este livro talvez exigisse uma review mais complexa do que estou com disposição de fazer.
é uma boa sequência para o retorno a reims e elucida muitos dos tópicos que eribon tratou naquele primeiro livro, inclusive trazendo momentos brilhantes quando aborda os "trânsfugas de classe" (uma temática que justamente primeiro me atraiu para a escrita e o pensamento de eribon - por me sentir também, como Nizan - que ele tanto cita neste livro - um trânsfuga de segunda geração que tenta compreender os esforços do próprio pai na sua viagem à burguesia e tenta colocar a história da própria família em perspectiva a partir disso). mas o livro talvez perca a força para mim (talvez possa ascrescentar aqui: enquanto latino-americano), por ter como foco principal a análise de livros franceses que apesar de acrescentarem a tudo aquilo que eribon tem a dizer, tratam de uma perspectiva particular, e acabam tomando muito do tempo do autor em sua análise e citação - em alguns momentos o livro mais parecia uma resenha crítica desses livros do que um livro por si só, individual, com ideias novas.
há muitas passagens ótimas, entre elas destaco aquela em que ele fala da eterna juventude homossexual, por assim dizer, transportando a ideia de infantilidade dos artistas de freud para os homossexuais e trazendo o conceito de idade social:
"Assim, essa ideia de que os artistas conservam «necessariamente», na idade adulta, «algo de infantil», e que sua personalidade se define por um tipo de inadaptação fundamental, quintessencial, à sua idade e à sua posição, é rica de lições e de perspectivas, desde que se possa reformulá-la em termos não psicológicos para lhe conferir uma significação mais fundamentada na realidade. O que Freud atribui então aos «artistas» me parece poder ser aplicado igualmente a muitos «homossexuais» de ontem e de hoje, ou ao menos àqueles que não tiveram filhos e que podem, por isso, se comportar ou nutrir a fantasia de serem eternamente jovens, na medida em que não tiveram de carregar o peso das responsabilidades implicadas na condição de ser pai ou mãe e nas transformações sucessivas da idade social que essa condição traz consigo"
e continua ao afirmar que há uma "distância constitutiva" nessa característica, na propria constituição do sujeito há uma diferença primordial para o normativo, que também pode ser encontrada nos "trânfugas de classe":
"A distância constitutiva que uma sexualidade «desviante» representa em relação à norma, à normalidade, às formas instituídas da vida cotidiana, produz, portanto, um desajustamento relativamente grande, obviamente dependendo dos indivíduos, se comparado aos processos de uma inscrição harmoniosa no mundo familiar, social e profissional. Isso é verdade também, ainda que em outro nível, para todos aqueles que se encontram numa «saia justa» em função de seu habitus cindido ligado a uma trajetória social ascendente. Para um indivíduo, o fato de ocupar certa posição, certo lugar, certo status que não eram óbvios, porque não haviam sido desde sempre destinados, admitidos ou preparados para eles, produz um efeito muito característico de distância desse papel, bem como uma forma bem peculiar de espírito crítico, cuja expressão se traduz em comportamentos desconcertantes aos olhos dos outros ocupantes das mesmas funções.
Contrariamente ao que se poderia imaginar, sem dúvida é bem mais complicado não coincidir com o que se é - profissionalmente, socialmente etc. - do que corresponder perfeitamente a isso. E como se alguma coisa de outro passado perdurasse na situação presente, tornando-a instável e, às vezes, insustentável. Isso faz com que fiquemos deslocados, em todos os sentidos do termo.
Os mesmos processos explicam por que, tal como perduram os sonhos adolescentes ou a percepção adolescente de si, também os afetos sociais - como o trauma da vergonha, seja ela social ou sexual - guardam sua vivacidade por muito tempo depois do período em que foram formados, quando já perderam toda razão de ser e toda significação. Mesmo que trabalhemos conscientemente para desconstruir e abolir a força desses afetos sociais, eles parecem constantemente reanimados por uma lei de conservação da energia psicossocial, que torna lento o seu apaziguamento, e ainda mais lenta a sua extinção."
toda essa reflexão deixa o livro interessante, como são os outros de eribon que já li, mas há sim um momento de excesso de análise de outras obras que atravanca o desenvolvimento - entendo que tratam dos temas propostos e são as obras que inspiraram o retorno a reims, mas gosto mais dos momentos em que eribon apresenta suas ideias para além de análise de obras alheias.
por fim, só reafirmo o desejo de que mas obras de eribon fiquem disponíveis em edição brasileira, porque é um dos autores mais interessantes da atualidade e porque seus temas e seus tópicos me atravessam e transformam.