Como normalmente nado contra a maré, qual Adeus a Berlim, eu tinha mesmo de começar por um título menos conhecido, menos popular, aliás, tão pouco popular que o GR lhe atribui uma pontuação de 3,42. E é merecida? Com certeza que não!
A precisão e a capacidade de recriar cenários realistas é uma coisa que temos forçosamente de admirar em Isherwood.
O seu humor negro é resultado da realidade absurda que experienciou em vida e a sua consciência política é evidente desde as primeiras linhas de texto.
Em O Memorial - Retrato De Uma Família- o ritmo desapressado não torna a leitura muito fácil; a época em que o autor escolhe ambientar o romance também não é das mais empolgantes para a ficção, mas, para uma leitura histórica do que foi a Europa de século XX, os anos 20/30 não poderiam ter sido melhor escolhidos.
1928:
"Um mundo belo e feliz, no qual o Verão seguinte seria idêntico e os seguintes também -a maledicência provinciana, os bailes, o anúncio dos casamentos, as meninas debutantes, conversas sobre o que se dispendia para manter o nível de vida de cada um - os tiros, a caça, a criação - alusões humoristicas sobre gente que tinha enriquecido à custa do algodão - a Sra. Beddoes e os outros a passarem por entre a mesa de chá e a estula fria com
pratos com sanduíches de agrião peopino. Aquele velho mundo, seguro, feliz e belo."(p.77)
Velho, seguro, feliz e belo não fossem os conflitos familiares, a tentativa desesperada de afirmação de superioridade de classes; e uma tentativa de suicídio.
[E entra o flashback cinematográfico]
1920:
A guerra não é um incidente ultrapassado. Claramente exerce um poder sinistro sobre os Vernon e os Scrivens para quem a morte de Richard Vernon - elemento de ligação entre as duas facções - foi decisiva.
A morte, as privações, a insegurança tomaram definitivamente conta da Europa e traduzem-se em resquícios e maneirismos absurdos que perduram nos comportamentos da sociedade:
"Aquela sala era demasiadamente grande para três pessoas, quanto mais duas, e, na ideia de Eric, estava associada a visitas e a enormes refeições que duravam horas a fio. Para mais, tinha-lhe parecido vagamente patriota utilizar a sala mais pequena; como parecia patriota, então, fazer tudo, por mais inútil que fosse, que tornasse as coisas menos confortáveis."
137
1925:
Cambridge - dois estudantes, dois primos, cada qual lidando com a realidade de um mundo em repentina mudança, tentando o seu melhor pela sobrevivência.
Londres - duas mulheres, esposa e irmã do soldado morto, cada qual lidando com o passado tentando determinar que futuro resta a quem perdeu já tanto:
"...penso que a felicidade pertence aos jovens. Os velhos têm recordações.(...)Acho que se se foi muito feliz durante algum tempo da nossa vida, então nada mais interessa."
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[E de volta ao presente]
1929:
"... parecia-lhe ter sido inacreditavelmente excessivo o que acontecera e tudo tão complicado e tão difícil que, se aos quinze anos alguém lhe tivesse trazido um livro e lhe tivesse dito: «Olha. É isto tudo que tens à tua frente», ter-se-ia sentido como uma estudante em exames, confrontada com um programa absurdamente extenso: «Mas eu não poderei nunca conseguir fazer tudo isso!» E, no entanto, conseguira até ao último pormenor; e, afinal, tinha sido fácil sem ser especialmente estranho ou excitante. E como tudo passara depressa!"(p.247)
Como quer que o mundo gire, em qualquer direção que a seta aponte, a vida tem as suas formas de se refazer. Para uns significa apostar tudo a troco de experiências fortes; para outros significa recordar; para outros ainda significa apagar o passado e criar um futuro de raiz.
Richard Vernon deixou mulher, filho, irmã, sobrinhos e um melhor amigo para trás. A tristeza não os matou, e não os matou a saudade e não os matou a dor. Cada um continuou a viver a vida que lhe cabia, mais próximos ou mais afastados, mais felizes ou menos do que quando ele era vivo. Mas a vida continuou. Porque não foi a morte de Richard que lhes retirou o tapete debaixo dos pés...
"Sabes - disse Franz, muito sério e evidentemente a repetir algo que ouvira aos mais velhos: - aquela guerra... nunca deveria ter acontecido."
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Agora sim, venha O Adeus a Berlim...mas de preferência com uma edição mais cuidadinha que esta estava cheia de gralhas e erros tontos (como é mais antiga que eu - um nadinha - dou desconto por esta vez).