Num enorme salão deitado num caixão jaz um ditador africano. Está morto, mas vê, ouve e pensa. Assim estirado, aprisionado num corpo sem vida, mas na posse das suas faculdades intelectuais, só lhe resta entreter-se a recordar as peripécias vividas com muitos dos que lhe vieram dizer adeus, entre os quais se encontram diversos familiares, a primeira-dama (e as outras mulheres e namoradas), os numerosos filhos e as altas dignidades do Estado. Ao relembrar a sua vida, o percurso que o levou a presidente e os muitos anos como chefe de Estado, vai-nos revelando os meandros do poder político, o nepotismo que o corrói e os vários abusos permitidos a quem o detém.
E, como percebe tudo o que se passa à sua volta, e é muito difícil a um ditador deixar de o ser, Sua Excelência não só vai tecendo considerações sobre os presentes e os seus interesses políticos, como tenta adivinhar os seus pensamentos e maquinações. Pois, mesmo morto, não deixará a sua sucessão em mãos alheias, e nela tentará imiscuir-se através do seu espião-de-um-olho-só, que lhe é tão fiel na morte como era em vida
Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos is a major Angolan writer of fiction. He writes under the name Pepetela.
A white Angolan, Pepetela fought as a member of the MPLA in the long guerrilla war for Angola's independence. Much of his writing deals with Angola's political history in the 20th century. Mayombe, for example, is a novel that portrays the lives of a group of MPLA guerrillas who are involved in the anti-colonial struggle, Yaka follows the lives of members of a white settler family in the coastal town of Benguela, and A Geração da Utopia reveals the disillusionment of young Angolans during the post-independence period. Pepetela has also written about Angola's earlier history in A Gloriosa Família and Lueji, and has expanded into satire with his series of Jaime Bunda novels. His most recent works include Predadores, a scathing critique of Angola's ruling classes, O Quase Fim do Mundo, a post-apocalyptic allegory, and O Planalto e a Estepe, a look at Angola's history and connections with other former communist nations. Pepetela won the Camões Prize, the world's highest honour for Lusophone literature, in 1997. Pepetela is a Kimbundu word that means "eyelash," as does "pestana" in Portuguese. The author received this nickname during his time fighting with the MPLA.
Livro mais recente do Pepetela (até ao momento) que se dirige aos pensamentos e memórias de um presidente.
Este presidente está morto e jaz no caixão, onde decorre o seu funeral. Mas tudo ouve e tudo vê, na medida do que lhe é possível. Cria-se uma reflexão dos tempos de mocidade da personagem, de quando andava no Nindal e era o melhor atirador de longa distância, sniper. Das suas mulheres e filhos que deixou por esse país fora. Das rivalidades dos outros ministros, de quem lhe sucede ao poder. Só o seu fiel espião-de-um-olho-só lhe percebe os pensamentos e consegue comunicar com ele mesmo estando morto, espião esse que sempre zelou pelos seus interesses e lhe transmitiu em vida todas as informações necessárias relativamente a família e oposição. O mesmo fez até ele ser enterrado...ou enlixado.
Um ditador morre inesperadamente da «maligna», como o próprio diz, e vai acompanhando o próprio velório, observando a mulher, as amantes, os filhos e os políticos que o rodeiam. É um livro muito bem humorado, sobre o poder e o temor e interesse que desperta. Podia ser sobre qualquer ditador africano, sobre o engano das massas, a corrupção, o nepotismo e até as suas relações amorosas múltiplas e provas de virilidade e poder, mas, quando se lê, especialmente neste momento, só me lembro de José Eduardo dos Santos, e até de Putin, que ainda não morreu.
Um ditador morre inesperadamente da «maligna», como o próprio diz, e vai acompanhando o próprio velório, observando a mulher, as amantes, os filhos e os políticos que o rodeiam. É um livro muito bem humorado, sobre o poder e o temor e interesse que desperta. Podia ser sobre qualquer ditador africano, sobre o engano das massas, a corrupção, o nepotismo e até as suas relações amorosas múltiplas e provas de virilidade e poder, mas, quando se lê, especialmente neste momento, só me lembro de José Eduardo dos Santos, e até de Putin, que ainda não morreu.
(PT) O presidente de um país africano descobre que está morto, e nos dias entre o seu falecimento e o funeral, passa em revista a sua vida, desde as origens humildes, passando pela tropa, a ascensão ao poder e quem ele contava para lá se manter até à sua morte. Por ali passam diversas personagens, desde os seus camaradas de armas, às pessoas que mais confiava, como o espião-de-um-olho-só, aos seus filhos, nascidos de muitas mulheres. E as lutas de poder que seguiram à sua morte e do qual apenas obeserva, imóvel, no seu caixão, no seu salão com ar condicionado. E com um final surpreendente.
Para o autor de "Mayombe" e "A Geração da Utopia", "Sua Excelência, de Corpo Presente" parece ser uma história sobre o inevitável fim de uma geração que lutou para se livrar do colonialismo e depois da independência, se embriagou do poder. Agora, que está a assistir ao seu ocaso, vai ter de lidar com um povo liberto daqueles que não os deixavam falar.
Contudo, para quem leu "Mayombe", "Yaka" ou a "A Geração da Utopia", não é das melhores obras da sua carreira. Por vezes, o narrador se dispersa nos seus pensamentos - mas se calhar faz parte da narrativa - mas não é uma obra entusiasmante. Talvez o autor foi apanhado pelo tempo, como o narrador do livro, mas vale pelo exercício. Já li melhor de Pepetela, e coloco as suas obras mais leves - como as do Jaime Bunda ou "O Cão e os Caluandas" - numa classe à parte.
(EN) The president of an african country finds out that he is dead, and in the days between his death and his funeral starts to revisit his life, from his humble origins to the power, passaing through the army, and tells who he trusted to maintain on the throne until he died. To tell that, he presents us several caracters, from his numerous kids, from several wives, to his most trustful people, including an "one-eyed spy". As he tells his story, outside, things are happening at a very fast pace, and the end is an unexpected one.
For the author of "Mayombe", and "The Generation of Utopia", "His Excelency, Lying in State" (my english title), is about the story of the inevitable end of a generation that struggled for the end of colonialism and after independence, got drunked by power. Now, at its dusk, is watching a new generation that revolts against the rulers.
I read "Mayombe" and Yaka", and this book is not an enhtusiastic one. He wrote better books, and this one is not one of them. Maybe age has caught him, like the narrator of its book, but is nice to see such an excercise.
A brincar a brincar podem escrever-se coisas muito sérias. É o caso: uma sátira certeiramente violenta e violentamente certeira a respeito (e sem qualquer respeito!…) de “certos regimes” de que, infeliz e inaceitavelmente, o angolano é um dos principais exemplares. Recomendo vivamente!
Livro interessante e com uma perspectiva muito original, uma característica do autor, dos melhores de língua portuguesa. Gostei ... mas tive pressa em terminá-lo porque a temática estava demasiado atual para o meu gosto ...
Obra de ficção mas que encaixa na perfeição num sem número de ditaduras espalhadas por esse mundo fora. Uma interessante crítica social que, sem apontar o dedo a um único país ou presidente, poderá ser “adotada” por muitos.
A ideia é interessante e a narrativa por vezes divertida. Outras vezes um pouco maçuda. São estilos, mas em termos gerais gostei da leitura.
Um relato interessante sobre a corrupção, o compadrio e outros desvios de governos que tentam aparentar ser democráticos. Falta um glossário dos termos angolanos.