(spoiler) César Aira tem um modo único de narrar. O próprio autor denomina este procedimento de "fuga hacia adelante", através do qual os acontecimentos se precipitam, um após o outro, num frenesi de absurdos. Suas narrativas não são calculadas e manipuladas para que cada evento tenha uma função clara no evolver da história, de modo ao leitor fechar o livro e ser capaz de racionalmente reconstruir, através de relações de causa e consequência, aquilo que lhe acabara de ser revelado. Aira parece explorar, até o limite, os efeitos da contingência, dando a sensação ao leitor de que não há instância algum em controle da narrativa, que corre ao sabor de excentricidades ora cômicas, ora de uma violência perturbadora.
Nesta novela, Aira tece sua crítica social a partir de um casal de idosos que, ante à penúria que a crise dos anos 2000 na Argentina lhes logrou, passam a fazer entregas noturnas de pizza para complementar a renda. O ambiente de crise, no entanto, não leva a uma paralisia na narrativa ou numa redução no horizonte performático das personagens. Pelo contrário, a crise é a desculpa que Aira tem para nos dizer que tudo é permitido, repetindo, em outros termos, o adágio de Dostoievski de que se Deus não existe, então tudo é permitido. Porém, a chave agora parece ser "se o Estado, a polícia, a justiça, não mais existem, então tudo é permitido".
É nesse ambiente de ausência e abandono de instâncias reguladoras que as personagens se inserem. O bairro de Flores, no qual a história transcorre, é acometido por um recente sequestro e assassinato de um jovem motoboy, que choca a comunidade, e revela a completa e paradoxal inoperância da polícia. Aira brinca com o fato de que, num sequestro, a polícia não deve interferir nas negociações e tampouco deve ser acionada, mas tem de, ao mesmo tempo, estar ciente e pronta para não agir. A inação da polícia é representada já no nome do investigador, que não deve oficialmente investigar o caso para não atrapalhar as negociações, Zenon, remetendo ao pensador grego que via o real movimento como uma impossibilidade.
Há também uma boa dose de crítica às artes contemporâneas, que fazem relações arbitrárias entre duas coisas quaisquer. Aira revela um esgotamento da arte enquanto representação da realidade num dado momento em que um escritor boliviano renomado -- o qual se descobre ter apenas inventado uma máquina de produzir textos -- alega que há tantos artistas atualmente, com tantas produções artísticas, que os eventos que elas arbitrariamente retratam estão sendo capazes de antecipar a realidade. A ideia é a mesma que diz que um bater de teclas aleatório feita por um macaco numa máquina de escrever, eventualmente, seria capaz de reproduzir a obra completa de Shakespeare.
Para além do esgotamento da arte, ela também se teria corrompido. A principal financiadora de projetos culturais da Argentina, no livro, desviava recursos para financiar a especulação imobiliária no bairro de Flores. E o fazia financiando projetos fictícios e mobilizando artistas laranjas, havendo inclusive um crítico literário que publicava críticas fictícias de obras inexistentes.
Ao final, descobrimos que, mesmo as identidades dos protagonistas eram falsas. O casal de idosos era composto por um bandido aplicador de golpes que sofre de amnésia -- como nunca foi pego em flagrante e nunca se lembra do ocorrido, nunca foi pego --, além de um travesti cego que planeja matar o velho. O crime de assassinato que abala a comunidade tampouco é solucionado. Aira adiciona camadas e mais camadas de dúvidas sobre o que teria ocorrido: um acidente triplo na estrada, um roubo de carro, no qual o jovem sequestrado teria sido avistado, o sumiço da cabeça deste após ter sido morto...
Todas as personagens acabam fortuitamente encontrando-se nos túneis subterrâneos de Flores, todos correndo aleatoriamente pelos labirintos. Esse movimento repetitivo e arbitrário das personagens é comparado pelo autor ao movimento das constelações, numa repetição infinita, como se as personagens estivessem presas a essa dinâmica para sempre.
A cena final é absolutamente grotesca, profana e vulgar (além de bastante cômica, claro), como se Aira estivesse profanando o próprio gênero narrativo, a própria literatura, como se a única forma de fazer literatura num mundo em crise apenas fosse possível a partir de sua dissolução.