Chega o momento em que todos nós, enquanto indivíduos e humanidade, temos de enfrentar a dura realidade. Às vezes esta faz-se anunciar por convulsões sociais (em tantos livros assim o é) outras, como aqui, ela chega até nós sob a forma de uma baleia branca.
"- Sabem que uma baleia acaba de dar à costa? - prosseguiu - A alguns quilómetros daqui...uma baleia branca."
(p. 13)
Quando uma baleia dá à costa sem vida, a população local, perturbada na sua redoma de vidro, reage com asco pelo animal já putrefacto e encalhado na praia. Pierre e Odile, todavia, movidos de uma curiosidade quase mórbida não descansam até que ponham os olhos em cima do bicho. E é logo nesse momento que a narrativa (que é muito curta) se adelgaça e nos começa a oferecer delicadas metáforas que nos permitem descodificar os múltiplos símbolos que nos são apresentados.
Antes de conseguirem estar lado a lado e face a face com o enorme animal exangúe de vida, numa praia deserta, Pierre, de entre eles, reflete:
"Havia assim uma coincidência entre as convulsões da nossa época, o milagre das almas que se reconhecem e os acasos dos refluxos costeiros. No caminho, eu dizia a Odile que a baleia vinha completar este universo caótico, secretamente concertado no invisível, que ela era um monumento pousado sobre o cataclismo europeu."
A própria Odile quase não sabe o que é uma baleia, "menininha como é" (p. 22), assim lhe diz o seu acompanhante.
E aqui é necessário fazer um aparte. O romance Baleia é escrito, segunda a esposa do autor, em 1949, numa França convulsionada e anquilosada por anos de guerra, ou guerras.
Odile é jovem (o tempo desta narrativa não é nunca claro) e, podemos assumir, talvez demasiado jovem para conhecer tais cataclismos se estes, como a baleia, lhe baterem à porta:
"- E se esta história fosse falsa? - insinuou [Odile].
- Tenho a certeza de que não é. - respondi-lhe."
(P. 19)
E não era.
Apenas o contacto com a materialidade, materialidade já sem vida, da baleia trará a Odile o conhecimento de que carece:
"A bem dizer, era preciso fazer um esforço para pensar aquilo em termos de vida, para nos persuadirmos de que existia ali uma vida extinta e não apenas uma massa inorgânica. Mas, à falta de melhor, havia um pormenor a lembrar-nos que aquela coisa tinha estado viva: o cheiro."
(p. 27)
O espetáculo da vida e da morte desfila agora frente aos seus olhos:
"Demos lentamente a volta à maravilha. Com todo o seu peso ela assentava sobre a praia como se já só tentasse desaparecer, como se tivesse decidido passar a pertencer à terra."
(p. 29)
"Por vezes, no meio das bolhas de saliva que deslizavam à superfície da água, víamos mesmo agitar-se um farrapo de carne, e nada era mais perturbador do que aquele abandono num corpo outrora feito de força e de vontade. Tinha assim deixado de se opor, como tudo o que vive, de se erguer contra o vento, de castigar a vaga e de usar em seu proveito qualquer resistência. Uma obediência insidiosa, uma docilidade insuportável...
(p. 31)
A própria baleia parece reunir os traços patéticos e lamentáveis de uma nação destroçada.
"Já nada naquela proa que devia ter sido a cabeça se distinguia do desmoronamento geral.[...] Tudo aquilo no limite do informe, fronteira movediça onde as imagens de uma grandeza perdida e de uma consciência dissipada na matéria rivalizavam com a obsessão do odor e as químicas da liquefação."
(p. 32/33)
Da derrocada (da morte simbólica da baleia) Gadenne extrai, curiosamente, a esperança espinhosa dos dias vindouros em que repetiremos os mesmos erros:
"Um dia, apagados os últimos vestígios, crianças haveriam de ali vir construir as suas trincheiras e os seus castelos fortes e efémeros; e talvez lhes contassem, sem acreditarem muito nela, uma bonita história de uma baleia..."
(p. 33/34)
Pierre e Odile parecem, no meio de todos os outros, os únicos conscientes da simbologia que se adere perniciosamente à imagem que vêem:
"Ali estávamos, esperando com uma enorme impaciência a forma que sairia do cadinho onde marulhava p mundo em ebulição."
(p. 35)
Subitamente, os símbolos confundem-se de novo e a guerra (já não mais física) faz-se contra um único inimigo. A morte:
"Homens e animais, tínhamos o mesmo inimigo, uma única ciência, uma única defesa; estávamos ligados.[...] Aquela baleia parecia-nos ser a última; como cada homem cuja vida se extingue parece ser o último homem."
(p. 41)
Enfim a visão da baleia esvai-se dos seus olhos, Pierre e Odile tornam a casa, mudados.
"Bastou-nos chegar ao elétrico que nos devia trazer de volta à cidade para termos a certeza de que o mundo vivia na ilusão de continuar a sua vida rotineira e indiferente."
(p. 42)
Como acordados após um sonho, refletem então a experiência que tiveram. Mas essa reflexão fica ao critério de cada leitor desvendar.
Agora, esta é uma leitura possível e a que, nestes tempos, me sugeriu fazer. Obra cheia de múltiplas referências literárias, obra metafórica e parabólica, com laivos de uma decadência depurada pelo século XX, que se associa forçosamente ao teatro bélico, ao confronto religioso, à filosofia existencial, Baleia é realmente um poço sem fundo onde cada leitor espelhará os seus maiores receios e de onde sairá como que purificado por compreender finalmente junto de Pierre e Odile:
"Julgáramos ver apenas um animal que dera à costa: contemplávamos um planeta morto."
(p. 41)