estreou na ficção em 2001, com o livro de contos Vasto mundo. Depois, escreveu livros infanto-juvenis e o elogiado romance O Voo da guará vermelha. A autora, que costura referências das culturas erudita e popular, “é uma revelação em nossas letras”, como disse Frei Betto.

A experiência de Maria Valéria com a dor do analfabetismo e também com a educação de jovens e adultos foi o mote para O voo da guará vermelho. “Uma personagem se apaixona por aprender a ler e a outra descobre um sentido para sua vida, ensinando”. A autora constrói no livro o encontro de Irene, uma nordestina que vira prostituta em São Paulo, com Rosálio, um servente pedreiro. Dona de uma escrita inventiva e conhecedora da realidade de “Rosálios” e “Irenes”, Maria Valéria fez uma obra poética e forte, que dispensa trivialidades.

Nos contos de Vasto mundo, seu primeiro livro, Maria Valéria apresenta “causos” do povo nordestino, em que trata de amores e dores, da geografia local e da crença fácil no que transcende o explicável. A autora também escreve para crianças e jovens, tanto poemas quanto histórias ficcionais, em que aborda temas como o medo, a lealdade e as relações sociais, sempre com humor e criatividade.

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54 (35%)
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49 (32%)
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10 (6%)
1 star
2 (1%)
Displaying 1 - 24 of 24 reviews
Profile Image for Alejandro.
54 reviews
May 2, 2019
Sou um amante da literatura de Maria Valéria Rezende. Mergulhei na aventura que ela propõe em "Carta à rainha louca" com sede de sua prosa. A premissa da obra é interessante, fugindo ao que se tem feito na literatura brasileira contemporânea. No ano de 1789, Isabel das Santas Virgens, prisioneira de um convento, escreve à rainha Maria I, conhecida como Rainha Louca. Em suas cartas, divididas em quatro partes, tomamos conhecimento do que levou à sua prisão e recebemos uma descrição do período (as mazelas do povo, a opressão de Portugal, a escravidão, o machismo intrínseco à sociedade, etc).
Ainda que a prosa de MVR seja impecável, que o estilo empregado na obra e a enorme pesquisa histórica realizada para a concepção de "Carta à rainha louca" também fiquem evidentes, o livro é refém justamente das opções estéticas feitas pela autora. Não são poucos os momentos que a leitura fica cansativa. As quatro cartas que compõem as partes do livro são tão extensas que a mínima piscada pode fazer o leitor se perder na quantidade de informações que a protagonista oferece, tendo que retornar trechos para compreender o que ela quis dizer (parte disso também é resultado da própria concepção da personagem, que enclausurada e não vendo mais que a pouca luz que entra pela janela da cela passa a ter a mente atribulada, efeitos do aprisionamento, por exemplo). E isso não chega a ser raro, já que não existem diálogos.
Não pense quem me lê que não indicaria sua leitura, mas é preciso sinalizar que ela não possuirá ritmo acelerado, o que pode dificultar para quem procura uma obra mais ágil. É indicado a qualquer um, mas especialmente a quem romances históricos são uma fixação. As três estrelas aqui são, na realidade, 3 e 1/2 (alô, Goodreads, vamos permitir notas quebradas?).
Profile Image for Iara Couto.
108 reviews19 followers
October 15, 2023
3,5 ⭐
A linguagem escolhida e a pesquisa histórica são impecáveis. Já a narrativa em si, parece que se perde em algum momento. Gostei mais do início do que da metade pra frente.
Profile Image for Tiago Germano.
Author 21 books125 followers
May 20, 2019
Romances epistolares, apesar de possuírem a carta como suporte e o destinatário como referente, costumam optar por fazê-los gradativamente desaparecer em meio aos fatos narrados. A carta já não se parece mais uma carta - este solilóquio registrado em papel, destinado a um único leitor - e o romanesco acaba por se sobrepor à interlocução com o destinatário, nos dando a saborosa ilusão de que aquela carta talvez também se destine a nós. Tomemos "Werther", por exemplo. O relato de seus sofrimentos são dirigidos a Wilhelm, mas ao final pouco nos lembramos desta figura e de que se trata de um romance epistolar - o que fica são as desventuras amorosas do protagonista, encantado com uma mulher casada: Charlotte. Em "Carta à Rainha Louca", isso demora a acontecer. Até a "Parte 3: 1791" (p. 55), o romance me parece um refém engessado do suporte (a carta) e do seu referente (a rainha Maria I). Isso se reflete sobretudo na linguagem: que reproduz tal e qual a sintaxe da época (séc. 18), e talvez por essa fidelidade acabe se tornando excessivamente monótona e cansativa. As rasuras nas passagens que denunciam com maior agudeza as arbitrariedades da Coroa até ajudam a mitigar essa sensação, mas num determinado ponto vão se tornando previsíveis e insuficientes. Alguns momentos até me chamaram atenção nestas primeiras partes (como a relação da protagonista enclausurada com o sagui), mas a grande predominância das narrativas que guardei vêm das partes consecutivas, e seu desenrolar tardio dão a impressão de que elas são feitas de maneira um pouco apressada, em detrimento de todo o exercício de linguagem do início. Senti falta da triangulação entre os personagens da narradora, Blandina e Diogo Lourenço, desde o início, que diminui ainda mais quando o romance flerta com o "Grande Sertão: Veredas" e Isabel das Santas Virgens se torna uma espécie de Diadorim nordestina. A quem tiver fôlego para chegar até esta parte, o romance reserva boas surpresas e uma experiência narrativa mais rica.
Profile Image for Marcos Faria.
234 reviews14 followers
June 4, 2019
O melhor do livro é a deliciosa prosa pseudobarroca de Maria valéria Rezende, que contribui em muito para dar verossimilhança às peripécias da narradora, mesmo quando abusam do rocambolesco. Essa virtude é ainda mais ressaltada nos trechos autocensurados, em que Isabel percebe que pesou demais a mão nas críticas à sociedade, à igreja e até mesmo à rainha Maria I, a quem se dirige suas esperanças.

Um ponto fraco, aliás comum em romances históricos, é o didatismo em alguns trechos. Outro, mais grave, é o tratamento dado aos personagens negros: sejam eles escravos ou forros, são sempre dóceis ajudantes, leais a seus mestres brancos.
Profile Image for Adriano Lanna.
9 reviews3 followers
November 29, 2020
Nota: 8,5.

Carta à rainha louca, de Maria Valéria Rezende, é uma pequena gema da literatura brasileira contemporânea. Escrito em forma epistolar, o livro é o relato de Isabel das Santas Virgens, uma mulher que se encontra presa no Convento do Recolhimento da Conceição em Olinda e que se dirige à Rainha Maria I por ela ter, em si, duas qualidades que dificilmente coexistem em um indivíduo do século XVIII: ser mulher - consequentemente com a capacidade de entender as agruras pelas quais as mulheres passam na sociedade brasileira da época - e ter o poder de alterar sua realidade, pelo fato de ser uma rainha.

O livro é composto de quatro partes e é belamente escrito. A autora consegue muito bem emular uma linguagem de certa forma rebuscada e compatível com o escrever da época e, ao longo de todo o livro, faz diversas reflexões sobre o papel da mulher na sociedade patriarcal brasileira do século XVIII.

Tratando-se de uma carta, é comum encontrarmos frases riscadas foras pela narradora, o que é feito quando ela acha que está falando mais do que gostaria, e, embora isso possa parecer um pouco desnecessário no início, torna-se um interessante recurso para mostrar o cuidado socialmente imposto que as mulheres tinham que ter quando se manifestavam sobre questões que deveriam ser deixadas para os homens.

Nas primeiras duas partes do livro, a leitura é um pouco arrastada e serve para contextualizar a forma de pensar da autora, as dificuldades que ela teve após ser presa para conseguir tinta e papel, e para explicar o porquê de ela estar se dirigindo à Maria I. Em alguns momentos, senti que a leitura se alongou um pouco mais do que o necessário, mas como várias das reflexões do livro eram interessantes, isso não atrapalhou o livro. A partir da terceira parte, o livro se volta mais à história de Isabel e de sua amiga Blandina, e, daí em diante, a leitura fica bem mais fluida.

Não só a história contada é interessante e prende o leitor, como também as reflexões feitas ao longo do relato, a forma epistolar e a utilização de rasuras em certas frases trazem um quê de novidade neste livro da Maria Valéria Rezende. Por fim, não há como deixar de se elogiar a escrita linda e escorreita da autora, que chamam a atenção pelo cuidado e esmero, demonstrando que a autora fez uma profunda pesquisa histórica para utilizar expressões insólitas e objetos típicos da época.
Profile Image for Kalil Zaidan.
301 reviews17 followers
February 14, 2021
um singelo livro q tem muito a dizer. adorei a recriação da linguagem q a autora fez, realmente a atenção ao vocabulário, ao modo como se constroem as frases e aos trejeitos dão a impressão da antiguidade do relato, mas os trechos riscados, apesar de ainda contarem com a mesma linguagem, nos fazem lembrar da modernidade dessa obra. a história dessa protagonista é certamente a história de muitas mulheres do passado e do presente, abordando as limitações e as pressuposições sobre a mente feminina q já fizeram muito estrago. foi um ótimo exercício de romance histórico com abordagem contemporânea, selo MVR de qualidade. só não me emocionou nem impactou tanto como QUARENTA DIAS e alguns meandros da trama foram um pouco sem sal
Profile Image for Gabrielle Cunha.
439 reviews116 followers
October 16, 2023
3,5. Não amei mas também não odiei. Finalizei o livro sentindo falta de algo, difícil explicar. A história em si é bem interessante, especialmente se analisar a questão feminista dele. Mas a sensação é que ficou faltando algo na história, não sei…
Profile Image for Maria Fernanda.
63 reviews4 followers
June 21, 2025
não conhecia a autora. mas que bom que de alguma maneira ela apareceu pra mim. fiquei encantada. gostei da história. recomendo.
Profile Image for Ítalo Andrade.
160 reviews10 followers
December 23, 2024
Meu primeiro contato com a autora e infelizmente não foi dos melhores.

O livro tem uma boa premissa e um enredo interessante que nos deixa curioso em saber: o que a remetente das cartas faz enclausurada? O que aconteceu com ela? Qual(is) delito(s) ela cometeu para estar em tal situação? A escolha da autora por elaborar um romance epistolar nos deixa ainda mais próximos de sua personagem pois estamos lendo, na íntegra, a um documento desconhecido por todos: as cartas que Isabel deseja enviar à rainha Maria I (conhecida como rainha louca). Isabel compartilha de sua escrita, intimidade e segredos com nós, os leitores, antes mesmo de seu próprio destinatário.

Acredito que o ponto mais forte de todo o livro é a pesquisa realizada pela autora para compor o contexto histórico, político e social do Brasil colônia. Sua narrativa funciona como um verdadeiro documento onde a autora nos relata, de maneira crua, a situação do Brasil enquanto colônia de Portugal, a tratativa com mulheres no século XVIII, a situação dos escravizados e a influência que a igreja exerce na população. Dessa forma, Isabel, por meio de suas cartas, denuncia não só sua situação, como também a de todas as camadas da sociedade colonial brasileira. A pesquisa histórica da autora foi impecável.

Entretanto, a narrativa apresenta muitos problemas. As cartas são longas e confusas, o que nos faz refletir sobre o seguinte: para quem Isabel escreve? Será de fato para a rainha? O que Isabel procura com sua escrita? Registro? Justiça? Paz? Os objetivos de Isabel ficaram confusos e a construção da personagem também, haja vista que acompanhamos, no início, uma Isabel racional e sã que vai definhando ao longo da narrativa até se tornar uma "louca".

A última carta é uma verdadeira bagunça com uma rápida sucessão de fatos inesperados, completamente opostos ao ritmo empregado nas três primeiras. O livro poderia ter sido BEM melhor estruturado e apresentado um final mais "concreto", até porque, todos os sentimentos de Isabel (principalmente a injustiça) foram bem expostos ao leitor de forma concreta.
Profile Image for Nathalia Mel.
39 reviews4 followers
April 2, 2020
Esse é um livro de ficção história onde Maria Rezende desenvolve uma trama crítica do Brasil no século XVIII, com base numa carta escrita por Isabel para a rainha louca de Portugal, Maria I. O livro é como um diário que Isabel guarda desabafos, tristezas e solidão. Isabel é branca e pobre, e por não possuir dote não serve para o casamento. Então acaba se tornando uma mulher sem utilidade na sociedade e isso traz muitas angústias. Considerada louca por todos, ela acaba se aproximando da rainha louca por acharem ambas incompreendidas. A autora foi muito criativa levando muitos questionamentos sobre a histeria das mulheres, e explorando também problemas naquele período de exploração portuguesa no Brasil. Há muitas citações sobre a igreja Católica, onde Isabel ficou confinada, e sobre a escravidão. O único ponto negativo foi que a autora só estendeu com fatos ficcionais a carta, então está virou somente uma carta bem grande. Com isso, achei um pouco cansativo a leitura, onde vários trechos se repetem.
Profile Image for lila.
219 reviews8 followers
May 22, 2020
Até gostei mais do que achei que ia gostar da linguagem do texto, que conseguiu me envolver muito. Mas, no final, eu fiquei de saco cheio do nível de comiseração da Isabel, meu Deus do céu! Parece que uma frase sim, uma frase não, é ela dizendo que ela é uma pobre coitada, e que ninguém sofre tanto quanto ela...
Acho que com certeza tem uma questão sobre o retrato das mulheres negras e indígenas nesse livro. Toda a mensagem de "união feminina" do livro não inclui nenhuma mulher não-branca, além de que a Isabel constantemente coloca o seu sofrimento como igual ou pior do que o das pessoas escravizadas. Essa parte me deixou com uma pulga atrás da orelha.
Também acho que o tema da loucura poderia ter sido explorado mais. Mas gostei bastante do final, do estilo e surpreendentemente (porque eu nunca leio esse tipo de coisa) fiquei super envolvida!
Profile Image for Roud Faria.
116 reviews1 follower
June 11, 2021
Um livro chocante e cruel sem perder a ternura da escrita de Maria Valéria Rezende. Muitas pessoa falam sobre a mistura da linguagem barroca/ contemporânea que o livro traz na escrita das cartas da personagem central do livro; na verdade, parece-me que este é um fator determinante para definir a beleza dele para muitos leitores. A meu ver, o que define o livro é a narrativa fatídica e sistemática de machismo aplicado sobre as mulheres em um momento histórico no qual as mulheres não tinham voz para reclamar tais abusos. Com poesia, cuidado e responsabilidade, a escrita da autora nos narra como ficção, memória e fatos históricos as injustiças que as mulheres sofreram causadas pela “loucura” advinda da vida em um mundo feito para que os homens fossem servidos.
Profile Image for Jaime Lerner.
Author 4 books1 follower
March 22, 2021
Romance que começa com uma intensidade promissora, tanto em relação à escrita, quanto em relação à trama que se desenvolverá. Porém o estiloso fervoroso ( completamente justificado pela personagem e sua condição) começa a dar voltas em torno de si mesmo e passa a cansar e a trama que promete criar uma história sobre a coragem e a condição feminina no passado, torna-se quase um folhetim. Para mim prometeu muito e decepcionou.
Profile Image for Mia.
65 reviews44 followers
December 29, 2019
A segunda metade é bem desenvolvida. A primeira, apesar de servir como base para compreendermos quem é a narradora e qual é o contexto da época, é arrastada e enfadonha (ainda que historicamente acurada, já que possui o tom certo, condizente com os escritos daquele tempo).
10 reviews
October 16, 2022
Difícil pegar no começo, mas depois que começa a segunda parte do livro, impossível não terminar de ler
Profile Image for André Martins.
22 reviews8 followers
September 27, 2020
Como outros resenhistas notaram, a autora conseguiu simular elegantemente o estilo da literatura luso-brasileira da época "barroca" (isto é, do século XVII até início do XIX), sempre fazendo amplas concessões à linguagem moderna quando os usos antigos pudessem ameaçar a compreensão pelas leitoras; me contrariou especialmente que, num texto tão bem trabalhado e estudado, não se tenha simulado também a colocação pronominal arcaica, o que daria todo um sabor especial à reconstituição. Fico indeciso sobre se me incomodou tanto quanto a outros leitores a martelação da antítese entre o puro coração da narradora e seus companheiros e as truculências infernais do Brasil-Colônia, mas acho interessante na medida em que reproduz também o estilo de pensamento "barroco". Me pergunto também se não foi proposital o tratamento pouco complexo das personagens negras, no sentido de dar realismo à psicologia de uma mulher branca que, simpática aos negros, não os consideraria seus iguais para além de um plano declamatório - uma característica persistente da narradora é o orgulho que tem de sua inteligência e de sua habilidade com as letras, o que até comporia bem com certo menosprezo da gente mais simples, algo que inclusive inclui a sinhá Blandina, sua senhora/irmã de criação insistentemente caracterizada como a mais singela das almas. Isso naturalmente não diminuiu meu incômodo. O livro peca indiscutivelmente, como já notaram, por um didatismo um pouco irritante - a entrada da Inconfidência Mineira no enredo, por exemplo, me pareceu inteiramente dispensável. De todo modo, um romance histórico bastante bem feito e, nas partes boas, que são muitas, empolgante.
Profile Image for Jordana.
22 reviews2 followers
January 15, 2021
Neste romance epistolar narrado pela protagonista, Isabel das Santas Virgens, relata-se a história de uma mulher branca e pobre, descrita como "sobrante" pela autora, "que nada servem para o trabalho nos canaviais e nas minas nem para parir crias cativas para seus senhores, sem dote para casar -se nem para tornar-se minhas nos mosteiros ou em simples recolhimentos desta terra" e, portanto, "nada valem".

A narração da estória de uma perspectiva dos pequenos, cuja voz não era ouvida nesse período e pouco foi reproduzida nas narrativas históricas formais, permite o contato direto da vivência de grupos minoritários nessa época. De maneira fictícia, mas claramente repousando em uma densa pesquisa histórica, é exposta a vida nos engenhos desde a senzala até a casa grande, bem como o comércio informal nas cidades brasileiras, além da vida em clausura na qual se encontra no momento inicial da carta. Pode ajudar a sanar os curiosos acerca de onde radicam os preconceitos que até hoje persistem na nossa sociedade.

A escolha da narração em epístola, pra mim, de início foi misteriosa e não fez muito sentido, por ser in media res e por conter excessivamente os pormenores da aventura da heroína. No entanto, a autora conseguiu unir as pontas do começo e do final de maneira majestosa que valeu a pena a confusão que me incomodou no início do livro. De qualquer forma, é uma leitura que recomendo pela possibilidade de enxergar de maneira tão escancarada a vida colonial a qual eram sujeitos os desaventurados por não serem homens brancos de alguma posse.
Profile Image for Martha.
144 reviews55 followers
February 12, 2021
Todo o livro é uma grande carta, escrita por anos contando as agruras de Isabel. Só que Isabel é muita gente e está cercada de outras mulheres em situação pior ou pouco melhor. Isabel vem no papel de branca sem dote, ou seja, não serve para casar e nem para ser escrava e vai ficando num limbo da época, fins do século XVIII em Minas. Ela vai se virando como pode e desfiando para Maria I, com direito a trechos rasurados onde ela "fala mais do que deveria". O que na verdade é a carta toda, uma mulher nunquinha deveria estar nessa posição de escritora de cartas reveladora de costumes horríveis, logo deve ser louca como a rainha a qual se dirige. E sobre isso trata todo o livro, costumes machistas e classistas, pelos olhos de uma mulher que sobrou num espaço que não a recebe. Entre, convento, prisão e estrada, não há sossego real.
Profile Image for Roberta Gomes.
79 reviews
January 16, 2021
"Sinto e sei que a única cousa que me pode manter sã a mente, de sorte que eu não naufrague para sempre no mar encapelado dos meus delírios, é o esforço de ordenar as palavras em meu pensamento e no papel, não importando para nada se são verdadeiras — daquela verdade que querem os inquisidores e os juízes — ou se são apenas a verdade do meu desejo e do meu sonho, da liberdade de pensar, que outros consideram insanidade, mas que teima em medrar no mais recôndito de qualquer mulher." p.44
Profile Image for Fellipe Fernandes.
224 reviews16 followers
March 21, 2021
Um romance histórico, cuja crítica se da justamente porque tem, em sua narrativa, um olhar feminista para o século 18 no Brasil. Usando linguagem histórica e a retórica atual, a autora conduz o leitor por uma revisão que nos permite experimentar, de forma empática, o apagamento sócio-sentimental do que era ser mulher naquela época e o que disso ainda persiste hoje. Eu, particularmente, achei alguns trechos muito repetitivos, o que deixou o livro com ritmo inconstante. Mas valeu a experiência de um bom - e nada mais que isso - livro.
11 reviews
April 12, 2021
Gosto muito da escrita e do ritmo que a autora coloca em seus livros, com trejeitos locais e quase com uma fluência de fala. Aqui não é diferente, ainda que enriquecido por muita pesquisa e uma coleção enorme de dados e situações históricas. Porém, apesar de toda o arcabouço criado, achei um tanto monótono no seu desenvolvimento e a leitura se leva muito pesada.
Profile Image for Mario Soares.
220 reviews5 followers
December 8, 2020
A narrativa, embora primorosa do ponto de vista da recriação da linguagem setecentista, se arrasta, cansa, fatiga por suas breves (¡louvado seja Deus!) 143 páginas.
Profile Image for Isabel Melo.
13 reviews
January 19, 2026
Fiquei na página 50 durante cerca de um ano, por conta do ritmo algo repetitivo e sem sentir que avançava na história. Quanto retomei a leitura senti - até ao final - que a autora conseguiu situar o leitor e desenvolver a narrativa de uma forma mais interessante.
Um livro muito bem escrito e que aparenta ser resultado de uma aturada pesquisa histórica, mas quiçá algo maçador para o leitor menos entusiasmado com questões e romances históricos.
Displaying 1 - 24 of 24 reviews

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