Situados no contexto da cidadezinha mineira, onde tudo transcorre sob o imperturbável sol da mesmice, os sete contos de 'A Boca do Inferno' têm em comum o mergulho vertical no insólito. Aquele instante de exceção em que a estrutura da vida comunitária, selada em antigos ritmos religiosos e secretos pactos de família, súbito vem a pique. Não por acaso, seus protagonistas são invariavelmente meninos e meninas que, de uma hora para outra, se vêem subtraídos da lisa superfície dos dias e precipitados no turbilhão inesperado da existência. Essas narrativas flagram, de forma definitiva, o momento de não-inocência inscrito no coração da infância; porém, mexem nessas águas profundas com a simplicidade de quem discorre sobre coisas do dia-a-dia.
Nasceu em São João del Rei, Minas Gerais, em 1922, e morreu no Rio de Janeiro no final de 1992. Formado em direito, exerceu diversas profissões, de professor a adido cultural em Bruxelas e Lisboa. Jornalista, trabalhou em diversas publicações enquanto burilava uma relativamente pequena, porém significativa, obra literária. É autor do romance O braço direito, de coletâneas de contos como O lado humano, de reuniões de perfis jornalísticos como O príncipe e o sabiá, entre outros títulos.
Não tem um conto ruim, não tem nem um conto mediano, são sete contos excelentes com um posfácio também excelente que dá um panorama histórico e explica a recepção da época. Apesar de ter adorado todos os contos eu amei especialmente "O Porão", o homem simplesmente sabe escrever.
Os contos de Otto Lara Resende são assentados no conservadorismo violento rural que define a sociedade brasileira e que, aqui, é dirigido frontalmente contra a geração futura, visto que todos os protagonistas são crianças assombradas por essa crueldade adulta que está sempre à espreita. E a prosa é direta, por vezes excruciante, e que atribui a essas crianças um viés psicológico atormentado que escapa a aspectos lúdicos e as molda de acordo com o contexto que estão inseridas, seja para buscar uma saída dessa miséria moral pela via fatalista, seja para elas mesmas se tornarem o instrumento de continuidade dessa verve violenta. Os contos "Namorado morto" e "O moinho" são os grandes destaques.
Tinha lido O Porão para uma oficina de contos e gostado. O livro todo tem a mesma vibe: perturbação e mineiridade. É bom, muito bem escrito e as histórias são assustadoras.
Faço minhas as palavras de Rubem Braga: “Acho o Otto um dos melhores contistas do Brasil, embora não goste muito de ler seus contos, porque são tristes.”
Um verdadeiro doce das Minas Gerais. Bem preparado, ingredientes sempre frescos, tempero na dose exata. Não se percebe a mão do cozinheiro. Emoção é o único ingrediente exagerado.